Porque a culpa não é nossa

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Eu, Thelma, Louise, você e todas as outras

 

Eu tinha quinze anos quando vazaram as fotos íntimas de uma garota do colégio. Não havia nudez, apenas “comportamento sugestivamente erótico”, mas foi um escândalo na minha cidade:  em pouco tempo não se falava em outra coisa. Cópias das fotos circularam em todas as escolas do centro e o caso foi a fofoca preferida de todo mundo mesmo depois da família da menina ter se mudado. Toda vez que lembro dessa história sinto uma vergonha imensa. Nunca troquei mais do que meia dúzia de palavras com ela, mas fui mais uma a condená-la em silêncio. Não lembro de ter ouvido ninguém defendê-la, não havia uma única voz dissonante para nos servir de contraponto. Mesmo os professores (adultos responsáveis, oi?) se dividiam entre aqueles que fingiam ignorar a polêmica e os que faziam piadinhas sobre o ocorrido. A opinião geral era a de que ela merecia tudo aquilo, já que tirou as fotos porque quis, sem pensar nas consequências.

Fui criada para acreditar que uma mulher “tem que se dar ao respeito” e que se uma mulher resolve ficar com muitos ela só pode ser puta. E para além das minhas crenças, é certo que ainda alimentei inveja por ela ser mais bonita e mais experiente do que eu jamais poderia ter sonhado naquela idade – quando minha síndrome de patinho feio estava no auge. “Bem feito”, pensei uma e mil vezes, sem racionalizar direito por que é que eu achava que ela merecia ser punida. Memorando extraordinário para o passado: ela não merecia, ponto. Nenhuma mulher vítima da indiscrição e da maldade alheia merece, quanto mais uma menina que devia ter a mesma idade que eu. A cada caso de hostilização de meninas e mulheres vítimas de “revenge porn” eu volto a pensar nessa garota, e em como deve ter se sentido sozinha. Nós éramos todos muito jovens e  devíamos ter nos portado melhor, assim como deveria nos ter sido dito que caçar as bruxas era apenas um jeito perverso de caçar e reprimir a nós mesmas. Nunca houve consequências para as pessoas que roubaram os negativos e fizeram cópias das fotos. O caso acabou esfriando para nós, que nada tínhamos com isso, mas imagino como não deve ter sido para ela. E dizer que “imagino” não é o suficiente, jamais será.

Não sei onde ela está hoje, que tipo de pessoa se tornou. Mas, se eu pudesse – e ciente de como pedidos de desculpas são inócuos –  queria dizer que sinto muito. Com alguma sorte a gente aprende a ser menos babaca, a pensar por si, a questionar os reais motivos por trás de nossos preconceitos. Isso não quer dizer, é claro, apagar da ficha de ninguém as injustiças cometidas. Infelizmente não posso voltar ao passado para dar um esporro na  adolescente mesquinha que eu fui, mas que posso cuidar não só de não cometer os mesmos erros, como tentar impedir que outras pessoas os cometam, seja como professora, como amiga ou como escritora fajuta de internet. Sinto muito, moça, de verdade. Reproduzi discursos que também me engaiolavam, bati palmas para o status quo que insiste em podar mulheres e meninas que e uma forma ou de outra não se encaixam nos rígidos papéis sociais que deveriam ocupar.

Essa história não me sai da cabeça desde que começou a polêmica em relação aos resultados da pesquisa do IPEA sobre tolerância social à violência contra mulheres (documento na íntegra aqui). 42,7% da população concorda totalmente com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e 22,4% concordam parcialmente. Para além disso 35,3% concordam totalmente que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”, enquanto 23,2% concordam parcialmente. Os números são alarmantes, mas nada surpreendentes para quem e mulher , sai na rua e tem de lidar com o assédio escroto de cada dia. Opa, parece que a pesquisa do IPEA recebeu uma errata, e das grandes! (confira aqui) De todo jeito, não pretendo apagar o texto porque 1) ele não se anula porque a discussão não vai morrer e 2) 26% AINDA É GENTE PRA CARAMBA.

