Festa no Céu ou Esta não é uma crítica, é uma intimação.

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Entramos na sala e nos surpreendemos. Não era, afinal, a sessão de onze horas do Cine Belas Artes com um filme turco sobre um rapaz cego que sonha em ser filatelista. Era uma animação para crianças, em 3D, em um cinema de shopping. Por que não havia nenhuma criança? Aliás, por que a sessão estava tão vazia? Contando com nós dois, éramos cinco ao todo. Talvez o filme fosse uma droga e só nós não tivéssemos recebido o memorando por e-mail. Mas o ingresso estava comprado e eu tenho por princípio jamais sair de uma sessão de cinema pela qual eu tenha pagado antes que o filme termine, nem que seja para falar mal com propriedade e lamentar o dinheiro que gastei.

Mas o filme… meu deus, o filme é incrível! (Em tempo, antes que eu me esqueça: estou falando sobre Festa no Céu, de Jorge R. Gutierrez) Ainda que a história fosse talvez linear demais e até mesmo previsível (desenho para criança, Gabriela, respira fundo e admita que você não é o público alvo principal), o visual era embasbacante, os personagens bem construídos, as piadas não eram idiotas, a trama estava cheia de boas lições e, apesar de ser fundamentalmente uma história sobre um triângulo amoroso, a personagem feminina principal tem uma personalidade só para si e não se encaixa nem de longe na definição da donzela em perigo.

Tudo bem, era uma segunda-feira, e nem estávamos na época das férias. E a divulgação não era padrão Disney/Pixar, ainda que o Mc Donald’s esteja vendendo bonequinhos do filme no lanche infantil do mês. E um pouco de pesquisa me mostrou que o filme foi até bem no fim de semana de estreia: 342.404 ingressos vendidos, segundo o Adoro Cinema. (Para fins de comparação, o sucesso retumbante que foi Frozen vendeu 679.503). Me tranquilizei. Quando cheguei em casa, no entanto, mandei mensagens para cinco amigos que eu sabia que também adorariam o filme, mas nenhum deles sequer sabiam da existência. Piraram no trailer, mas foi algo que escapou do radar de muita gente.

Então aqui estou eu, fazendo o trabalho de divulgação boca-a-boca, ou, ao menos, blog-a-blog. Não porque eu não acredite que o filme vá se pagar (ele está indo muito bem, obrigada, sem mim, e não é como se eu pudesse acrescentar muito a mais), mas porque acho que precisamos apoiar os projetos que gostaríamos de ver com mais frequência na tela ou em qualquer outro meio.

THE BOOK OF LIFE
Festa no Céu, uma tradução ri-dí-cu-la para The Book of Life, é uma celebração de tradições folclóricas sobre o Dia de los Muertos mexicano. Como talvez a ideia da celebração do dia dos mortos como uma festa seja um choque cultural para muitos, o filme é esperto em enquadrá-lo em uma moldura palatável a gostos mais ~sensíveis~. Um grupo de crianças americanas  encontra uma guia de museu especial, que as conduz por uma pavilhão de tradições mexicanas até o Livro da Vida, que guarda todas as histórias de que o mundo é feito. “Qual o lance dos mexicanos com a morte?”, pergunta o guri.

A história contada pela guia tenta explicar. Segue uma imersão no universo suscitado pelos bonecos de madeira que a guia apresenta, um mundo estilizado em que duas divindades resolvem fazer uma aposta. La Muerte é a senhora do Reino dos Lembrados, um lugar de festa perene para todas as almas ainda celebradas e queridas pelos vivos. Xibalba é o senhor do Reino dos Esquecidos, um lugar frio e triste, bem, faça o paralelo você mesmo. Entediado com a modorra de seu reino, Xibalba, o trapaceiro, desafia La Muerte (sua amante/ex-amante, os dois tem uma relação ~complicada~): ambos avistam um florescente triângulo amoroso em três crianças e decidem que cada um escolherá um campeão que tentará se casar com a mocinha no futuro. Ao vencedor, as batatas. Se Xibalba vencer eles trocarão de reino. Se La Muerte vencer, Xibalba deixará de se meter na vida dos vivos.

