
"Dane-se a Teoria da Relatividade - comprei sandálias novas e vim para a praia."
- Oi, meu nome é Gabriela, e estou há um fim de semana sem procrastinar.
- Oi, Gabriela. - disseram as vozes em coro, como manda o protocolo.
Ao meu redor estão sentados amigos e desconhecidos, de idades diversas. Alunos de pré-vestibular e faculdade. Pessoas fazendo mestrado, doutorado, estudando para concurso público. Burocratas que atrasam relatórios, professores que preparam aulas em cima da hora, desempregados que passam o dia na internet, freelancers que pedem sempre ampliações de prazo. Gente que, em geral, é inofensiva para o resto do mundo, causando danos apenas a si – essa é minha vida, esse é o meu clube. E mesmo que estivéssemos juntos nessa madrugada de quinta mais para fugir de uma tarefa qualquer do que realmente para fazer terapia, senti-me encorajada a prosseguir.
- Eu tinha uma única tarefa para cumprir no último fim de semana. Um conto. E não é como se eu tivesse que começar do zero. Eu já havia passado e repassado inúmeras vezes o argumento dentro da minha cabeça. Cheguei a fazer um rascunho num caderninho, há coisa de um mês. E teria me esquecido completamente do texto, do rascunho e das minhas promessas de que “dessa vez vou me levar a sério”, não tivesse adquirido o hábito de compor listas semanais enumerando tudo o que precisa ser feito.
As pessoas me olhavam agora com um pouco de enfado. Tudo bem, eu não havia descoberto a pólvora. Eu sei que é de prática comum organizar agendas de papel ou virtuais, fazer listas de compras, colar post-its no monitor, amarrar barbantes no dedo. Mas, poxa, mas também não é pra fazer caso da minha nova obsessão. Foi nessa hora que agradeci mentalmente à esperteza do coordenador, que marcou a reunião em um sótão que nenhum sinal de celular alcançava – e por ter desativado o wifi do prédio em caráter permanente. Mesmo a garrafa de café e os biscoitos sem gosto estavam expressamente proibidos até que a reunião terminasse. A única coisa que poderia competir por atenção comigo era uma rachadura na parede e, embora eu tivesse notado umas 3 pessoas interessadas nas causas e consequências da fissura, o resto estava com os olhos em mim, ainda que a contragosto.
- Comecei a carregar minhas listas de um lado para o outro, acrescentando e riscando itens. São listas enormes, sem uma ordem de prioridade aparente. É claro que a entrega de um copidesque não tem o mesmo peso de uma ida à venda da esquina para comprar suco, mas ambas as atividades estavam lá, lado a lado, democraticamente. Assim como compromissos na auto-escola, a lembrança de terminar o Psicopata Americano, levar uma calça jeans para fazer bainha, me inscrever numa matéria de doutorado, comprar A Câmara Clara, ir ao cinema com um amigo, achar livros perdidos nas estantes. O importante era terminar a semana fazendo o maior número de coisas possíveis. Intercalar tarefas chatas, se fosse preciso (quantas vezes fosse preciso), até que estivessem concluídas. O que não estivesse riscado na lista de uma semana, acumularia para a da semana seguinte, com a clara intenção de me matar de vergonha por conta da minha inapetência para cumprir tarefas idiotas.
O coordenador bocejou. Até o coordenador. Já estava pensando em me levantar para ir embora quando lembrei da minha lista atual, na qual constava o item “post para o blog”. Se não colocar na lista não atualizo a menos que tenha algo muito mais importante a ser feito. E eu estava numa daquelas semanas de escassez total de assunto. Para se ter uma ideia, o ponto alto dos últimos dias havia sido um sonho estranho que tive com um episódio de Chaves. Era contar minha história à plateia (e assim terminar um post) ou amargar mais uma postergação.
- A tarefa do conto ficou tempo demais vagabundeando pelas listas. Acho que a lógica da culpa ajudou para que eu finalmente me dispusesse a escrevê-lo. Todas as coisas para alguém já haviam sido feitas. Resolvi papeladas acadêmicas, entreguei um freela, comprei coisas para a casa, marquei médico para o avô. Claro que todos esses atos envolviam também a mim, minhas finanças, as pessoas que amo. Mas o conto, essa tarefa completamente egoísta de satisfação da simples vontade de escrever… esse eu não havia feito. Então disse a mim mesmo, cancelando os compromissos que havia marcado para sábado e domingo, que daquele fim de semana não passava. Eu e minhas resoluções que parecem ideias geniais por 5 longos minutos. Eu gostaria de dizer que, assim que a manhã de sábado começou, eu me sentei em frente ao computador com minhas anotações e comecei a digitar, mas quem é que ia acreditar numa bobagem dessas? Tive sono, fome, sede. Precisava checar os e-mails, conversar com sei lá quem, olhar um link que recebia, atualizar o facebook, twitter e o dia lá fora está tão bonito, por que é que eu desmarquei minha ida à praia? Será que ainda dá tempo: não, o celular da minha amiga só dá “fora de área”. Ai meu deus, tá passando Caça-fantasmas na TV.
A empatia do grupo parecia ter voltado. Procrastinadores compulsórios conhecem bem os mecanismos de auto-engano. Sabem que os hipotéticos cinco minutinhos de descanso viram cinco horas com facilidade. A cada duas linhas escritas o mundo chama, e surge uma vontade de aprender a dançar a hula justamente quando há tanto a se fazer. E é claro que sempre há um curso online e gratuito sobre o tema com apenas 40 horas de duração.
Mesmo a tentativa de isolar-se do mundo exterior é falha, se você mantém as abas do seu navegador aberto: a dificuldade de resistir ao tumblr, 9Gag ou aos vídeos de gatos do youtube é imensa. E quem é que tem coragem de abrir mão da internet? Há sempre desculpas: “posso precisar de uma referência”, “preciso de um bom dicionário de expressões idiomáticas”, “consulto o VOLP direto”. Resolvi terminar a história de uma vez, já que nem eu aguentava mais sustentá-la.
- Foi difícil. A cada parágrafo, um mundo de vontades. Cedi a algumas, a outras resisti. Por muitas vezes me peguei diante do computador há não sei por quanto tempo, sonhando acordada. Não fui à praia, vi o sol pela janela. Gastei tempo selecionando playlists e procurando arquivos de música que eu “precisava” ouvir naquele momento. Mas na madrugada de domingo eu tinha à mão dez páginas. Não eram excelentes dez páginas, tampouco brilhantes. Eram até meio bobas, para ser bastante sincera. Mas eram minhas, eu as havia feito.
- E aí, você vai ler agora o conto pra gente? – perguntou o coordenador, cuidadoso.
- Ah, não. Eu só terminei o rascunho. A edição e revisão estão na lista da semana.
A sala suspirou. Eu até poderia interpretar o suspiro coletivo como uma reação física à consciência de que é difícil se livrar de velhos hábitos. Mas, convenhamos, estavam todos aliviados por não terem de ouvir um relato de dez páginas às três da manhã. Quantos teriam de estar de pé em duas, três horas? E quantos prazos não estava expirando enquanto nos olhávamos em silêncio? O café estava finalmente liberado. Avançamos sobre a mesa como se os biscoitos secos fossem nossa salvação.
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Em tempo: o André, do Marmota Digital – blog que vale a visita, aliás – mandou o link para o elucidativo site do Clube dos Procrastinadores Anônimos – que também vale a visita, caso você esteja pensando em se livrar de alguma tarefa entre agora e daqui a pouco.
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