Grande parte dos argumentos que ouvi sobre pessoas que pretendem deslegitimizar a discussão baseia-se o fato de uma maioria de mulheres ter respondido a pesquisa, e  consequentemente colaborado para números tão altos. ” Se as próprias mulheres estão de acordo eu nem preciso comentar nada”, disse um cidadão – há muito bloqueado – no meu Facebook. O que o cidadão não entende – para além de achar que “cultura do estupro” é só uma maluquice de feminista histérica – é que a opressão tem raízes tão profundas que é comum que mulheres que tenham sido criadas sob o seu jugo reproduzam o discurso que ouviram a vida inteira de seus pais, da família e da sociedade. Eu poderia ter sido mais uma a engrossar  a estatística do IPEA, tivessem me entrevistado 15 anos atrás. Mas a gente pode aprender, repito. E, de todo jeito, e por mais que seja cruel ver mulheres reproduzindo um discurso que imediatamente se volta contra elas, ainda assim não são as mulheres que praticam qualquer tipo de violência contra outras, certo?

Não é nossa culpa. E por isso mesmo a discussão não pode parar. Às vezes certos argumentos parecem redundantes, mas precisam ser reafirmados, porque há muita gente por aí que vai ouvi-los pela primeira vez – talvez hoje, talvez amanhã, talvez daqui a 15 anos. Dá muito trabalho quebrar a carapaça da tradição, da educação recebida em casa, das influências do ambiente em que crescemos e das opiniões de nossos pares. E é por essa razão que preciso fazer eco a tudo o que já foi escrito sobre o assunto até agora, torcendo para que ajude alguma mulher a perceber que a culpa não é dela.

A culpa não é sua se você teve suas fotos roubadas e espalhadas na internet por um ex-amante ou por desconhecidos.

A culpa não é sua por ter bebido demais e pegado no sono durante aquela festa.

A culpa não é sua por ter mudado de ideia no meio do caminho, e decidido parar de ficar com alguém.

A culpa não é sua a cada cantada ouvida na rua, a cada vez que está escuro e um estranho te barra o caminho, em cada festa que um homem diz que mulher decompanhada só pode estar querendo putaria.

A culpa não está no comprimento de uma saia ou na profundidade de um decote.

A culpa não está no vagão de metrô lotado, nos instintos masculinos irreprimíveis, na criança “que já tem maturidade suficiente para seduzir um adulto”.

A culpa não é sua, a culpa não é minha. A culpa é de quem pratica o ato de violência. E sim, isso não é tão óbvio quanto gostaríamos de achar que é.

A culpa nunca é da vítima. NUNCA.

(#eunãomereçoserestuprada. Nenhuma mulher merece. Nenhuma pessoa merece.)

 

Afluentes

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– Ed Fairburn

Era só ansiedade no ano em que prestei vestibular: queria ter certeza de estar fazendo ~a escolha certa~. O duelo interno entre Letras e Jornalismo prolongou-se até o último dia possível para enviar as inscrições nas duas universidades públicas que me interessavam. Convenci a todos que me perguntavam que a escolha derradeira havia sido vocacional, mas a verdade é que optei pelo curso com menor relação candidato-vaga para garantir que eu não teria de passar um ano enfurnada em um cursinho no fim do mundo. No fim das contas teria nota para passar em Jornalismo, e esse caminho não trilhado pela  ansiedade de “fazer com que a vida acontecesse logo” por muito tempo me assombrou.

Eu teria “me encontrado” em outro curso? Provavelmente não. Primeiro 4 anos do que quer que fosse àquela altura do campeonato não seriam suficientes. Mas principalmente porque esperar “encontrar-se” nos bancos de uma universidade é o tipo de ideia ingênua que você precisa ter cerca de 17 anos para conceber. Por muito tempo foi cômodo pensar que por comodismo ou medo – sim, eu tinha muito medo – eu tenha aberto mão de uma possível vocação. A cada matéria que eu odiava,  professor incompetente, orientações que deram errado e todo o tipo de dor de cabeça – que, imagino, deve constituir a experiência coletiva de cada um que já passou por qualquer faculdade – era mais fácil perguntar um “e se” e abrir uma linha temporal impossível para uma Gabriela que se sentiria naquele momento muito mais realizada.