THE BOOK OF LIFE

E segue o desenrolar da história. Manolo, o escolhido por La Muerte, irá se tornar um toureiro incapaz de matar  touros (o que desonra sua família de toureiros), preferindo a vida de cantador. É um moleque esquisito e sensível que vai tirar Creep no violão quando estiver se sentindo triste (não é força de expressão, a cena realmente acontece). Joaquim é filho do herói póstumo da cidade, e depois que consegue por Xibalba um amuleto que garante invencibilidade em batalha, torna-se um tipo de action-figure vaidoso, mas com bom coração. Maria é uma guria impetuosa demais para seu pai, que tenta educá-la/ amaciá-la mandando-a para estudar em um convento na Espanha. Provavelmente o convento mais bizarro do planeta, porque ela aprende de esgrima a kung-fu. Ambos os rapazes entrarão em uma competição pela mão da mocinha, mas sem esquecer da amizade entre eles.

O filme também quase recria a história de Orfeu e Eurídice, acompanhando a jornada de um dos protagonistas pelo submundo. As figuras de madeira transformam-se nas caveiras mexicanas. O mundo dos mortos mexicano é a melhor parte do filme. Cores, filigranas, texturas deslumbrantes… se eu for obrigada a continuar, encherei parágrafos de adjetivos que não darão conta do desbunde visual que o filme apresenta.

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The Book of Life (me recuso a ficar chamando o filme de Festa no Céu, afinal a festa não é no céu, pombas, é no mundo dos mortos – outras referências mitológicas, lide com isso) foi produzido por Guillermo de Toro, salvando o projeto de Gutierrez, que havia sido abandonado pela Dreamworks, por “diferenças criativas”. Não deve ser fácil para um estúdio bancar a ideia de um pós-vida festivo. Cosmogonias à parte,  a lembrança e a celebração da ancestralidade exercem papel fundamental para o tema de The Book of Life: ser esquecido é deixar de existir. Não apenas uma alma, é claro, mas toda uma cultura.

Para além desse ensinamento, o filme ainda se posiciona contra a crueldade das touradas, celebra o valor da amizade, mostra os conflitos e os laços que unem uma família e explicita o amor entre um filho e sua mãe (quando o mais comum em representações infantis – à exceção de Bambi e Dumbo – é desenvolver laços de pais com filhos e filhas com mães). Também dá um jeito de enfiar a mensagem “não tenha medo de ser você mesmo”, conta com uma divindade extra, responsável pelo equilíbrio de todas as coisas, apresenta personagens femininas críveis e importantes em um cenário que à primeira vista pareceria completamente masculino e ainda insere um monte de canções grudentas no meio, incluindo uma versão de I can’t help falling in love with you. Tá bom ou quer mais?

(A única tristeza foi não ter encontrado cópias legendadas. As versões das músicas ficaram horrendas, ora com legendas, ora sem. Fora o time que se reuniu para dublar o filme nas gringa: Zoe Saldana, Ron Pearlman, Danny Trejo, Plácido Domingo (!!!!!) Já estou esperando o blu-ray sentadinha)

Se você gosta de animações, corra para o cinema mais próximo. E fique com o trailer, caso eu não tenha feito um bom trabalho ao explicar porque o filme é tão bacana.

Nossa Senhora da Concisão

"Pode cortar esse capítulo todo porque eu não vou ter tempo de ler, tenho filho pequeno pra criar".

“Pode cortar esse capítulo todo porque eu não vou ter tempo de ler, tenho filho pequeno pra criar”.

