Quinas e Cantos – um post de despedida

Death: the high cost of living - Neil Gaiman, Chris Bachalo e Mark Buckingham

Death: the high cost of living – Neil Gaiman, Chris Bachalo e Mark Buckingham

Dia desses o WordPress me parabenizou pelos cinco anos do blog.Tomada pela nostalgia, me peguei relendo posts antigos. Nunca tive a pretensão de fazer algo útil com esse espaço: por ser tão autorreferente, não esperava identificação, tampouco o considerei uma vitrine para as coisas que escrevo. Nunca pretendeu falar aos outros: apesar de acreditar na escrita como interlocução, o Quinas e Cantos surgiu e se manteve fiel a um diálogo contínuo (embora de forma espaçada) comigo mesma.

Ler sobre os mesmos processos mentais repetidas vezes é irritante (eu sei, passei a madrugada fazendo isso): é como se eu sempre precisasse tomar o caminho mais longo, mesmo para as menores distâncias. Por isso cada passo é um custo, e cada parada carrega na inércia uma ameaça de desistência. A sensação é a mesma de assistir um filme de terror com aqueles protagonistas bem burros: NÃO ENTREM AÍ, NÃO SE SEPAREM, MEU DEUS DO CÉU TEM UM MANÍACO A SOLTA E VOCÊ ESTÁ PENSANDO EM TOMAR BANHO? ÓBVIO QUE VAI MORRER NO CHUVEIRO, MANÉ. E, por isso, sempre me surpreendo quando um amigo ou desconhecido diz que lê meu blog. É claro, ele não chega a ser um diário íntimo, mas sem dúvida grande parte dele é too much information sobre mim.

 Não à toa o nome que escolhi há tanto tempo: os textos que estão aqui refletem, de certa forma, um caminho cheio de percalços, joelhos ralados e contusões emocionais. Os posts falam, desde o início, sobre dúvidas e medos. Sobre quantas vezes falhei ao tentar fazer o que era ou o que eu achava ser o certo. Sobre a sensação de viver me achando uma farsa. Aqui estão as crônicas dos meus amores e desafetos, e sobretudo das minhas inseguranças – pelo menos é mais barato do que a terapia que nunca tive grana para fazer. Não é um retrato bonito, mas levou cinco anos para ficar pronto, e não vou me envergonhar dele. Meu passado acessível pela barra de rolagem.

A memória geralmente é traiçoeira, moldando nossa história pessoal para que se adeque melhor aos papéis que achamos que ocupamos, ou fingimos ocupar. É sempre bom contar com o registro escrito que não me deixa esquecer de quem eu era, de onde estava, do que era importante, da culpa e do mérito que me cabem. Até porque hoje me encontro em uma situação de vida semelhante a que vivi cinco anos atrás. No entanto, sou uma pessoa diferente. Um pouco diferente, não muito, mas em um ponto fundamental. Quer dizer, continuo trôpega. Desajeitada como sempre fui. Cheia de interesses conflitantes. E sempre procurando saídas para labirintos que eu mesma me imponho – sou Teseu e o Minotauro, mas também Ariadne e Dédalo, com momentos grandiosos e patéticos dignos de Ícaro (quem nunca).

A diferença é que comecei a acreditar. E a achar que sou digna. Talvez não do jeito que gostaria de ser mas, ainda assim, suficiente. E a parar de pensar sobre mim como uma farsa prestes a ser desmascarada. (Até porque, convenhamos, ninguém está nem aí para o que eu sou ou deixo de ser: pensar-me como fraude e acreditar que existe uma  conspiração para “me botar no meu devido lugar” é atribuir importância demasiada a mim, ainda que por uma via negativa. É, em um certo sentido, a escalada daquele pensamento adolescente de que um professor te odeia e quer te ver morto e passa todo o tempo livre em casa pensando em formas de foder com a sua vida. Enquanto a verdade é que: a última coisa que professor quer pensar em horário de folga é sobre aluno.)

