O Dia da toalha e um cenário to-tal-men-te hipotético

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Aterro do Flamengo: praticamente inofensivo.

Em um exercício de imaginação de fim de noite, peço que visualizem a cena: a Pessoa Número 1 – doravante identificada como P1 – está esperando ônibus em um ponto de uma capital brasileira. Seu destino não nos é dado a conhecer; tampouco é importante para o desenrolar dos acontecimentos. Basta para nós o dado de que P1 está esperando um ônibus e que, por acaso, segura uma toalha de rosto em uma das mãos.

O velho Tolstoi dizia que se um revolver aparecer em um conto, em algum momento ele precisa disparado. Não voltei ao texto, mas tenho quase certeza de que ele não mencionava uma linha  sobre toalhas, e é por esta razão que me desobrigo de tentar explicar o que a toalha estava fazendo na mão da tal mulher do ponto de ônibus. É claro que sempre é possível formular hipóteses, mas elas não vêm ao caso no momento. Basta para nós que a toalha exista e esteja lá.

Neste momento nossa atenção se voltará para a Pessoa Número 2 (P2), recém surgida em cena. De longe P2 avista P1, e é como se um dia qualquer de maio se transubstanciasse em manhã de natal. Quer dizer, não exatamente qualquer dia de maio: é bom que se diga que o calendário marcava o vigésimo quinto dia desde o início do mês. E transubstanciar-se também não é, convenhamos, um bom verbo, porque mesmo se aplicado com os mais puros interesses de aproximação semântica, ainda assim acaba por errar feio na escolha do feriado cristão, uma vez que as manhãs de Páscoa não causariam em P2 tanta comoção. Mas tergiverso.

P2 viu P1 e achou que havia ganhado o dia, eis o resumo, afinal P1 segurava em uma das mãos uma toalha, no dia 25 de maio, o que só poderia querer dizer uma única coisa, na cabeça de P2: que P1 também comemorava o Dia da Toalha – uma celebração da vida e obra de Douglas Adams. E o que mais? Quem mais envergaria tal símbolo em prosaico ponto de ônibus?

Contrariando todas as recomendações que ouviu de sua mãe durante a infância, P2, que não cabia em si de tanta felicidade, resolveu que teria de cumprimentar P1  - afinal, dos 5 anos em que havia incorporado o Dia da Toalha no calendário de comemorações de sua vida, era a primeira vez que via outra pessoa casualmente portando tal artefato na rua; as reuniões combinadas com amigos de nada valiam; ali estava P1, uma completa desconhecida, partilhando o mesma curiosidade sobre a Vida o Universo e Tudo Mais.

P2 atravessa a rua e, assim que se vê de frente com P1, solta um sonoro “Feliz dia da Toalha pra você!” P1, assustadíssima, fica olhando sem entender o que P2 está dizendo, certamente indecisa se o melhor procedimento seria ignorar P2, tentar entendê-la, soltar um palavrão ou chamar a polícia. P2, que levou uns bons e constrangedores sete segundos e meio para se dar conta de que sua manhã de natal havia se transformado no dia da vacinação contra a Falta de Noção – uma doença seríssima! – deu as costa a uma P1 aturdida, acelerou o passou e foi embora. Abrigou-se em um shopping, e decidiu permanecer por lá tempo suficiente para que o ponto de ônibus esvaziasse. Enxugou o suor do rosto com sua própria toalha e pensou consigo mesma: que fase.

Finda a cena, e ressaltando que esse é apenas um exercício de visualização que em nada se parece com qualquer episódio experienciado no dia de hoje, sendo quaisquer coincidências obras unicamente do senso de humor meio torto do Universo, pergunto a vocês: P2 havia tomado sol demais na cabeça?  A toalha não faz o mochileiro? Não é agradável saber que, dentre as mais idiotas formas como um ser humano pode morrer, a vergonha alheia felizmente não está catalogada entre elas?

Feliz dia da toalha, para quem é de toalha.

De linhas cruzadas e posts sem sentido: um resumo da semana.

Atrás dessas cicatrizes também bate um coração.

As obrigações da semana: dois freelas de revisão, a leitura um romance português do século XIX para a matéria que estou fazendo nesse semestre, a organização de umas tantas notas que (pensamento positivo!) virarão um texto para um colóquio no fim do mês, o término de um conto esquisito que estive escrevendo sobre o fim do mundo e Caetano Veloso, a leitura de uma nova autora que eu vou dar um jeito de encaixar na minha tese custe o que custar, a resenha sobre 1Q84 que não fiz até agora porque não consegui terminar aquelas trinta mil páginas (embora esteja adorando), a esperança de zerar logo de uma vez God of War. Claro, meus detratores dirão que obrigação é um termo forte demais para ser aplicado a um jogo de videogame, mas ao meu favor digo que eu só queria ajudar o pobre Kratos em sua vendetta, eu tenho coração, eu me compadeço. Juro.