Varei a madrugada tentando explicar a tese que venho escrevendo há meses em 20 parcas linhas para o caderno de resumos de um seminário da faculdade. (Se tivessem pedido um texto de 20 páginas eu não teria demorado tanto). Foi um tal de corta daqui, tira linhas essenciais de lá, um sufoco. O que me leva a pensar: a defomação profissional me faz invejar qualquer pessoa que consiga compor uma dissertação de vestibular ou de concurso. Introdução, dois ou três argumentos e conclusão em um espaço ínfimo. Eu posso até dar uma aula sobre isso, mas me espanta quando vejo (ou tenho de corrrigir) o milagre pronto: como é que pode?

Minha Nossa Senhora da Concisão, rogai pelos verborrágicos, mas especialmente por mim, que a inventei às quatro da manhã só porque não havia entidade adequada para acender uma vela nessa hora terrível. Não nos deixeis cair na tentação de diminuir ~só um pouquinho~ o tamanho da fonte ou do espaçamento, torcendo para ninguém notar. Livrai-nos dos adjetivos inúteis e de todos aqueles advérbios que a gente usa na hora e jura que está arrasando, para na primeira revisão se arrepender, porque, né, o texto ficou parecendo coisa de amador.

Amém.

As velas

Os olhos escurecem com o branco das cataratas. A audição fraqueja à medida que sobe o volume da televisão. A memória imediata está se deteriorando – troca o lugar das coisas da casa, perde papéis. Quase não anda mais de bicicleta, tampouco faz compras grandes no supermercado sozinho. Ainda aquece a própria comida, mas as refeições têm diminuído. Ocupa cada vez menos espaço, precisa de cada vez menos.

A pele está tão fina que a coceira da picada de um inseto pode virar um rastro de sangue. No rosto, manchas de sol cobram os tributos de uma vida inteira trabalhando ao ar livre. O burburinho do mundo agora é fonte de perigo: adolescentes de skate, aglomeramento de pessoas,  e mesmo os desníveis no chão me apavoram. E ele não olha para baixo, ele não faz concessões.

Hoje saímos à rua de braços dados. As pessoas param para falar com ele, sorriem para nós dois. Ele se estica para me confidenciar ao ouvido: “eu podia ser vereador”. Ele adora a atenção que recebe, os amigos que reencontra, as crianças que passam por ele. É preciso paciência para responder sempre às mesmas perguntas, mas como perder a calma se o que ele quer saber parece essencial, como se pressentisse que algo escapa de sua mente e que é preciso ordenar os nossos passos para que a vida atual faça sentido? Quanto à própria trajetória, no entanto, não hesita. É capaz de passar histórias que aconteceram há mais de meio século. E são sempre histórias engraçadas, mesmo que saibamos o quanto a vida dele foi difícil. O timing para piadas continua perfeito.

Voltando para casa, passamos por uma loja de artigos religiosos. Em um canto da vitrine havia uma vela votiva, queimando devagar. Ventava bastante mas a chama insistia, trêmula, ao fim do pavio. Com uma insistência que eu só poderia qualificar como milagrosa. Senti uma pontada no peito, mas sorri. Estávamos conversando sobre a festa que estou organizando para ele. “E aí, tá animado?” “Enquanto a gente estiver nessa Terra tem que estar sempre animado”. Sim, é verdade. Mês que vem vamos comemorar 90 anos de uma vela ardendo, na milagrosa teimosia de estar animado até o fim. E não é porque está brilhando menos do que já brilhou um dia que deixaremos de dançar.

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Sobre o vício de compor playlists

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(Título alternativo: Sobre como passar horas escolhendo músicas antes de começar de fato a trabalhar não é procrastinação, eu juro!)

 

Nasci na gloriosa (e breve) era das fitas cassetes. Talvez nem tão gloriosa assim, é verdade, mas, de todo jeito, a fixação por mixtapes só pode ter vindo da infância. Gravadores para copiar fitas de amigos. Esperar horas por aquela baladinha cafona que tocava no rádio e desejar a morte do locutor toda vez que ele começava a falar antes do fim da música. Editar, reeditar, colar durex na proteção contra a gravação das fitas de samba enredo do meu pai – e ouvir impropérios a cada vez que ele descobria que Atrás da verde e Rosa só não vai quem já morreu foi substituído, sei lá, por Aerosmith – eram os anos 90, afinal.