Houve grandes momentos durante o curso (e os anos seguintes), e estes, quando ocorriam, também me faziam questionar se  na realidade alternativa eu teria chegado a experiências parecidas. Gente que conheci, conversas que travei, matérias que de fato valiam a pena, livros que caíram nas minhas mãos, pesquisas que me levaram a uma série de interesses que eu não tinha, viagens que eu não poderia custear sozinha. Então era mesmo ali que eu deveria estar? Mais uma vez a única resposta que me vem à cabeça é um “provavelmente não”.

E digo isso porque tive tempo para pensar no que realmente me interessava.Claro, estudar Literatura (quase) sempre me dá um prazer imenso. Os livros foram meus primeiros amigos e não estou sendo protocolar quando repito a ideia batida de que eles salvaram a minha vida. Mas não, não é a Literatura por si,a Literatura foi apenas minha porta de entrada. É claro que aprendi a extrair dela o máximo, e passei a valorizar a linguagem  Poderia ter sido o Jornalismo? Ou, um pouco mais tarde, poderia ter sido o cinema, uma vez que eu comecei a assistir diretores e gêneros que me agradavam. Poderia ter sido os quadrinhos, prazer que descobri por insistência de um amigo que me fez ler  Sandman, de Neil Gaiman, e que a partir dali me conquistou. Ou poderiam ter sido os videogames, tivesse eu pensado um dia que videogames poderiam dar carreira a alguém que nunca fez mais muito da vida do que ler e escrever.

Ou poderia não ter sido nada disso, porque a verdade é que eu não precisava de faculdade nenhuma se quisesse apenas perseguir a coisa de que realmente gosto. Ou, ainda, qualquer faculdade que eu fizesse seria tão somente um afluente que desaguaria em um rio principal: a necessidade de ouvir e contar histórias. Não é que a mídia em si importe menos do que o conteúdo, mas me agrada pensar que há tantas formas diferentes de contar e que podemos extrair o melhor de cada uma delas para transmitir nossas mensagens. No fim das contas não importa muito por onde cheguei. O fato é que cheguei, e que agora é preciso descobrir o que quero fazer daqui pra frente. E aqui estou eu, no meio da madrugada com um labirinto de água pela frente e um remo na mão.

***

Comecei a escrever esse texto por quatro motivos-afluentes que apareceram em um conversa  com um amigo por esses dias, e que sugiro ardentemente, caso vocês não conheçam.

1) Um livro sensacional  sobre a influência das cores na narrativa cinematográfica

2) Meu vício de domingo em espionar os segredos que as pessoas escrevem em formato de cartão postal no projeto PostSecret, de Frank Warren

3) Meu novo projeto de compartilhamento histórias favorito, o Humans of New York

$) E, por fim, um jogo SENSACIONAL, chamado The day the laughter stopped, que aproveita como nenhum o recurso para dar o efeito necessário à história (por favor, tire cinco minutos do seu tempo para joga-lo –  não vai levar mais do que isso, não é necessário coordenação motora e você vai entender direitinho o que estou querendo dizer). Mas aviso: o conteúdo é pesado. Já vieram brigar comigo, então é bom que eu reitere: JOGUE APENAS EM UM DIA BOM.

 

De laços e porcos

Nem pergunta

Nem pergunta

Colocar o laço da linguagem nos pensamentos é praticamente impossível, mas, é claro, vocês já devem saber disso. É um trabalho ingrato ainda por cima: nada nunca vai sair do jeito que eu quero, não importa quanto tempo dedique a isso. Não é como se o cérebro fosse esperar a construção de um discurso coerente para então chegar a alguma conclusão: muito se perde em cada linha escrita, ou mesmo antes, na intenção de escrevê-la; impressões, insights e desejos que fogem enquanto pondero se a adjetivação excessiva está deixando o texto sujo.