De toda forma, a sensação de linha cruzada prevalecia, e, não à toa os mundos acabaram colidindo e influenciando uns aos outros. De repente, Haruki Murakami e Camilo Castelo Branco acharam um inusitado ponto de confluência, que talvez só exista na minha cabeça, mas ei, existe! A dissertação de mestrado que estive revisando me deu uma ideia para o fechamento do conto, que por sua vez foi sintetizado em uma única frase dessa autora que me caiu em mãos, a Ana Teresa Pereira. Também é dela que retiro a epígrafe para o texto que pretendo apresentar no colóquio, e esse texto, que fala sobre a relação de um livro da Inês Pedrosa com a fotografia me lembrou uma passagem do Murakami que serviria de ponto de apoio para o que eu gostaria de dizer com relação à experiência afetiva da fotografia, ainda que não vá fazê-lo, realmente, porque prevejo uma defenestração e meu plano de saúde não cobre acidentes ocorridos na Ilha do Fundão. Como é que o Kratos entra nessa rede de conexões, você me pergunta? Ora, não entra: ou eu não posso me divertir um pouco?

Todo esse shuffle referencial me lembrou de um episódio que vivi ano passado. Fui assistir assistindo uma palestra de um escritor que também é professor, crítico, poeta e sei lá mais o quê – mas é pouco provável que seja jogador de videogame. (Não, o tal escritor não será nomeado porque autor bom é autor morto – e não tô falando daquele texto do Barthes, mas dos sete palmos, da pá de cal e da lápide. A experiência do blog me mostrou que autores vivos costumam voltar pra me assombrar.) Às tantas, perguntei a ele como é que conseguia conciliar o romancista com o crítico. Esperava uma resposta complicada, mas o que ouvi me surpreendeu:

- Eu separo bem. Quando me sento para escrever como crítico, sou o crítico. Mas quando me sento para escrever um romance, deixo o crítico de lado e sou apenas o romancista.

Eu sorri e agradeci pela resposta com aquela educação que mamãe me deu  - e que eu guardo para usar com parcimônia em ocasiões especiais – mas só conseguia pensar que ele achava que eu era uma completa parva e estava  obviamente me sacaneando. Vejam, é de comum acordo entre as pessoas que o leram que os romances desse cara não só dispõem de uma construção formal milimetricamente pensada como os narradores muitas vezes fazem questão de dar aula sobre as estruturas, expondo os mecanismos pelo qual tais e tais elementos estão lá e a que servem e para onde vão. E o cidadão vai me dizer que nããão, eu desligo o botão numa boa? Ah, mas não desliga mesmo.

Passada a onda de malcriação reprimida (o que levou algum tempo), acabei por voltar a prestar atenção na tal palestra, e comecei a achar que o tal escritor não estava, afinal, tirando uma com a minha cara gratuitamente. Pode parecer ingenuidade – e não descarto que seja – mas eu comecei a acreditar que ele realmente acreditava no que dizia. Fazia até certo sentido que uma pessoa com ampla carreira na área de Letras se sentasse para escrever ficção sem se policiar loucamente se algo de toda a teoria literária que leu ou criou na vida respingasse no texto. Não é como se fossem assuntos imiscíveis – muito pelo contrário, na verdade. Quem estava vendo pelo (que falta você me faz, acento diferencial!) em ovo era eu.

No fim das contas, só soltamos mesmo o sinal de alerta para a patrulha interior quando certos aspectos da nossa personalidade não combinam exatamente com a imagem que estamos tentando passar. A opção de evitar bater de frente com o escritor, dizendo que nessa eu não caio, de não citar o Murakami ( e uma fala de Doctor Who) no meu texto para o colóquio, ou mesmo a contenção da vontade louca que sinto de impor meu estilo às revisões que faço, porque é preciso respeitar o texto alheio e o meu texto mal funciona para mim, a bem da verdade.

Fora essas ocasiões específicas em que o decoro precisa ser mantido para o bem-estar da vida em sociedade – o meu bem-estar, pelo menos, porque convém evitar o linchamento – eu me coloco numa posição contrária a do escritor. Eu sei que não dá para compartimentalizar os meus interesses. Não, não é só isso: eu os encorajo à promiscuidade. E daí que literatura, internet, videogames, ficção científica, quadrinhos, televisão, música de caráter duvidoso e tantas outras coisas brilhantes que chamam a minha atenção e me desconcentram acabam se fundindo no meu blog, nas minhas conversas, nos meus contos, até mesmo nos meus textos acadêmicos – embora neles eu tenha que ser mais discreta. Minha aposta é que talvez o ruído de fundo das linhas cruzadas acabe fazendo um sentido, ou criando sentidos novos, que é o que me interessa. Ou isso pode ser só uma desculpa para lidar com a minha falta de foco. Qualquer que seja a explicação, o processo não difere:  deixar um pouco de lado o por quê e começar a me perguntar – e, de quebra, a perguntar a todos vocês – por que não.

E que não haja resposta pra isso.

Ps 1 – Meu último ato de insurgência ou: Adorno deve ter se revirado na tumba com minha última aquisição na livraria. Não recomendo ainda porque só li a introdução, mas o texto parece apontar para algumas ideias interessantes. Stay tunned.