Desde aquela época – e muito antes que Alta Fidelidade me caísse nas mãos e fizesse o estrago emocional que me fez já no fim da adolescência – eu estava lá criando trilhas sonoras para pessoas, relacionamentos e situações. Não estou dizendo que é um hábito original, claro, é apenas um tique meu. Pessoas, situações, relacionamentos e viagens ganham trilha sonora na minha cabeça e, frequentemente, no Ipod. Músicas me ajudam a entrar no clima em quase todas as atividades, exceto na hora de fazer exercício porque música também não faz milagre.

Uso músicas para me descrever (a atual e sempre atualizada playlist sobre mim começa com Cat Power e termina com Blind Melon) Uso músicas para descrever meu namorado, meus melhores amigos e as boas (e as más) relações que tenho com a minha família. Cada fossa da minha vida teve obsessões musicais diferentes, dependendo dos motivos do término e do contexto geral da relação – em um espectro que vai de uma civilizada & fofinha canção de Stars à mea culpa na sofrida voz de Johnny Cash. Mas também há músicas para alguns dos momentos mais felizes: uma rodinha de adolescentes tocando Legião Urbana em Porto Seguro, uma madrugada em um inferninho lisboeta cantando com The Smiths como se minha vida dependesse disso.

Uso músicas para escrever, e faço delas uma rotina. Talvez seja uma forma de fazer com que meu cérebro entenda que precisa entrar em um mindset específico, do contrário a coisa não flui. A música foi o gatilho que encontrei para me manter minimamente concentrada. Minha tese tem pelo menos três trilhas diferentes. Gosto de ouvir jazz na hora de ler (Miles Davis, John Coltrane, Dave Brubeck), Bach para escrever e Sigur Rós para revisar. E se você me perguntar o porquê das preferências vou te dizer que não sei.

Já para escrever ficção, acredito que saber o que um certo personagem ouve já é meio caminho andado para a construção de personalidades distintas, ainda que isso jamais seja mencionado textualmente. No romance que eu estou escrevendo (é favor ler essa afirmação da forma menos pretensiosa possível porque, né, quem é que NÃO está escrevendo um romance por esses dias), uma das protagonistas, fã de Patti Smith e Leonard Cohen, vai dividir apartamento com um cara que é mais de Caetano e Radiohead. Na minha cabeça faz o maior sentido que, por isso, os dois sintam uma simpatia mútua e fiquem amigos de cara, embora não sem brigas memoráveis de quando em quando.

Uma playlist para cada estado de espírito. E uma para cada ação cotidiana. Buena Vista Social Club para cozinhar, Donna Summers para faxinar a casa. Nos últimos tempos acho que a música perfeita para viajar é a de Kevin Johansen. E atualmente eu tenho ouvido The Dresden Dolls direto porque ando nostálgica, com saudades de quem eu era quando descobri pela primeira vez a banda.

O sábio Zaratustra só poderia crer em um deus que soubesse dançar. Já eu, que estou longe de ser sábia, só poderia crer em um deus que tivesse criado o universo através da música. Essa história de No Princípio era o Verbo nunca me convenceu, as palavras parecem nunca ser suficientes e adequadas. São ásperas, imperfeitas, perdem-se no tempo e em suas próprias ressignificações: confiar o tecido da realidade a elas seria uma estupidez. Não: no princípio era um riff que durou uma eternidade, um acorde perfeito, um refrão em que o sentido importa menos do que a sensação que deixa em nós.

Biscoitos da sorte*

- “Sua natureza emocional é forte e sensível”. Agora me diz, Loris, como é que isso pode ser considerado uma sorte? O biscoito não deveria predizer um futuro glorioso para mim, ou, pelo menos, algum futuro? O Conselho de Psicologia foi consultado sobre os impactos de colocarem uma afirmação dessa sem mais nem menos dentro de um biscoito?