Estou escrevendo uma tese de doutorado. No exame de qualificação, há dois anos, admiti para a banca que duvidei de mim durante todo o caminho até ali, e sobretudo naquele momento. Eu não tive nenhuma iluminação, nenhum grande momento eureka mas, aos poucos, comecei a acreditar na minha ideia. porque aprendi a não descartar a minha voz como algo menor logo de cara. É diferente da voz que eu gostaria de ter, é verdade – eu sempre quis ser uma figura séria e erudita e não, já descobri que não vai rolar  – mas é minha, é única e, olha, contra todas as expectativas, até que é bem interessante. Quando fevereiro chegar estarei pronta para defender o trabalho que estou fazendo. Com orgulho, até. Também comecei a escrever ficção, uma vontade há muito tempo postergada, porque nunca me sentia “intelectualmente madura” ou suficientemente criativa para fazê-lo. Continuo não me sentindo, mas pelo menos me dei conta do óbvio: se  não praticar, não vou sair do lugar. E para alguém que fisicamente saiu tanto de tantos lugares nos últimos anos, eu estava sendo covarde ao não querer deixar o lugar mental em que me sentia confortável. Mas chega.

(O Quinas, é claro, por conta de toda a carga emocional, é parte importante do expurgo. E é sempre melhor encerrar numa data redonda. Não acho que vou ficar muito tempo sem criar um novo endereço, porque eu escrevo blogs desde os tempos da internet discada, e eu sou, afinal, uma pessoa de hábitos – sobretudo os maus hábitos. Assim que arranjar uma casa nova – o que pode demorar ou não – volto aqui para dar o endereço e agitar o ~open house~ virtual. Mas eu não morri, não – apesar da minha tese falar sobre morte e de eu estar matando coisas e encerrando ciclos. Continuo vivinha no twitter, tratem de passar por lá para me dar um oi).

No mais, obrigada aos que me acompanharam até aqui, de verdade. Ou mesmo os que chegaram por esses dias. Ou os que foram importantes mas se distanciaram, e sequer vão ler o último post. Alimentem-se direito, leiam bons livros, leiam maus livros e aprendam logo a usar uma panela de pressão, porque não dá para viver a vida inteira aterrorizado com um utensílio doméstico – vamos fazer menos drama e mais feijão.

Um beijo,

Gabriela Ventura.

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Uma teoria sobre as cidades*

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Quem diz “esta é a minha cidade” ainda não sabe que as cidades não são nossas. São pessoas que, por pertencerem a elas, acham que o sentimento deve ser recíproco. E então se irritam ao voltar de férias porque as cidades não os esperaram. Um viaduto entrou em obras e mudou a mão das principais ruas do centro. A mercearia do bairro não vende mais pão, há um novo restaurante indiano sobre o qual as pessoas comentam como existisse desde sempre e o hospital mais próximo parou de atender o plano de saúde popular. A rede de esgotos colapsou e agora há um buraco de três metros na rua, e as rodinhas daquela mala comprada no exterior mancharão de barro o mármore da portaria.

É preciso entender que as cidades possuem autonomia e ideias próprias sobre quem são, a despeito de quem acha que pode comprá-las ou regê-las. O processo de enamoramento pelas cidades é semelhante ao por pessoas. Não nos apaixonamos por um ser humano real, mas pela projeção de nossos desejos em alguém, o que explica os amores platônicos e a alta probabilidade de frustração a cada vez que nos metemos em furadas semelhantes. Da mesma forma, uma cidade jamais atenderá nossas expectativas, e sempre será muito mais (e, sobretudo, muito menos) do que a imagem que fixamos em nossos cartões postais interiores.

As cidades não nos pertencem porque cada cidade são infinitas, e se há algum consenso em relação à geografia e mobilidade é mais por coincidência do que por acordo entre as partes. O que é mais ou menos a descrição de um relacionamento amoroso, a metáfora continua valendo – se uma cidade se oferecesse inteiramente a paixão não poderia durar. Mas porque as cidades guardam para si mesmo segredos e promessas que podemos apenas pressentir, é que se transformam em paisagens idílicas dentro de nós. É um truque, é claro, mas um truque dos bons.

(Quadro: City DNA – Barcelona, por Lu Xinjian. Mais aqui.)

* Ou: coisas que a Loris pensa quando está cansada.

Se o Nirvana for um escritório eu não quero entrar lá, ou: O dia em que David Lynch partiu meu coração

Sinais de que estou chegando aos trinta anos, ou: atentem para a carga simbólica dos clichês: comprei meu primeiro pacote de granola por esses dias. Comecei a correr na esteira e pretendo, em breve, me aventurar na rua. E, ontem, fui assistir uma palestra sobre meditação, por culpa do David Lynch – que, aliás, partiu meu coração. Mas estou me adiantando, vamos por partes.

I – Uma fã de David Lynch. Uma fã da ideia de meditação e não da meditação em si, cês já tentaram?! Como faz pra desligar o cérebro!?