Ps 2 - Sim, eu fechei God of War. O 1, porque estou jogando as versões “remasterizadas” para PS3. O 2 e o 3 ficarão para quando o semestre acabar. Há monografias, trabalhos e outros nhenhenhéns me esperando.

Ps3 – A resenha de abril do Desafio Literário não saiu  (ainda?) porque EU NÃO CONSEGUI ACABAR DE LER AQUELE MALDITO LIVRO GIGANTESCO. Mas eu tô adorando, sério.

Ps 4 – eu não disse que foi uma semana meio louca? Pois então. Os leitores que assinam o Quinas pelo e-mail receberam notificação de um post que não estava lá. Quer dizer, a gênia aqui postou, mas postou no lugar errado e apagou em seguida, correndo, para ninguém ver. Claro que esqueci que os e-mails são disparados. Então, às pessoas que mandaram e-mails, aí vai a explicação: eu criei um blog paralelo para dar conta de coisas que não cabiam aqui, o Assincronicidade. Posts pequenos, exercícios aleatórios de escrita, coisa velha e nova perdida pelo meu HD. O texto desaparecido está lá, porque deveria ter sido postado lá e só não foi porque eu confundi as duas contas. Mas aqui vai o  link. Desculpe o transtorno. Estamos trabalhando para melhor atendê-los (ok, essa parte não é exatamente verdade).

E o diabinho saiu de férias – o desafio “No Cry”

Doutor, é grave?

- Você tem um diabinho na garrafa no lugar do coração, Gabriela.

Essa é a punch line do Romulo, meu amigo há mais tempo do que o recomendado pela OMS para uma vida saudável e feliz. Aparentemente serve para justificar qualquer comportamento que eu tenha ou coisa que eu diga que o contrarie. Um exemplo clássico que ilustra essa tese foi a vez que fomos assistir Sempre ao seu lado. Melhor dizendo, a vez que Romulo ficou enchendo a minha paciência durante horas para que fôssemos ver esse filme numa tarde petropolitana qualquer.

O filme conta a história de um cachorrinho que vai todos os dias esperar o Richard Gere na estação de trem –  bicho esperto! – até o dia em que o dono tem um piripaque no trabalho, morre e, consequentemente, não volta para casa. Eu não sou exatamente fã de filmes com a temática “O Menino e seu Cachorro” porque, vejam, eu morro de medo de cachorros. Fui atacada por um quando era pequena e até hoje mesmo aquelas raças de quilo e meio me deixam paralisada de pavor.

Se serve de agravante para o caso, digo que era uma cópia dublada, o que acentuava o climão Sessão da Tarde. Por fim, como golpe de misericórdia, o elenco contava com Jason Alexander: de quem foi a ideia absurda? O chefe de casting tava lá, todo pimpão, fazendo as contas e vendo quanta grana sobrava para o elenco de apoio, uma vez que o Richard Gere deve ter consumido uns 80% do orçamento total do filme – e ainda tinham que comprar  a ração do cachorro. Porque só pode ser do desespero que alguém resolve associar filmes inspiradores de amizade entre homens e animais  ao George Constanza. Como levar a sério? Eu passei o tempo todo resmungando enquanto o Romulo chorava em seu lencinho bordado. Uma prova cabal de que eu tenho um diabinho na garrafa no lugar do coração.

Corte de câmera para hoje, um sábado tedioso em que estava passando tempo na internet, evitando terminar um conto no qual estou trabalhando desde cedo – coisa que estou fazendo com relativo sucesso até agora, cerca de três horas depois. (Para procrastinar a escrita eu até… escrevo, é impressionante.) Acabei descobrindo um tal No Cry Challenge no youtube. Um sádico usuário compilou 19 vídeos para machucar os corações.

Vamos aos fatos. 19 vídeos, quase uma hora e meia de apelação aos seus dutos lacrimais. Só faltou a morte da mãe do Bambi e o curta sobre o conto de Andresen  (maldito!)  A pequena vendedora de Fósforos; de resto, todos os clichês sentimentais marcam presença. 9 vídeos falando sobre a morte, 6 animações, 5 com cachorros, 5 sobre a relação entre pais e filhos, 3 sobre histórias de amor, 2 sobre soldados voltando para casa, 1 sobre esporte e superação pessoal. É possível que eu tenha feito as contas que nem a minha cara, mas deu para entender onde quero chegar com isso tudo. O desafio é capcioso – atira para todos os lados. Em alguma esquina ele vai te pegar e aí, meu amigo, é só correr pro refrão fácil: agora aguenta, coração.

Alguns vídeos são bastante conhecidos – passei por cima desses para evitar o chororô desnecessário. A morte de Mufasa em O Rei Leão, a cena final de Meu cachorro Skip (de vez em quando até eu choro em filmes de cachorrinhos, ok?) A sequência que mostra a vida de Carl e Ellie em UP  *lencinhos, por favor* e o final de Toy Story 3, que me fez sair do cinema com aquela cara de ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais.