- Não acho que um conselho de psicologia possa fazer alguma coisa. Como tudo o que vem da China, biscoitos da sorte devem ter no mínimo uns 4000 mil anos. Quero ver legislar sobre o legado cultural e profético da dinastia sei lá o quê.

- Usando esse raciocínio, a Vigilância Sanitária também não pode inspecionar pastelarias chinesas, nem averiguar se o milenar caldo de cana está sendo extraído corretamente.

- Ainda tem os números na parte de trás, quem sabe seu futuro não esteja neles.

- Se você pensa que vou ficar na fila da lotérica você ainda não me conhece. Nunca ganhei rifa, concurso, jogo do bicho, até pra conseguir uma raspadinha extra eu tenho menos sorte que a maioria – acha mesmo que consigo acertar na loteria?

- Foi o biscoito quem disse. Questão de autoridade. Os sábios chineses devem entender mais do que eu.

- Os números são comuns a todos os tipos de sorte, eu é que tenho azar de encontrar essas pérolas de auto ajuda em vez de algum consolo oracular para o futuro. Abra o seu, o que diz?

- Pera, deixa eu só… ah, “Sua vida amorosa será feliz e harmoniosa”.

- Tá vendo? Dei a boa sorte a você e fiquei com a porcaria pra mim. Nem nisso eu acerto.

 – Quer trocar? Não ando fazendo a mínima questão de uma vida amorosa, mesmo que me prometam um felizes para sempre de filme da Disney e milionário romântico de romance de banca de jornal.

 – Não senhora. As sortes são pessoais e intransferíveis.

- Olha, não sei não. Sinceramente, não preciso de papelzinho nenhum para ter certeza de que minha natureza emocional é bem mais forte e sensível do que a sua. Pega o biscoito que tá sobrando, dessa vez vai.

-  “A tempestade arranca a árvore sozinha”. QUÊ?! É agora que eu sumo de vez com o contato desse delivery.

- Vou comprar umas mudas pra te fazer companhia. Podemos começar um jardinzinho na sacada.

* Botando a Loris e Jorge para papear de novo, porque esses dois me divertem.

Você pode ler outra conversa deles aqui.

Blogagem Coletiva: livros que marcaram a infância

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A querida da Sybylla (Momentum Saga) propôs uma blogagem coletiva e eu achei a ideia excelente, principalmente porque não ando lá muito motivada a atualizar o blog e é sempre bom não deixar acumular muita poeira por aqui. Falar sobre livros, no entanto, é sempre um prazer. Sobre os primeiros, então, melhor ainda, principalmente porque a minha trajetória de leitura não foi muito óbvia e rendeu algumas histórias engraçadas. Quer dizer, para mim, pelo menos. Se minha mãe estivesse escrevendo esse post no meu lugar certeza que ela teria um ponto de vista diferente para oferecer a vocês. 

Cena: formatura da Alfabetização – 6 anos

Eu não queria ir de jeito nenhum. Quer dizer, o chapéu e a capinha eram bonitos e eu gostava dos meus amiguinhos, mas nos foi dito na semana anterior que a gente ia precisar subir no palco e dar um beijinho na professora. Como eu odiava a minha professora (coitada!) cruzei os braços e disse que não iria. Minha mãe, sabendo que eu era uma criatura facilmente manipulável, me convenceu a ir para ganhar o livro que viria no kit, junto com o diploma – os pais devem ter comprado esse kit, não sei bem. Era um paradidático da coleção Os Pingos, chamado “Que bicho será?” Terminei o livro ainda na cerimônia, antes de sair com a minha família para almoçar. A diretora da escolinha vem dar uma de simpática e perguntou se eu gostei. “É uma porcaria”, respondi. “Só tem figura e a história é boba”. Corta para a cara da minha mãe de arrependimento por não ter me deixado ficar em casa.