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Sou uma fã do trabalho de Lynch desde que eu assisti Veludo Azul em um Corujão da vida (e me causou uma impressão imensa, é claro). Alguns itens da filmografia dele estão soldados na minha lista de favoritos e eu acredito piamente que Twin Peaks é uma das melhores coisas que já aconteceram para a cultura televisiva – e, sem dúvida, toda aquela esquisitice me influencia até hoje. Por conta dos anúncios sobre a volta de Twin Peaks em 2016 meu interesse sobre o homem que tem o melhor corte de cabelo da galáxia reacendeu, e foi por isso que não pensei duas vezes ao comprar um livro que vi na livraria, escrito por ele. “Em águas profundas: criatividade e meditação” é uma série de apontamentos biográficos e sobre os diversos momentos da carreira de diretor (e de pintor) de David Lynch, mas é, sobretudo, um elogio ao estilo de meditação que ele pratica, e para o qual abriu uma fundação que se dedica a levar a prática a diversos grupos em vários países.

Pausa para dizer que a ideia de meditação sempre me agradou, ainda que eu nunca tenha feito grandes esforços para aprender qualquer técnica. Tentei um livro ou outro, para além de uma meia dúzia de arquivos de áudio com meditações guiadas ao longo dos anos, sem muito sucesso. Ou seja: assim como o arco e flecha, a dança contemporânea e a prática do violoncelo, a meditação entrou naquela categoria “atividades que admiro a distância, mas para as quais teria de nascer de novo, porque sou muito inadequada para qualquer uma delas”.

Mas daí li o texto do Lynch, quando ele fala sobre a primeira experiência com a prática que ele escolheu (e que recuso a reproduzir o nome, por motivos que serão expostos a seu tempo, mas que podem ser resumidos por: alerta de picaretagem). Ele diz:

(…) em julho de 1973, fui a um Centro de Meditação em Los Angeles, encontrei uma instrutora e gostei dela. Era parecida com a Doris Day. Foi ela que me ensinou essa técnica. Ela me ofereceu um mantra, uma vibração sonora de pensamento. (…) A instrutora me levou até uma pequena sala para a minha primeira meditação. Eu me sentei no chão, fechei os olhos e iniciei esse mantra; e foi como se estivesse em um elevador e um cabo se rompesse de repente. Boom! Caí direto na felicidade: na mais pura felicidade.

Olha, eu não sei vocês, mas eu queria que meu elevador caísse direto na felicidade também. Bem, talvez eu usasse uma metáfora menos violenta. Queria que meu corpo suavemente pousasse nas almofadas de pena de ganso da felicidade. De todo jeito, foi o suficiente. Parei a leitura e dei um google na técnica. Achei um Centro de Meditação aqui por essas bandas, e eles ofereciam uma palestra introdutória gratuita para o dia seguinte, olha só a minha sorte. 

Não que eu cultivasse a expectativa real de mergulhar na piscina de bolinhas da felicidade, mas se houvesse uma técnica simples, independente de qualquer crença religiosa (como afirma o site) e que me ajudasse a ser menos ansiosa e mais focada já seria um puta upgrade na minha vida.  Me inscrevi.

II – A negação

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Sabe quando varremos para baixo do tapete da consciência a sensação de que alguma coisa vai dar muito errado? Pois é. A palestra era na parte da noite, então, no meio da tarde, fui pesquisar como chegar ao Centro. A acessibilidade era complicada: a melhor alternativa seria pegar um taxi, porque o centro ficava em uma parte nobre da cidade, e pra quê transporte público em área de bacana, não é mesmo, minha gente diferenciada? Mas persisti. Deveria ter passado pela minha cabeça um cálculo rudimentar de quanto seria o aluguel numa área dessas? Deveria sim.

E a localização geográfica não foi o único indicador. Estranhei que, no site, ao procurar literatura específica sobre a técnica, havia disclaimers avisando que não se pode aprender a tal vertente em livros, que o conhecimento só pode ser passado por professores treinados e cadastrados pelo centro. Peraí, quê? Quer dizer que não posso ler um único texto a respeito? Que o “segredo” da técnica é guardado por meia dúzia de pessoas, das quais prescindo para poder me “iniciar”? Não era só uma técnica de meditação e relaxamento? O que os instrutores poderiam fazer, torcer meus músculos em cadeiras de tortura para que eu alcançasse alguma posição bizarra de yoga/Cirque du Soleil? Nada contra a tradição oral, inclusive respeito muito. Mas acho – só acho – que se você faz um site com depoimentos de famosos (pois é, indício número 3, eu sou mesmo uma trouxa) e páginas e páginas de benefícios trazidos pela técnica de bom tom ter uma literatura mínima a respeito, para que as pessoas possam se informar sem ter de ir assistir a tal Palestra Introdutória Gratuita.