Mas é justo dizer que eu realmente pensava que poderia resistir bravamente por alguns vídeos. Sabia que não venceria o desafio, mesmo pulando oportunamente toda a rasgação de seda emocional – na qual eu caio lindamente, não me levem a mal – da Disney/Pixar. No entanto, aos 4 minutos do primeiro eu já havia falhado, e miseravelmente. O diabinho resolveu sair de férias, bandido, e deixou meu coração de estudante no lugar.

Digam aí que não estou desidratando sozinha, que minha reputação não está ameaçada, que vocêstambém se lembram de ter assistido o episódio de Fresh Prince na época, e ficaram com morrendo de pena do Will. Digam também que meu diabinho vai voltar com um bronzeado e muito pique para o próximo ano de trabalho árduo. Encostem suas cabecinhas no meu ombro e chorem que hoje estou brega, crianças.

Sobre derrapadas, ferrugens e cabeças duras.

Em 1950, Seu Machado todo trabalhado na galanteria.

- Sua velha safada, você me jogou no chão!

Cheguei a tempo de acompanhar o desenrolar dessa conversa, ou, melhor dizendo, monólogo. Meu avô ( Moacyr Machado, 1924, peças originais de fábrica) estava dando tapas carinhosos em sua bicicleta (Phillips, 1945, idem) enquanto fazia uma vistoria tão minuciosa quanto os cinco pontos em sua cabeça permitiam. Esse simpático casal – juntos há quase 70 anos, haja cumplicidade! – deu um susto em muita gente na semana que passou.

Eu, por exemplo, estava no Rio, assistindo aula, quando recebi um telefonema da minha mãe – que nunca liga durante o dia. E, ainda por cima, começou pedindo calma, com aquela voz de quem acabou de sair de um passeio dentro de uma betoneira. Nada mais que o suficiente para disparar os alarmes do Apocalipse, afinal eu não sou exatamente o tipo de pessoa para quem se possa pedir calma.  ”Gabriela, seu avô levou um tombo. Caiu de bicicleta, ficou inconsciente, foi resgatado pelos bombeiros e está no hospital”.

Meu avô é hipster, usava Ray Ban bem antes de virar modinha.

E estava armado o circo. A comoção não dizia respeito apenas a mim, minha mãe e os parentes mais próximos: como meu avô é uma espécie de celebridade no bairro a notícia se espalhou, e o hospital ficou cheio de rostos conhecidos. Houve picos de pressão e crises nervosas nas casas vizinhas enquanto meu avô acordava numa maca, sem saber direito o que havia acontecido, mas pedindo gentilmente para ser  liberado, uma vez que já passava de duas da tarde e ele não havia almoçado.

Como se pode prever, meu avô transformou-se na grande atração do dia entre os médicos e enfermeiros da Emergência em que foi atendido. Todos queriam paparicá-lo, mas seu costumaz bom humor estava sofrendo interferências não apenas da dor que sentia, mas das sanções que estavam sendo impostas a ele, a saber: 1) Nada de bicicleta por pelo menos um mês e 2) nem pensar em viajar no fim de semana, como esteve planejando. “Mas doutora, eu ia para um hotel-fazenda para um forró”. O forró infelizmente perdeu um animado dançarino naquele fim de semana. ”Nunca caí assim, doutor, não sei o que aconteceu”, reclamou com o ortopedista. “Bem, o senhor nunca teve 87 anos antes”, respondeu o ortopedista, meio sem jeito.

A única preocupação do meu avô era com o estado de saúde da bicicleta, já que ele estava apenas “arranhado”. Um arranhão que lhe rendeu os tais cinco pontos na cabeça e algumas escoriações pelo corpo, cabe notar. Enquanto isso a magrela poderia estar empenada, arranhada – a pintura original poderia ter sido comprometida. Ó desdita, ó dia aziago! Meu avô precisava ir para casa o quanto antes para averiguar. Liberaram o homem só porque os médicos temeram que sua pressão descompensasse frente a ansiedade de passar a noite sob observação no hospital.

Qualquer semelhança é mera coincidência.

Já em casa, retomou a rotina de onde havia interrompido. Jantou, viu um jogo de futebol na tv – “Uma pelada!” – e tomou, como de costume, seu café à meia noite. Excetuando alguns percalços (teve, por exemplo, de voltar ao hospital no dia seguinte porque a combinação de medicamento para dor com os outros que já tomava regularmente o fez passar mal), continua dono de uma saúde bem melhor do que a minha.

Hoje, uma semana depois do ocorrido, e depois de constatar finalmente que sim, a bicicleta está perfeita (!), resolveu me mostrar as fotos que ilustram esse post. “É uma bicicleta boa, de ferro. Uma vez quiseram trocar por um fusca, mas onde é que ia achar outra? Hoje em dia só se fabrica porcaria. Talvez eu tenha que trocar os freios, que estão gastos. Gastos que nem eu. Por isso que andamos derrapando por aí”.