*

Eu era uma criança esquisita. Quer dizer, muita gente pode argumentar – não sem alguma razão – que eu ainda sou uma criança esquisita. Mas na época em que eu tinha idade para isso, sim, esquisita, definitivamente. O primeiro grande livro da minha infância, quando sequer havia aprendido a ler, foi uma edição pocket de A Odisseia em prosa. Nós não tínhamos muitos livros em casa, esse era espólio do segundo grau da minha mãe. E eu fazia ela ler para mim. Uma das minhas brincadeiras favoritas era matar Ciclopes no quintal de casa. Ou fingir que era a Circe para poder transformar meus amiguinhos da rua em porcos.

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Cena: quarto da prima mais velha que morou uns anos com a gente (eu devia ter uns 8 anos)

Minha mãe me pegou fuçando as gavetas da minha prima adolescente, enquanto eu achava um exemplar de Brida, de Paulo Coelho. “Você não pode ler esse livro, não é adequado para a sua idade” (uma proibição meio estranha vindo de alguém que lia a Odisseia para mim anos antes, mas ok). Foi o suficiente para que eu roubasse o livro e o lesse às escondidas, depois que a casa estivesse dormindo. Não entendi metade, fiquei com um pouco de medo e desenvolvi um fascínio persistente por cartas de tarot. Mas me marcou. Eu voltei a ele na adolescência, naquela época de Jovens Bruxas era um hit (as meninas dos anos 90 queriam ser wicca, sociedade!). Se minha mãe tivesse proibido o dever de casa e os trabalhos domésticos, certeza que a vida dela teria sido mais simples. E essa é a história de como Paulo Coelho foi um dos autores da minha infância, meninos e meninas. Para vocês verem como é a vida. 

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Essa educação literária meio ao acaso, de ler o que me caía na mão, acabou deixando buracos, mas também trouxe coisas boas. A Coleção Vagalume, por exemplo, eu só fui ler quando já era adolescente, assim como os livros do Pedro Bandeira. E nunca sequer cheguei perto de um Monteiro Lobato, nem na idade adulta. Mas eu devia ter uns 9 ou 10 anos quando a minha mãe começou a comprar para mim uma coleção de clássicos da literatura adaptados e ilustrados que saíam no jornal O Globo. Foi quando  entrei em contato com a maior parte dos livros que marcaram aqueles anos, clássicos ingleses e americanos.  Eu lia a adaptação e depois ficava enchendo o saco para ler o original, que minha mãe nem sempre encontrava na biblioteca. Foi assim que conheci A ilha do tesouro, Tom Sawyer, Oliver Twist, Os três mosqueteiros, Robinson Crusoé,  e o meu favorito de todos: Moby Dick. Sinto dizer que eu não era lá uma grande ambientalista: para além de não gostar de Capitão Planeta, eu torcia para o Ahab. E fiquei entendendo tudo de vida náutica na época, no que talvez tenha sido minha primeira empreitada de obsessão por conhecimento inútil, uma vez que eu morava na serra e via praia de vez em nunca.

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Cena: aula de matemática na sétima série

O professor me tomou um exemplar de O assassinato no Expresso Oriente que eu estava lendo escondida, em vez de copiar as fórmulas que estavam no quadro. Era uma edição de sebo, mas minha mãe disse que não iria recomprar o livro para que eu aprendesse a lição, e talvez assim tirasse notas melhores. ( o que não aconteceu). Foi um trauma: fiquei meses sem saber quem era o assassino até arranjar dinheiro nem sei de onde para comprá-lo. Li quase tudo da Agatha Christie nessa época, mas esse ficou sendo o meu favorito. Talvez pelo drama. Provavelmente pelo drama. 

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Dos livros que me marcaram NEGATIVAMENTE: 

- A maldita Pollyanna e aquele otimismo sem noção que me fazia querer dar com as muletas na cabeça dela. GURIA CHATA DO INFERNO.

- Os filhos do Capitão Grant, de Julio Verne. Único volume da coleção de clássicos da Globo que não consegui terminar, quanto mais ler a versão integral. E eu gostava do Julio Verne. Já havia lido 20 mil léguas submarinas e A Volta ao Mundo em 80 dias. Acho que foi minha primeira decepção com um livro, ao menos a primeira que eu me lembro – excetuando o livro da formatura da Alfabetização. 