Mas, se eu fui?  Como perder a chance de quicar inocentemente na cama elástica da felicidade? Não custava tentar, certo? Quer dizer, literalmente. Fui sim.

III – A experiência

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Cheguei faltando poucos minutos para o início da palestra. Uma atendente simpática me encaminhou para uma sala. “Estamos exibindo um vídeo, que já está terminando. Assim que o vídeo acabar o professor entrará em sala.” Ok. Entrei em silêncio, sentei na última fileira. Contei outras 11 pessoas na sala. O vídeo institucional repetia a informação divulgada no site, mesclando opiniões de famosos (inclusive o Lynch, os outros nomes não eram lá muito confiáveis), propaganda sobre os benefícios da prática e alardeando a existência de centenas de pesquisas científicas que comprovam a eficácia do método. Afora a parte dos depoimentos de personalidades da mídia (americana) – e botando a mão na consciência de que eu só estava lá por conta de uma – o tom geral parecia fazer esforço para se libertar de qualquer clichê new age. Meditação para o homem contemporâneo, sem grandes hocus pocus. Não parecia de todo desagradável.

O professor finalmente chegou, ele devia ter uns 30 e poucos anos. E estava usando um terno, gravata combinando, sapatos brilhantes. O terno me desconcertou. Não é como se eu estivesse esperando vestes cerimoniais, mas olhei para o meus tênis sujos, meu jeans largo e minha camiseta da Mulher Maravilha e me senti deslocada. Opa. Começamos mal, mas ficou pior. Ele ligou o projetor e iniciou… uma projeção de Power Point. Não sei o que eu achei que fosse acontecer em uma palestra sobre meditação, mas certamente não esperava apresentação de slides com ponteira a laser e roteiros ensaiadinhos. Mas pensei, “ok, vamos lá: a ânsia de laicizar a meditação fez com que o método ficasse parecendo treinamento corporativo. Eu posso lidar com isso, coragem!”

O professor então diz que a técnica em si é muito simples, e independe de esforço intelectual. Essa informação se provou útil para que eu conseguisse aturar uma hora de slides sem me enforcar com o carregador de celular que estava na bolsa. E me proporcionou uma satisfação interna sobre como muitas vezes as pessoas não percebem a ironia em seus próprios discursos, já que, logo em seguida, ele começou com a história de que NÓS USAMOS APENAS 10 % DO NOSSO CÉREBRO, NÃO SERIA MARAVILHOSO SE PUDÉSSEMOS USAR MAIS? 2014 e tem gente que acha o argumento plausível. (Spoiler alert: não é). Um cara sentado do outro lado da sala revirou os olhos. Nos olhamos e trocamos mensagens telepáticas sobre o que diabos estávamos fazendo ali.

A palestra oscilava entre o tédio e o nonsense. Eu não diria que a contextualização histórica tenha sido adequada. A técnica havia sido reciclada e adaptada para o homem contemporâneo pelo guru indiano X, mas a sabedoria data dos Vedas, que ele não conseguiu explicar direito o que era porque não leu antes a página da Wikipedia correspondente. Já na parte científica… a tentativa de explicar a fisiologia do cérebro era totalmente fake science, pelo menos até onde pude perceber (não sou nenhuma especialista, tão somente curiosa em relação a textos de divulgação científica, mas mesmo assim). As “comprovações científicas” sobre a eficácia do método, tantas vezes citadas, não vinham com as referências na hora de serem apresentadas na tela. De que adianta, então, colega?

E quando tudo não parecia pouco crível o suficiente, ele lançou a carta da FÍSICA QUÂNTICA. Claro, é o clichê de qualquer mutreta pseudo-científica: se você não sabe como explicar algo, use física quântica, já que é algo que nenhum leigo entende mesmo. Mas o ápice da demonstração científica foi quando o Doutor Fulano de Tal foi mencionado. Credenciais do Fulano de Tal: ele apareceu no filme de O Segredo. Constrangimento define.

Uma hora e dez depois (que pareceu um mergulho numa eternidade dolorosa, em vez do meu banho de imersão no ofurô da felicidade), o professor estava pronto para oferecer os dados do curso introdutório que nos ensinaria a técnica em cinco aulas. Nessa altura eu já estava esperando uma facada mas, mais uma vez, minha imaginação foi pouco poderosa ante o espetáculo absurdo da Realidade. O valor total poderia ser dividido em quatro parcelas de muita, mas muita grana. Nem as aulas de francês que eu queria fazer, em um curso chique, custavam tanto. Dei um sorriso enquanto a secretária me entregava a ficha de inscrição: você está louca, querida.