Livin' la vida loca. (Ps - foi nessa mesma ladeira que ele caiu)

Derrapadas à parte, no fim das contas ele está ótimo; o resto da família é que sobreviveu por pouco. E agora, tendo me transformado na relações públicas do avô, é meu dever atender telefonemas de amigos e parentes, receber suas visitas, dar notícias de como vai bem melhor ao motorista de ônibus, dono do bar, padeiro, às atendentes do mercadinho, ao farmacêutico. Em compensação, sou testemunha de todo o carinho que é devotado a ele, e a falta que faz aquela figura simpática que há décadas cruza a cidade em cima de sua bicicleta. Um pouco folclórico e decididamente carismático.

O que as pessoas têm perguntando, é claro, é se ele vai voltar a andar de bicicleta. Deveriam mesmo é substituir o “se” por “quando”. Não é como se eu, minha mãe ou o papa pudéssemos (quiséssemos) proibir. Passado o período de convalescença, meu avô voltará às ruas. “Se ficarmos parados eu e ela enferrujamos”. Justo. Mas já avisei que a partir de agora vai usar capacete sem reclamar, sob pena de ver as rodas da bichinha arrancadas sem dó nem piedade e escondidas sabe-se deus onde – o que tem sido motivo de discussões acaloradas durante nossos cafés. É que aqui em casa somos donos de cabeças duras que, evidentemente, não se quebram com facilidade.

Amanhã cedo voltaremos ao hospital para retirar os pontos.

Não, bonés não são equivalentes a capacetes. Nem vem.

#DL2012 – O Psicopata Americano – Bret Easton Ellis

Yuppie, psicopata e "as fuça" do Collor, diz aí

Março era um dos meses problemáticos do Desafio Literário, por causa do tema. Se ainda fosse Romance Policial a coisa toda ficaria um pouco mais fácil, porque eu gosto do gênero. Sério, gosto sim. Quer dizer, hoje em dia eu gosto de Raymond Chandler, já que ele tem um senso de humor que me agrada, e os livros valem pelas piadas – se a história ainda for boa é lucro. De resto, leio o que cai na minha mão, com maior ou menor grau de interesse. Tá bom, até aí faço o mesmo com rótulos de shampoo e bulas de remédio, não é como se eu tivesse muito critério.

Mas sim, voltando à problemática do tema serial killer. Policiais e/ou detetives particulares na corrida contra o tempo antes que a próxima vítima seja morta de alguma maneira bastante absurda, e com uma simbologia barata de livro dos sonhos de banca de jornal. Eu tenho consciência de que sou estou resmungona É que, por mais que eu goste de assistir filmes do gênero na TV, os únicos livros sobre serial killers que me lembrava de já ter lido foram os do Thomas Harris: O Silêncio do Inocentes, Hannibal, Dragão Vermelho. A visão macabra do Antony Hopkins em pé no meio de sua cela, esperando a Jodie Foster atravessar o corredor do manicômio judiciário marcou minha adolescência.

Eis o que escrevi quando estava fazendo a lista de leitura para 2012: “minha pesquisa no google não foi muito produtiva. Só aquelas capas de gosto duvidoso e plots que parecem roteiros de meio de temporada do CSI. Fora que qualquer livro que precise anunciar na capa, em letras garrafais, a façanha de MAIS DE UM PORRILHÃO DE EXEMPLARES VENDIDOS não costuma dar em boa coisa. Não, obrigada. Já me sugeriram a série Dexter algumas vezes, mas eu realmente não simpatizo com o personagem e sua narração monocórdia de “eu não tenho sentimentos, eu sou diferente de você e vou repetir isso nas próximas 400 páginas enquanto retalho meia dúzia de assassinos”.

Não tive paciência para avançar pela seriado de televisão, imaginem pelos livros. Caso meus pedidos e ameaças não surtam o efeito desejado, tenho um plano maléfico de ler Christine, do Stephen King (sim, eu sei que você também viu esse filme no SBT) e escrever umas dez laudas justificando o flerte do carro assassino com o gênero noir. Usarei o Jameson, o Lyotard e o papa se necessário for”.

Não precisei apelar para o carro assassino porque encontrei, perdido numa seção de Pockets, o Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis. “Olha, taí, um livro que eu gostaria de ter lido faz tempo, e do qual já havia me esquecido completamente da existência. Aproveito e faço a dobradinha, assistindo o filme também”. Com esse achado voltei pra casa satisfeita, e acabei tendo duas experiências completamente diferentes ao ler o livro e, depois, ver o filme.

Para quem não sabe do que estou falando, o romance foi alvo de polêmica no início dos anos 90. Associações feminista e de direitos humanos condenaram o manuscrito, a editora que se comprometeu a editá-lo voltou atrás… enfim, aquele tipo de circo que transforma qualquer narrativa mais ou menos em best-seller, tamanho o sucesso da “publicidade negativa”.

Acontece que o Psicopata Americano não é uma narrativa qualquer: é um romance muitíssimo bem planejado. Não é uma narrativa clássica de thriller. Aliás, passa bastante longe disso. Até aparece um detetivezinho na história, mas ele certamente não desempenha nenhum papel central para a evolução da trama. Que, aliás, não evolui coisa alguma: o romance todo diz respeito apenas a um personagem e sua rotina em Nova Iorque. Um conceito de rotina sui generis, é verdade.