Não tenho – jamais terei – meios de capturar ideias inteiras quando elas passam correndo por mim, uma vara incontrolável de porcos besuntados de gel. Não que sejam grandes as ideias que me escapam, mas são as  minhas ideias, droga, e é muito frustrante que eu só consiga vislumbrar por um momento aquela interpretação elegante para um problema da minha tese enquanto porquinhos rosados e escorregadios não só não saem da minha cabeça como se dispõem a rir com gosto da minha cara – partindo do pressuposto que porcos imaginários possuam músculos suficientes no rosto para sorrir. O senhor Orwell provavelmente diria que sim, mas não é esse o ponto.

O ponto é: escrever é irritante. Lutar com as palavras é a luta mais vã, já dizia o bardo, e eu nem ataco a poesia porque seria peso-pena em um ringue de pesados, tá loco. Não ataco coisa alguma, aliás. Drummond usa a metáfora da luta: eu prefiro a da caça com laço, porque a imagem mental de correr atrás dos meus pensamentos – armada apenas com uma corda e minha vergonhosa coordenação motora fina – é a que melhor dá conta da minha relação patética com a ato de escrever.

Poderia dizer, no entanto, que minhas ambições são pequenas, que me daria por satisfeita em reunir palavras suficientes para contar meia dúzia de histórias e conseguir formular uma ou duas contribuições para o estudo de literatura… poderia, não vou. Porque isso não é verdade, nem de longe. Não existe satisfação enquanto houver a perspectiva de um próximo parágrafo, e a esperança de que posso fazer melhor. Hoje saio vencida da frente do editor de texto. Mas amanhã voltarei aos campos verdes de relva fictícia: os porcos derrapantes que se cuidem, porque eu tenho medo de muita coisa, mas não de metáforas ruins.

Memória do corpo

A noiva de duas faces – Marc Chagall (1927)

Uma sensação esquisita – e equivocada – de destacamento: eu não sou o meu corpo.

Não sou os cachos do meu cabelo,  minhas olheiras e orelhas assimétricas. Não estou nos cheiros do meu corpo, ou no anasalado metálico da minha voz.

A predileção do meu paladar por temperos fortes, meus fluidos, meus pelos, enxaquecas, cólicas e orgasmos são meros efeitos colaterais. As primeiras rugas no canto dos olhos (olhos que já precisam de óculos para enxergarem com nitidez) são meros sinais de desgaste.

Os cabelos e as unhas que não param de crescer não me dizem respeito, assim como o joelho frágil, a sensibilidade na região do pescoço e as veias aparentes sobre a pele branca. Esse reflexo no espelho não é o meu.

Sou tão somente a voz que se esconde dentro de uma máquina bioquímica que precisarei pilotar (com alguma sorte) pelas próximas décadas.

E, no entanto, de vez em quando eu danço, e relembro. Quando músculos que sequer lembrava que tinha são distendidos e o suor escorre pela linha da coluna. Quando o ritmo sobe pelos pés e pernas, crava as unhas no quadril para tomar impulso e instalar-se na nuca. Quando a voz que insiste em comandar é calada pela a vontade de se fundir com a carne até então estrangeira, e torná-la meu terrítório – verdadeiramente habitá-la.

Não sou bela quando danço, pois não há beleza nos meus gestos desajeitados e na falta de prática de estar no mundo. Mas estou ali, e estou inteira, como quase nunca consigo ser.

Quente

 

Tâmo junto!... Mas desencosta que tá quente.

Tâmo junto!… Mas desencosta que tá quente.

Tão quente:

que me habituei ao suor na nuca, a mina incansável de pequenas gotas descendo espinha abaixo;
que mal durmo à noite e não tenho certeza se estou mesmo acordada ao longo do dia;
que já não sei mais há quanto tempo estou em frente ao computador, e nem do que deveria estar fazendo;
que não consigo avançar duas páginas de teoria em 40 minutos e sinto-me incapaz de redigir análises coerentes sobre textos que reli incontáveis vezes
e que perdi a conta de banhos tomados, das expedições à geladeira, da frequência do ritual de preencher as forminhas de gelo.