Meu colega de suplício levantou a mão e perguntou: “Se eu me sentir insatisfeito, posso pedir o dinheiro de volta?” Enquanto o professor explicava que não, precisava, ao mesmo tempo, ficar olhando feio para mim, que não aguentei e dei uma risada. Nós dois fomos os únicos a entregar a ficha em branco, e os primeiros a sair. A secretária resolveu economizar na simpatia e não se despediu de nós. Já do lado de fora, ao menos eu tinha um coleguinha para comentar os absurdos que havíamos ouvido. E uma “carona a pé” até o ponto de ônibus mais próximo, já que eram quase 10 horas da noite e, apesar de estarmos em uma área nobre, quem é que não tem medo de andar no escuro, certo? Eu pelo menos estava a dois ônibus de casa. Descobri que o pobre coitado ainda morava em outra cidade.

IV – O pós-experiência, ou Uma comparação inquietante.

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Saquei meu celular da bolsa e, no caminho de volta, fui direto para a internet. Não é possível que eu fosse a única pessoa a perceber que aquilo era um esquema, não sou tão esperta assim – o discurso é que é ruim. Mas acabei descobrindo um site inquietante, organizado por um ex-professor do método que explica por A + B que, para além de uma empresa lucrativa baseada na ciência pudinesca, a coisa toda na verdade é um culto. Sim, uma dessas seitas com líder, doutrina, lavagem cerebral e tudo mais. Aparentente o papo de “técnica de meditação que independe de doutrina religiosa”  é uma fachada para ~drogas mais pesadas~: uma vez dentro você começa a ser introduzido aos segredos da doutrina (mediante pagamentos astronômicos, é claro, não existe almoço grátis, quiçá felicidade).

Ou seja: David Lynch está para essa técnica específica assim como Tom Cruise está para a Cientologia. 

Tá bom de revelação espiritual e alargamento de consciência pelo mês inteiro, não tá? Parei no meio do caminho, morta de fome, e apelei para um cachorro-quente em uma birosca. O único mergulho na felicidade que me foi oferecido naquela noite apareceu na forma da maionese de alho da lanchonete, que estava deliciosa. Vai entupir minhas artérias e inutilizar meus esforços na esteira. Mas estava deliciosa. Como eu disse, a terceira década de vida está se aproximando. Quantos clichês a mais, meu deus, quantos clichês a mais?

Festa no Céu ou Esta não é uma crítica, é uma intimação.

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Entramos na sala e nos surpreendemos. Não era, afinal, a sessão de onze horas do Cine Belas Artes com um filme turco sobre um rapaz cego que sonha em ser filatelista. Era uma animação para crianças, em 3D, em um cinema de shopping. Por que não havia nenhuma criança? Aliás, por que a sessão estava tão vazia? Contando com nós dois, éramos cinco ao todo. Talvez o filme fosse uma droga e só nós não tivéssemos recebido o memorando por e-mail. Mas o ingresso estava comprado e eu tenho por princípio jamais sair de uma sessão de cinema pela qual eu tenha pagado antes que o filme termine, nem que seja para falar mal com propriedade e lamentar o dinheiro que gastei.

Mas o filme… meu deus, o filme é incrível! (Em tempo, antes que eu me esqueça: estou falando sobre Festa no Céu, de Jorge R. Gutierrez) Ainda que a história fosse talvez linear demais e até mesmo previsível (desenho para criança, Gabriela, respira fundo e admita que você não é o público alvo principal), o visual era embasbacante, os personagens bem construídos, as piadas não eram idiotas, a trama estava cheia de boas lições e, apesar de ser fundamentalmente uma história sobre um triângulo amoroso, a personagem feminina principal tem uma personalidade só para si e não se encaixa nem de longe na definição da donzela em perigo.

Tudo bem, era uma segunda-feira, e nem estávamos na época das férias. E a divulgação não era padrão Disney/Pixar, ainda que o Mc Donald’s esteja vendendo bonequinhos do filme no lanche infantil do mês. E um pouco de pesquisa me mostrou que o filme foi até bem no fim de semana de estreia: 342.404 ingressos vendidos, segundo o Adoro Cinema. (Para fins de comparação, o sucesso retumbante que foi Frozen vendeu 679.503). Me tranquilizei. Quando cheguei em casa, no entanto, mandei mensagens para cinco amigos que eu sabia que também adorariam o filme, mas nenhum deles sequer sabiam da existência. Piraram no trailer, mas foi algo que escapou do radar de muita gente.