Patrick Bateman, o psicopata do título, é um yuppie de Wall Street. Tem 26 anos, frequenta restaurantes caros, é obcecado por marcas e por cuidar do seu corpo. Entre casas noturnas, conversas misóginas com os camaradinhas, visitas à locadora (o videocassete é então um invento super recente), carreiras de cocaína e resenhas das principais sensações da época – incluindo aí um capítulo inteiro sobre o álbum de estreia de Witney Houston – , também gosta de retalhar prostitutas, mendigos, animais e, basicamente, qualquer coisa que possua sistema nervoso central para sentir dor.

É um pocket robusto: são quase 500 páginas. E, nelas, incontáveis descrições de matanças, torturas, estupros e mutilações. Todas bastante detalhadas. No entanto, o efeito, em vez de horror, é o tédio. A repetição do ciclo de Bateman de sair com os amigos, jantar em lugares caros, ser visto em ternos de grife, visitar boates de luxo e matar pessoas pelo caminho é mecânico. A violência é apenas mais um item a ser cumprido no dia. Acordar, fazer exercícios, cortar a garganta da prostituta presa à cama, ir para o trabalho.

A narrativa, que contém momentos pesadíssimos, é de difícil deglutição não por conta do horror que suscita, mas do sono que dá. A rotina de Bateman cria o clima perfeito para a crítica da banalização da violência, bem como da sociedade de consumo em que o cara está inserido. Há um capítulo chamado “Fim da década de 80″: o livro todo poderia ter esse mesmo subtítulo, sem prejuízo. (Em tempo, o livro me lembro de um mini documentário chamado História das coisas).

Já o filme me retirou da apatia. Para outro sentimento completamente equivocado, diante do que é mostrado na tela. Em diversos momentos, o filme parece uma comédia. Com um humor bastante questionável, é verdade, mas ainda assim uma comédia. E nisso também o filme foi muito esperto: a crítica  não é mais construída através da mecanicidade narrativa, (que, imagino, afastaria as plateias do cinema). Ela é gerada através do riso, em geral constrangido, dos espectadores. Vejam, por exemplo, a cena em que Bateman fica “lôca” quando percebe que seu coleguinha tem um cartão de visitas melhor do que o seu.

Antes que eu termine essa resenha furreca que escrevi aos 45 minutos do segundo tempo, preciso contar uma coisa. Quer dizer, precisar não preciso, porque é informação (pra lá de) acessória. Ainda assim. O fato do protagonista se chamar Patrick BATEMAN, e de ter sido interpretado pelo CHRISTIAN BALE no cinema só poderia ter me levado à uma referência possível: ao Batima na Feira da Fruta. Julguem-me, mas toda vez que o Bateman era chamado pelo nome eu dava uma risadinha. Em quase 500 páginas. CHEFE O’HARA, COMÉ QUE EU FAÇO?

Ok, já deu. Que venha abril.

“O fotógrafo não é mágico” e outras heranças de família.

Bad Hair Day - quem nunca?

O despertador me acordou para um dia pouco promissor: pra lá da janela estava a chuva, o vento e a desolação. Nada incomum para um amanhecer em Petrópolis, mas convenhamos que são condições meteorológicas especialmente irritantes quando o meu primeiro compromisso do dia era justamente tirar foto para a carteira de motorista. Uma caminhada breve e um ônibus depois e eu estava dentro da repartição, tentando me secar o melhor que podia. Ao ouvir minha senha e, logo após a checagem dos documentos, a mocinha que havia tirado minhas digitais ofereceu sua solidariedade: “se você quiser prender o cabelo para tirar a foto  eu espero”. Além de lidar com a chuva e toda a burocracia inerente ao processo, eu tinha que aturar uma diretora de arte para a foto da carteira, vejam só.

Sucede que eu não carrego apenas os genes dos cabelos encaracolados, que em situações de vento e chuva comportam-se como se tivessem vida própria. Isso na verdade é o de menos, assim como a escassez de melanina, que me faz sofrer todo verão. Para além do ar de Medusa, sou descendente direta de uma série de mulheres de pavio curto, que costumam deixar a educação que receberam em casa… em casa, se a situação assim exigir.

A tataravó que veio para o Brasil na terceira classe de um navio e bateu no cozinheiro, por motivos que até hoje permanecem ocultos. A tia-avó ou bisavó, (quiçá trisavó, se é que esse é um grau de parentesco válido) que, nos anos 40, fez as malas do marido malandro e deixou-as na porta da amante, com recomendações do tipo “já que você está usando meu marido, é bom que lave as roupas dele também”. A bisavó que espantou uma onça do terreno com espingarda de chumbinho. (Sério, juram de pé junto aqui em casa que essa é uma história real e não tenho motivos para duvidar. Quando meu avô já era homem feito, o “bairro” ainda era um matagal só. As ruas nada mais eram que uma pavimentação de carvão marcando as trilhas).