Mas tão quente:

que o borrifador de água – antes disciplinador de gatos – agora desempenha a função de climatizador de humanos;
que meu presente de aniversário para o namorado foi uma noite no ar-condicionado de um hotel;
que eu e todos os meus amigos compartilhamos com fervor o vídeo de uma menininha experimentando a chuva pela primeira vez não porque era bonitinho (quer dizer, também porque era bonitinho), mas principalmente porque estávamos com inveja;
que estou pensando em aprender finlandês, comprar uma passagem e ir tentar a sorte por lá – interessados em formar uma colônia, por favor, entrem em contato -
e que, sobretudo, ando irritadíssima com as notícias dos jogos olímpicos de inverno. TODO AQUELE GELO-OSTENTAÇÃO, CADÊ O GOVERNO.

Esse blog volta assim que chover, quando a próxima era glacial começar, ou se meu cérebro for capaz de  escrever parágrafos completos que façam sentido  uma vez mais. Mas se o segundo sol chegar - como tá parecendo – eu não volto de jeito nenhum e desejo a todos boa sorte, até mais e obrigada pelos peixes, sei lá, esse tipo de coisa.

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Relatório sobre o estado do meu cérebro

As aventuras de uma tese em construção I

Eu às três da manhã. Não, não é bocejo, meu filho, é triunfo.

Eu às três da manhã. Não, não é bocejo, meu filho, é triunfo.

Já numerei no título porque é bastante possível que esse tipo de post vire uma série durante esse ano de escrita. É o tal negócio: quem não aprende a rir dos perrengues inerentes ao processo acaba perdendo muito tempo chorando. [Aviso maroto a quem quiser evitar a fadiga de acompanhar minha saga: até mais ou menos março de 2015 vou estar especialmente chata. De nada.]

Pois bem: alta madrugada (meu horário predileto de trabalho), estava lutando há sei lá quanto tempo com meia dúzia de páginas particularmente difíceis de um livro já bastante complicado, mas central para a construção da minha tese –  ao menos no que diz respeito à relação entre literatura e as artes visuais, mas ninguém está interessado nisso, certo? Prossigamos. Já tinha lido, relido, dramatizado a leitura, tentado fichar e nada. “O que o diabo do autor quer dizer com isso?”, me perguntava, indecisa entre a possibilidade de uma má tradução e o sentimento incômodo de que eu muito possivelmente sou uma toupeira.

Pausa para dizer que eu não consigo trabalhar em total silêncio e é por essa razão que meus melhores amigos são o Jazz Radio ou as playlists instrumentais que fico caçando no 8tracks.

Mas era preciso insistir se eu quisesse manter o cronograma de manutenção da minha sanidade mental. Durante a enésima releitura os neurônios devem ter sido vencidos pela exaustão porque a coisa toda começou a fazer algum sentido, eu juro. Não um grande sentido do tipo Despertar Espiritual, mas um sentido de “Ok, posso trabalhar com isso” – o que ainda assim é melhor do que ler um texto e achar que a construção dos parágrafos é completamente dadaísta.

Coincidentemente, para marcar a vitória da vontade sobre esse cérebro embrutecido pelo vício em internet e açúcar, uma música especialmente inspiradora começou a tocar. “Não, peraí, eu conheço isso”, me dei conta: é da trilha sonora de O Rei Leão. Sim, de fato. E foi naquele momento, meus amigos, que eu senti toda a emoção do Simba na chuva após ter derrotado o tio. O macaco aponta para pedra e diz que já é tempo. E lá vai o leão, indeciso no começo, hesitante para enfim cumprir seu papel no ciclo da vida, ouvindo a voz reconfortante do pai e rugindo para a savana. Rugindo para o nada três horas da manhã em São Paulo, após dar conta de um capítulo irritante.

Durou pouco, mas foi intenso. Não me tornei rei da savana e ainda há umas boas 200 páginas para desbastar, mas mesmo as pequenas vitórias tem de ser comemoradas. Ou ainda: eu precisava citar O Rei Leão em algum lugar, já que na tese será impossível. Mesmo que Hakuna Matata seja a citação ideal para qualquer coisa, QUALQUER COISA.