Então aqui estou eu, fazendo o trabalho de divulgação boca-a-boca, ou, ao menos, blog-a-blog. Não porque eu não acredite que o filme vá se pagar (ele está indo muito bem, obrigada, sem mim, e não é como se eu pudesse acrescentar muito a mais), mas porque acho que precisamos apoiar os projetos que gostaríamos de ver com mais frequência na tela ou em qualquer outro meio.

THE BOOK OF LIFE
Festa no Céu, uma tradução ri-dí-cu-la para The Book of Life, é uma celebração de tradições folclóricas sobre o Dia de los Muertos mexicano. Como talvez a ideia da celebração do dia dos mortos como uma festa seja um choque cultural para muitos, o filme é esperto em enquadrá-lo em uma moldura palatável a gostos mais ~sensíveis~. Um grupo de crianças americanas  encontra uma guia de museu especial, que as conduz por uma pavilhão de tradições mexicanas até o Livro da Vida, que guarda todas as histórias de que o mundo é feito. “Qual o lance dos mexicanos com a morte?”, pergunta o guri.

A história contada pela guia tenta explicar. Segue uma imersão no universo suscitado pelos bonecos de madeira que a guia apresenta, um mundo estilizado em que duas divindades resolvem fazer uma aposta. La Muerte é a senhora do Reino dos Lembrados, um lugar de festa perene para todas as almas ainda celebradas e queridas pelos vivos. Xibalba é o senhor do Reino dos Esquecidos, um lugar frio e triste, bem, faça o paralelo você mesmo. Entediado com a modorra de seu reino, Xibalba, o trapaceiro, desafia La Muerte (sua amante/ex-amante, os dois tem uma relação ~complicada~): ambos avistam um florescente triângulo amoroso em três crianças e decidem que cada um escolherá um campeão que tentará se casar com a mocinha no futuro. Ao vencedor, as batatas. Se Xibalba vencer eles trocarão de reino. Se La Muerte vencer, Xibalba deixará de se meter na vida dos vivos.

THE BOOK OF LIFE

E segue o desenrolar da história. Manolo, o escolhido por La Muerte, irá se tornar um toureiro incapaz de matar  touros (o que desonra sua família de toureiros), preferindo a vida de cantador. É um moleque esquisito e sensível que vai tirar Creep no violão quando estiver se sentindo triste (não é força de expressão, a cena realmente acontece). Joaquim é filho do herói póstumo da cidade, e depois que consegue por Xibalba um amuleto que garante invencibilidade em batalha, torna-se um tipo de action-figure vaidoso, mas com bom coração. Maria é uma guria impetuosa demais para seu pai, que tenta educá-la/ amaciá-la mandando-a para estudar em um convento na Espanha. Provavelmente o convento mais bizarro do planeta, porque ela aprende de esgrima a kung-fu. Ambos os rapazes entrarão em uma competição pela mão da mocinha, mas sem esquecer da amizade entre eles.

O filme também quase recria a história de Orfeu e Eurídice, acompanhando a jornada de um dos protagonistas pelo submundo. As figuras de madeira transformam-se nas caveiras mexicanas. O mundo dos mortos mexicano é a melhor parte do filme. Cores, filigranas, texturas deslumbrantes… se eu for obrigada a continuar, encherei parágrafos de adjetivos que não darão conta do desbunde visual que o filme apresenta.

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The Book of Life (me recuso a ficar chamando o filme de Festa no Céu, afinal a festa não é no céu, pombas, é no mundo dos mortos – outras referências mitológicas, lide com isso) foi produzido por Guillermo de Toro, salvando o projeto de Gutierrez, que havia sido abandonado pela Dreamworks, por “diferenças criativas”. Não deve ser fácil para um estúdio bancar a ideia de um pós-vida festivo. Cosmogonias à parte,  a lembrança e a celebração da ancestralidade exercem papel fundamental para o tema de The Book of Life: ser esquecido é deixar de existir. Não apenas uma alma, é claro, mas toda uma cultura.