E mesmo a minha mãe – essa de cabelos lisos – gritando impropérios para o vizinho, cuja queimada no terreno deixou as roupas no nosso varal com aquele cheiro característico. E vou te contar: ela tinha uma ideia muito boa sobre onde o vizinho deveria acender suas fogueiras. Depois de ter me divertido bastante, eu a ameacei com youtube. Ela me ameaçou de volta com uma morte dolorosa, melhor não insistir.

Tudo isso para dizer que eu já ia mandar a mocinha cuidar da vida  e não encher o meu saco quando lembrei de uma das falas emblemáticas da minha avó. Ela morreu quando eu tinha seis anos, então não tenho grandes recordações, a não ser um medo danado da figura dela, e os Grandes Atos que fiz apenas pelo prazer de contrariá-la – é o tal negócio: bananeira não dá laranja, e eu juro que vou pensar um trilhão de vezes antes de pensar em me reproduzir. De todo jeito, lembro bem de umas fotos que fiz com um retratista. Minha avó me penteou, vestiu e me levou para o estúdio, daquele jeito dela que não aceitava segundas opiniões. Eu, claro, odiei a produção com todas as minhas forças. Queria usar meu conjuntinho de lambada (pois é, amiguinhos), em vez do vestido cheio de laços com o qual ela me vestiu. Quando reclamei que estava feia, recebi como resposta essa pequena pérola de sabedoria: “o fotógrafo não é mágico, sai o que está na frente”.

Sem contar o jeitinho todo especial para lidar com crianças – outra herança familiar – e apesar de não ter acompanhado os usos e abusos do photoshop, minha avó estava coberta de razão. E ter lembrado disso acabou com meu mau humor. Não havia nada que pudesse ser feito pelo o meu cabelo naquelas condições; prender iria inclusive piorar a vista geral da minha figura. Eu havia passado quase dez horas do dia anterior viajando, e havia dormido quase nada. Tinha olheiras do tamanho da Via Dutra. Optei, portanto, pela recusa simples e bem educada.

- Não vou prender o cabelo. Tira a foto, moça.

- Mas não quer nem passar um batonzinho?

[Suspiro] 

- Não, porra. – E fechei a cara.

Ela me olhou como se fosse inserir digitalmente uma verruga no meu nariz e bateu a foto. E isso nem foi o pior de tudo. Meu teste psicotécnico ficou marcado para o dia 9, MEU ANIVERSÁRIO, na primeira hora. A perspectiva de ganhar um atestado de maluca na manhã dos meus 26 anos tá batendo na porta.

Procrastinadores Anônimos – Reunião imaginária número 1

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"Dane-se a Teoria da Relatividade - comprei sandálias novas e vim para a praia."

- Oi, meu nome é Gabriela, e estou há um fim de semana sem procrastinar.

- Oi, Gabriela.  - disseram as vozes em coro, como manda o protocolo.

Ao meu redor estão sentados amigos e desconhecidos, de idades diversas. Alunos de pré-vestibular e faculdade. Pessoas fazendo mestrado, doutorado, estudando para concurso público. Burocratas que atrasam relatórios, professores que preparam aulas em cima da hora, desempregados que passam o dia na internet, freelancers que pedem sempre ampliações de prazo. Gente que, em geral, é inofensiva para o resto do mundo, causando danos apenas a si – essa é minha vida, esse é o meu clube. E mesmo que estivéssemos juntos nessa madrugada de quinta mais para fugir de uma tarefa qualquer do que realmente para fazer terapia, senti-me encorajada a prosseguir.

- Eu tinha uma única tarefa para cumprir no último fim de semana. Um conto. E não é como se eu tivesse que começar do zero. Eu já havia passado e repassado inúmeras vezes o argumento dentro da minha cabeça. Cheguei a fazer um rascunho num caderninho, há coisa de um mês. E teria me esquecido completamente do texto, do rascunho e das minhas promessas de que “dessa vez vou me levar a sério”, não tivesse adquirido o hábito de compor listas semanais enumerando tudo o que precisa ser feito.

As pessoas me olhavam agora com um pouco de enfado. Tudo bem, eu não havia descoberto a pólvora. Eu sei  que é de prática comum organizar agendas de papel ou virtuais, fazer listas de compras, colar post-its no monitor, amarrar barbantes no dedo. Mas, poxa, mas também não é pra fazer caso da minha nova obsessão. Foi nessa hora que agradeci mentalmente à esperteza do coordenador, que marcou a reunião em um sótão que nenhum sinal de celular alcançava – e por ter desativado o wifi do prédio em caráter permanente. Mesmo a garrafa de café e os biscoitos sem gosto estavam expressamente proibidos até que a reunião terminasse. A única coisa que poderia competir por atenção comigo era uma rachadura na parede e, embora eu tivesse notado umas 3 pessoas interessadas nas causas e consequências da fissura, o resto estava com os olhos em mim, ainda que a contragosto.