“Oi, você gosta de poesia?”

Reconstituição da cena: eu e o poeta

Reconstituição da cena: eu e o poeta

Ano novo, vida velha. Ou ao menos foi isso que pensei na semana passada, quando me vi dando um chilique com um desconhecido na rua. Não foi bonito, não me orgulho, mas de fato me arrependeria se não tivesse falado nada. Em algum ponto da adolescência eu cheguei a jurar que eu me tornaria uma pessoa elegante… sorte foi não ter jurado pela minha-mãe-mortinha, ou ela não estaria ainda por aqui para tentar corrigir meu modos.

O cenário: estava indo ao encontro de uma amiga para visitarmos uma exposição.

O conflito: Já na porta  do centro cultural fui abordada por um daqueles caras “Você-gosta-de-poesia”? Ele pulou na minha frente, sorriu e entoou, é claro, um “Olá, moça, você gosta de poesia?”

“O velho golpe”, pensei. Esquemas de pirâmide, promessas para trazer o amor amarrado em três dias, remédios para emagrecer dormindo, spams que prometem fortunas: esse tipo de furada não me abala. Até porque são arapucas que visam levar vantagem em pessoas que estão tentando levar vantagem por si. Gente que acha que existe uma forma fácil para ganhar dinheiro, perder peso ou amarrar uma companhia com a ajuda do sobrenatural. Quem caiu certamente aprendeu a lição, beijos, vida que segue. Ou não, mas esse não é o caso.

O problema é quando é quando a abordagem não mira na cobiça, mas, sei lá, no coração das pessoas. Quem é que não gosta de poesia?  A pessoa tem que ter uma meia suja e encardida no lugar do coração. Mesmo para os que não são leitores do gênero (ou leitores como um todo), é preciso ter um trauma muito grande para sair por aí odiando a pobre da poesia – como professores de Literatura que organizam jograis com criancinhas declamando a obra de Gonçalves Dias, ou os pais que são obrigados a assistir tais recitais (exemplo meramente ilustrativo e que não reflete de forma alguma a minha infância, mesmo que as fotos e os vídeos digam o contrário).

O chilique: Encontrei serenidade para dizer “não, obrigada” (como todas as outras mil vezes, como é importante ressaltar) e já estava sentindo o bafo reconfortante do ar condicionado quando ouvi: “Ah, que pena! Uma moça tão bonita que não gosta de poesia!”. Eu sei que eu não deveria me importar. Eu sei que brigar com desconhecidos na rua é um adianto na estrada que vai me fazer falar sozinha, colecionar gatos, e andar toda desgrenhada por aí. Não, pera, eu meio que já faço essas três coisas. Enfim: eu sei que essa não foi a educação que mamãe me deu. Mas como evitar?

Voltei para o ~poeta~ já com o dedo em riste e cuspi um discurso mais ou menos assim: “Cara, eu adoro poesia. NÃO, AGORA QUEM FALA SOU EU, SHHHH! Como eu estava dizendo, eu adoro poesia, não que isso seja do seu interesse. No entanto, se eu vou adorar ou não a sua poesia aí já é outra coisa, principalmente se eu tiver que pagar por ela. Porque você não tá realmente a fim de saber se eu gosto de poesia, você só usa essa frase como eufemismo para ~se você gosta de poesia vai adorar COMPRAR o meu zine~. ENTÃO VÊ SE FAZ UM BLOG COM SEUS POEMAS E ME MANDA O LINK, BEIJOS.”

O pós-chilique: Virei de costas e entrei no centro cultural. Ele não me seguiu, muito menos me passou o endereço para o blog dele. O segurança riu da minha cara, a moça que vendia balas riu da minha cara, o poeta deve ter rido da minha cara… eu acabei rindo também. Minha amiga chegou uns 10 minutos depois e, é claro, para rir da minha cara.

Ano novo, vida velha, como eu disse. Passando vergonha & prevenindo úlceras. Sim, soa como todos os anos anteriores. Por mim tudo bem.