Para além desse ensinamento, o filme ainda se posiciona contra a crueldade das touradas, celebra o valor da amizade, mostra os conflitos e os laços que unem uma família e explicita o amor entre um filho e sua mãe (quando o mais comum em representações infantis – à exceção de Bambi e Dumbo – é desenvolver laços de pais com filhos e filhas com mães). Também dá um jeito de enfiar a mensagem “não tenha medo de ser você mesmo”, conta com uma divindade extra, responsável pelo equilíbrio de todas as coisas, apresenta personagens femininas críveis e importantes em um cenário que à primeira vista pareceria completamente masculino e ainda insere um monte de canções grudentas no meio, incluindo uma versão de I can’t help falling in love with you. Tá bom ou quer mais?

(A única tristeza foi não ter encontrado cópias legendadas. As versões das músicas ficaram horrendas, ora com legendas, ora sem. Fora o time que se reuniu para dublar o filme nas gringa: Zoe Saldana, Ron Pearlman, Danny Trejo, Plácido Domingo (!!!!!) Já estou esperando o blu-ray sentadinha)

Se você gosta de animações, corra para o cinema mais próximo. E fique com o trailer, caso eu não tenha feito um bom trabalho ao explicar porque o filme é tão bacana.

Nossa Senhora da Concisão

"Pode cortar esse capítulo todo porque eu não vou ter tempo de ler, tenho filho pequeno pra criar".

“Pode cortar esse capítulo todo porque eu não vou ter tempo de ler, tenho filho pequeno pra criar”.

Varei a madrugada tentando explicar a tese que venho escrevendo há meses em 20 parcas linhas para o caderno de resumos de um seminário da faculdade. (Se tivessem pedido um texto de 20 páginas eu não teria demorado tanto). Foi um tal de corta daqui, tira linhas essenciais de lá, um sufoco. O que me leva a pensar: a defomação profissional me faz invejar qualquer pessoa que consiga compor uma dissertação de vestibular ou de concurso. Introdução, dois ou três argumentos e conclusão em um espaço ínfimo. Eu posso até dar uma aula sobre isso, mas me espanta quando vejo (ou tenho de corrrigir) o milagre pronto: como é que pode?

Minha Nossa Senhora da Concisão, rogai pelos verborrágicos, mas especialmente por mim, que a inventei às quatro da manhã só porque não havia entidade adequada para acender uma vela nessa hora terrível. Não nos deixeis cair na tentação de diminuir ~só um pouquinho~ o tamanho da fonte ou do espaçamento, torcendo para ninguém notar. Livrai-nos dos adjetivos inúteis e de todos aqueles advérbios que a gente usa na hora e jura que está arrasando, para na primeira revisão se arrepender, porque, né, o texto ficou parecendo coisa de amador.

Amém.

As velas

Os olhos escurecem com o branco das cataratas. A audição fraqueja à medida que sobe o volume da televisão. A memória imediata está se deteriorando – troca o lugar das coisas da casa, perde papéis. Quase não anda mais de bicicleta, tampouco faz compras grandes no supermercado sozinho. Ainda aquece a própria comida, mas as refeições têm diminuído. Ocupa cada vez menos espaço, precisa de cada vez menos.

A pele está tão fina que a coceira da picada de um inseto pode virar um rastro de sangue. No rosto, manchas de sol cobram os tributos de uma vida inteira trabalhando ao ar livre. O burburinho do mundo agora é fonte de perigo: adolescentes de skate, aglomeramento de pessoas,  e mesmo os desníveis no chão me apavoram. E ele não olha para baixo, ele não faz concessões.

Hoje saímos à rua de braços dados. As pessoas param para falar com ele, sorriem para nós dois. Ele se estica para me confidenciar ao ouvido: “eu podia ser vereador”. Ele adora a atenção que recebe, os amigos que reencontra, as crianças que passam por ele. É preciso paciência para responder sempre às mesmas perguntas, mas como perder a calma se o que ele quer saber parece essencial, como se pressentisse que algo escapa de sua mente e que é preciso ordenar os nossos passos para que a vida atual faça sentido? Quanto à própria trajetória, no entanto, não hesita. É capaz de passar histórias que aconteceram há mais de meio século. E são sempre histórias engraçadas, mesmo que saibamos o quanto a vida dele foi difícil. O timing para piadas continua perfeito.

Voltando para casa, passamos por uma loja de artigos religiosos. Em um canto da vitrine havia uma vela votiva, queimando devagar. Ventava bastante mas a chama insistia, trêmula, ao fim do pavio. Com uma insistência que eu só poderia qualificar como milagrosa. Senti uma pontada no peito, mas sorri. Estávamos conversando sobre a festa que estou organizando para ele. “E aí, tá animado?” “Enquanto a gente estiver nessa Terra tem que estar sempre animado”. Sim, é verdade. Mês que vem vamos comemorar 90 anos de uma vela ardendo, na milagrosa teimosia de estar animado até o fim. E não é porque está brilhando menos do que já brilhou um dia que deixaremos de dançar.