- Comecei a carregar minhas listas de um lado para o outro, acrescentando e riscando itens. São listas enormes, sem uma ordem de prioridade aparente. É claro que a entrega de um copidesque não tem o mesmo peso de uma ida à venda da esquina para comprar suco, mas ambas as atividades estavam lá, lado a lado, democraticamente. Assim como compromissos na auto-escola, a lembrança de terminar o Psicopata Americano, levar uma calça jeans para fazer bainha, me inscrever numa matéria de doutorado, comprar A Câmara Clara, ir ao cinema com um amigo, achar livros perdidos nas estantes. O importante era terminar a semana fazendo o maior número de coisas possíveis. Intercalar tarefas chatas, se fosse preciso (quantas vezes fosse preciso), até que estivessem concluídas. O que não estivesse riscado na lista de uma semana, acumularia para a da semana seguinte, com a clara intenção de me matar de vergonha por conta da minha inapetência para cumprir tarefas idiotas.

O coordenador bocejou. Até o coordenador. Já estava pensando em me levantar para ir embora quando lembrei da minha lista atual, na qual constava o item “post para o blog”. Se não colocar na lista não atualizo a menos que tenha algo muito mais importante a ser feito. E eu estava numa daquelas semanas de escassez total de assunto. Para se ter uma ideia, o ponto alto dos últimos dias havia sido um sonho estranho que tive com um episódio de Chaves. Era contar minha história à plateia (e assim terminar um post) ou amargar mais uma postergação.

- A tarefa do conto ficou tempo demais vagabundeando pelas listas. Acho que a lógica da culpa ajudou para que eu finalmente me dispusesse a escrevê-lo. Todas as coisas para alguém já haviam sido feitas. Resolvi papeladas acadêmicas, entreguei um freela, comprei coisas para a casa, marquei médico para o avô. Claro que todos esses atos envolviam também a mim, minhas finanças, as pessoas que amo. Mas o conto, essa tarefa completamente egoísta de satisfação da simples vontade de escrever… esse eu não havia feito. Então disse a mim mesmo, cancelando os compromissos que havia marcado para sábado e domingo, que daquele fim de semana não passava. Eu e minhas resoluções que parecem ideias geniais por 5 longos minutos. Eu gostaria de dizer que, assim que a manhã de sábado começou, eu me sentei em frente ao computador com minhas anotações e comecei a digitar, mas quem é que ia acreditar numa bobagem dessas? Tive sono, fome, sede. Precisava checar os e-mails, conversar com sei lá quem, olhar um link que recebia, atualizar o facebook, twitter e o dia lá fora está tão bonito, por que é que eu desmarquei minha ida à praia? Será que ainda dá tempo: não, o celular da minha amiga só dá “fora de área”. Ai meu deus, tá passando Caça-fantasmas na TV.

A empatia do grupo parecia ter voltado. Procrastinadores compulsórios conhecem bem os mecanismos de auto-engano. Sabem que os hipotéticos cinco minutinhos de descanso viram cinco horas com facilidade. A cada duas linhas escritas o mundo chama, e surge uma vontade de aprender a dançar a hula justamente quando há tanto a se fazer. E é claro que sempre há um curso online e gratuito sobre o tema com apenas 40 horas de duração.

Mesmo a tentativa de isolar-se do mundo exterior é falha, se você mantém as abas do seu navegador aberto: a dificuldade de resistir ao tumblr, 9Gag ou aos vídeos de gatos do youtube é imensa. E quem é que tem coragem de abrir mão da internet? Há sempre desculpas: “posso precisar de uma referência”, “preciso de um bom dicionário de expressões idiomáticas”, “consulto o VOLP direto”. Resolvi terminar a história de uma vez, já que nem eu aguentava mais sustentá-la.

- Foi difícil. A cada parágrafo, um mundo de vontades. Cedi a algumas, a outras resisti. Por muitas vezes me peguei diante do computador há não sei por quanto tempo, sonhando acordada. Não fui à praia, vi o sol pela janela. Gastei tempo selecionando playlists e procurando arquivos de música que eu “precisava” ouvir naquele momento. Mas na madrugada de domingo eu tinha à mão dez páginas. Não eram excelentes dez páginas, tampouco brilhantes. Eram até meio bobas, para ser bastante sincera. Mas eram minhas, eu as havia feito.

- E aí, você vai ler agora o conto pra gente? – perguntou o coordenador, cuidadoso.

- Ah, não. Eu só terminei o rascunho. A edição e revisão estão na lista da semana.

A sala suspirou. Eu até poderia interpretar o suspiro coletivo como uma reação física à consciência de que é difícil se livrar de velhos hábitos. Mas, convenhamos, estavam todos aliviados por não terem de ouvir um relato de dez páginas às três da manhã. Quantos teriam de estar de pé em duas, três horas? E quantos prazos não estava expirando enquanto nos olhávamos em silêncio? O café estava finalmente liberado. Avançamos sobre a mesa como se os biscoitos secos fossem nossa salvação.

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Em tempo: o André, do Marmota Digital – blog que vale a visita, aliás – mandou o link para o elucidativo site do Clube dos Procrastinadores Anônimos – que também vale a visita, caso você esteja pensando em se livrar de alguma tarefa entre agora e daqui a pouco.