- Qualquer coisa que a escola me mandasse ler – inclusive alguns bons livros que redescobri sozinha, quando superei as tretas da minha cabeça dura – porque eu jamais entendi a leitura como obrigação e também nunca fui muito inclinada a confiar em professor algum. O que não deixa de ser irônico porque fui virar logo o quê? Isso mesmo, amiguinhos, isso mesmo, pequena Gabriela… fui virar professora de literatura. Só pode ter sido praga da minha mãe, e não tô nem dizendo que não foi merecida, não. Eu aceito. Tá pouco de praga, manda mais, universo.

#Chatiadíssima

Karma is a bitch

Ouvir estrelas

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Noite estrelada sobre o Ródano – Vincent Van Gogh (1888)

- Tenho essa lembrança de um churrasco da faculdade. A família de um amigo morava na praia, numa daquelas casas infinitas que são capazes de abrigar quantos colchonetes sejam necessários. Já era de madrugada e, quem não estava dormindo, estava chapado o suficiente para não fazer muito sentido. Eu me sentia um pouco enjoado e decidi deitar em uma das espreguiçadeiras de plástico no deck da piscina, para ver se o ar da noite ajudaria. E foi então que eu vi: um céu realmente estrelado, um céu de documentário do Discovery Channel.
– Ah, vá, Jorge. Jura que só foi ver estrela na faculdade?
– Não daquele jeito, eu nunca fui de acampar nem nada. Sempre achei que para ver um céu daqueles você precisava ir para algum lugar muito remoto ou para um planetário. Tô acostumado com meia dúzia de estrelas raquíticas aqui e ali… mas aquilo era a porra da Via Láctea em todo o seu esplendor.
– Cara…
– Ok, talvez seja exagero. Mas era muita estrela, pelo menos pros meus parâmetros. E naquela cidadezinha mequetrefe que ficava a uma hora de carro do campus, saca? Descobri naquela noite que não precisava ir muito longe para ver o universo.
– E aí?
– Aí eu chorei um pouco, porque era a coisa mais bonita que eu tinha visto na vida. E depois vomitei no deck.

- Quando eu era pequena tinha medo de olhar para cima durante a noite. Meus pais e minha avó moravam em casas geminadas e eu lembro que quando precisava passar de uma para outra eu ficava com os olhos fixos nas chaves para não ver a noite.
– Mas do que é que você tinha medo?
– Não era bem medo, era nervoso. Não do escuro, ou das estrelas em si, mas do efeito provocado pela combinação das duas coisas. Com o dia claro se podia ver o sol e o céu azul e mais nada, parecia que tudo terminava ali. Acho que as estrelas davam uma noção de profundidade no céu que me deixava desconfortável. Era mais do que o olho podia capturar e muito mais do que eu podia entender.
– Você provavelmente não elaborava assim na época, Loris.
– É claro que não, besta, é só uma suposição. Mas lembro de não me permitir olhar pra cima, e agarrar o molho de chaves com tanta força que minha mão sempre ficava cheirando a metal.

- Um troço que me deixa cismado: a criatividade que as pessoas tinham para nomear constelações.
– Sempre pensei nisso, sabia? Como é que alguém um dia olhou pro céu e disse que hum, aqui estou vendo uma Ursa Maior, a Ursa Menor e essa meia dúzia de estrelas aqui meio que fazem o contorno de uma hidra?
– Já sou ruim para enxergar formato em nuvem, quanto mais em pontos de luz aleatórios.  O Cruzeiro do Sul deve ser a única exceção.
– Justo. Se a nossa vida dependesse da navegação por estrelas você sabe que a gente não iria longe.
– Eu não consigo nem achar os pontos cardeais sozinho. Mas tenho certeza que deve ter um aplicativo pra isso.
– Então vamos ter que instalar um monte de tomadas na nossa caravela.
– Sem dúvida.