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Sobre o vício de compor playlists

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(Título alternativo: Sobre como passar horas escolhendo músicas antes de começar de fato a trabalhar não é procrastinação, eu juro!)

 

Nasci na gloriosa (e breve) era das fitas cassetes. Talvez nem tão gloriosa assim, é verdade, mas, de todo jeito, a fixação por mixtapes só pode ter vindo da infância. Gravadores para copiar fitas de amigos. Esperar horas por aquela baladinha cafona que tocava no rádio e desejar a morte do locutor toda vez que ele começava a falar antes do fim da música. Editar, reeditar, colar durex na proteção contra a gravação das fitas de samba enredo do meu pai – e ouvir impropérios a cada vez que ele descobria que Atrás da verde e Rosa só não vai quem já morreu foi substituído, sei lá, por Aerosmith – eram os anos 90, afinal.

Desde aquela época – e muito antes que Alta Fidelidade me caísse nas mãos e fizesse o estrago emocional que me fez já no fim da adolescência – eu estava lá criando trilhas sonoras para pessoas, relacionamentos e situações. Não estou dizendo que é um hábito original, claro, é apenas um tique meu. Pessoas, situações, relacionamentos e viagens ganham trilha sonora na minha cabeça e, frequentemente, no Ipod. Músicas me ajudam a entrar no clima em quase todas as atividades, exceto na hora de fazer exercício porque música também não faz milagre.

Uso músicas para me descrever (a atual e sempre atualizada playlist sobre mim começa com Cat Power e termina com Blind Melon) Uso músicas para descrever meu namorado, meus melhores amigos e as boas (e as más) relações que tenho com a minha família. Cada fossa da minha vida teve obsessões musicais diferentes, dependendo dos motivos do término e do contexto geral da relação – em um espectro que vai de uma civilizada & fofinha canção de Stars à mea culpa na sofrida voz de Johnny Cash. Mas também há músicas para alguns dos momentos mais felizes: uma rodinha de adolescentes tocando Legião Urbana em Porto Seguro, uma madrugada em um inferninho lisboeta cantando com The Smiths como se minha vida dependesse disso.

Uso músicas para escrever, e faço delas uma rotina. Talvez seja uma forma de fazer com que meu cérebro entenda que precisa entrar em um mindset específico, do contrário a coisa não flui. A música foi o gatilho que encontrei para me manter minimamente concentrada. Minha tese tem pelo menos três trilhas diferentes. Gosto de ouvir jazz na hora de ler (Miles Davis, John Coltrane, Dave Brubeck), Bach para escrever e Sigur Rós para revisar. E se você me perguntar o porquê das preferências vou te dizer que não sei.

Já para escrever ficção, acredito que saber o que um certo personagem ouve já é meio caminho andado para a construção de personalidades distintas, ainda que isso jamais seja mencionado textualmente. No romance que eu estou escrevendo (é favor ler essa afirmação da forma menos pretensiosa possível porque, né, quem é que NÃO está escrevendo um romance por esses dias), uma das protagonistas, fã de Patti Smith e Leonard Cohen, vai dividir apartamento com um cara que é mais de Caetano e Radiohead. Na minha cabeça faz o maior sentido que, por isso, os dois sintam uma simpatia mútua e fiquem amigos de cara, embora não sem brigas memoráveis de quando em quando.

Uma playlist para cada estado de espírito. E uma para cada ação cotidiana. Buena Vista Social Club para cozinhar, Donna Summers para faxinar a casa. Nos últimos tempos acho que a música perfeita para viajar é a de Kevin Johansen. E atualmente eu tenho ouvido The Dresden Dolls direto porque ando nostálgica, com saudades de quem eu era quando descobri pela primeira vez a banda.

O sábio Zaratustra só poderia crer em um deus que soubesse dançar. Já eu, que estou longe de ser sábia, só poderia crer em um deus que tivesse criado o universo através da música. Essa história de No Princípio era o Verbo nunca me convenceu, as palavras parecem nunca ser suficientes e adequadas. São ásperas, imperfeitas, perdem-se no tempo e em suas próprias ressignificações: confiar o tecido da realidade a elas seria uma estupidez. Não: no princípio era um riff que durou uma eternidade, um acorde perfeito, um refrão em que o sentido importa menos do que a sensação que deixa em nós.