Sobre o vício de compor playlists

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(Título alternativo: Sobre como passar horas escolhendo músicas antes de começar de fato a trabalhar não é procrastinação, eu juro!)

 

Nasci na gloriosa (e breve) era das fitas cassetes. Talvez nem tão gloriosa assim, é verdade, mas, de todo jeito, a fixação por mixtapes só pode ter vindo da infância. Gravadores para copiar fitas de amigos. Esperar horas por aquela baladinha cafona que tocava no rádio e desejar a morte do locutor toda vez que ele começava a falar antes do fim da música. Editar, reeditar, colar durex na proteção contra a gravação das fitas de samba enredo do meu pai – e ouvir impropérios a cada vez que ele descobria que Atrás da verde e Rosa só não vai quem já morreu foi substituído, sei lá, por Aerosmith – eram os anos 90, afinal.

Desde aquela época – e muito antes que Alta Fidelidade me caísse nas mãos e fizesse o estrago emocional que me fez já no fim da adolescência – eu estava lá criando trilhas sonoras para pessoas, relacionamentos e situações. Não estou dizendo que é um hábito original, claro, é apenas um tique meu. Pessoas, situações, relacionamentos e viagens ganham trilha sonora na minha cabeça e, frequentemente, no Ipod. Músicas me ajudam a entrar no clima em quase todas as atividades, exceto na hora de fazer exercício porque música também não faz milagre.

Uso músicas para me descrever (a atual e sempre atualizada playlist sobre mim começa com Cat Power e termina com Blind Melon) Uso músicas para descrever meu namorado, meus melhores amigos e as boas (e as más) relações que tenho com a minha família. Cada fossa da minha vida teve obsessões musicais diferentes, dependendo dos motivos do término e do contexto geral da relação – em um espectro que vai de uma civilizada & fofinha canção de Stars à mea culpa na sofrida voz de Johnny Cash. Mas também há músicas para alguns dos momentos mais felizes: uma rodinha de adolescentes tocando Legião Urbana em Porto Seguro, uma madrugada em um inferninho lisboeta cantando com The Smiths como se minha vida dependesse disso.

Uso músicas para escrever, e faço delas uma rotina. Talvez seja uma forma de fazer com que meu cérebro entenda que precisa entrar em um mindset específico, do contrário a coisa não flui. A música foi o gatilho que encontrei para me manter minimamente concentrada. Minha tese tem pelo menos três trilhas diferentes. Gosto de ouvir jazz na hora de ler (Miles Davis, John Coltrane, Dave Brubeck), Bach para escrever e Sigur Rós para revisar. E se você me perguntar o porquê das preferências vou te dizer que não sei.

Já para escrever ficção, acredito que saber o que um certo personagem ouve já é meio caminho andado para a construção de personalidades distintas, ainda que isso jamais seja mencionado textualmente. No romance que eu estou escrevendo (é favor ler essa afirmação da forma menos pretensiosa possível porque, né, quem é que NÃO está escrevendo um romance por esses dias), uma das protagonistas, fã de Patti Smith e Leonard Cohen, vai dividir apartamento com um cara que é mais de Caetano e Radiohead. Na minha cabeça faz o maior sentido que, por isso, os dois sintam uma simpatia mútua e fiquem amigos de cara, embora não sem brigas memoráveis de quando em quando.

Uma playlist para cada estado de espírito. E uma para cada ação cotidiana. Buena Vista Social Club para cozinhar, Donna Summers para faxinar a casa. Nos últimos tempos acho que a música perfeita para viajar é a de Kevin Johansen. E atualmente eu tenho ouvido The Dresden Dolls direto porque ando nostálgica, com saudades de quem eu era quando descobri pela primeira vez a banda.

O sábio Zaratustra só poderia crer em um deus que soubesse dançar. Já eu, que estou longe de ser sábia, só poderia crer em um deus que tivesse criado o universo através da música. Essa história de No Princípio era o Verbo nunca me convenceu, as palavras parecem nunca ser suficientes e adequadas. São ásperas, imperfeitas, perdem-se no tempo e em suas próprias ressignificações: confiar o tecido da realidade a elas seria uma estupidez. Não: no princípio era um riff que durou uma eternidade, um acorde perfeito, um refrão em que o sentido importa menos do que a sensação que deixa em nós.

Biscoitos da sorte*

- “Sua natureza emocional é forte e sensível”. Agora me diz, Loris, como é que isso pode ser considerado uma sorte? O biscoito não deveria predizer um futuro glorioso para mim, ou, pelo menos, algum futuro? O Conselho de Psicologia foi consultado sobre os impactos de colocarem uma afirmação dessa sem mais nem menos dentro de um biscoito?

- Não acho que um conselho de psicologia possa fazer alguma coisa. Como tudo o que vem da China, biscoitos da sorte devem ter no mínimo uns 4000 mil anos. Quero ver legislar sobre o legado cultural e profético da dinastia sei lá o quê.

- Usando esse raciocínio, a Vigilância Sanitária também não pode inspecionar pastelarias chinesas, nem averiguar se o milenar caldo de cana está sendo extraído corretamente.

- Ainda tem os números na parte de trás, quem sabe seu futuro não esteja neles.

- Se você pensa que vou ficar na fila da lotérica você ainda não me conhece. Nunca ganhei rifa, concurso, jogo do bicho, até pra conseguir uma raspadinha extra eu tenho menos sorte que a maioria – acha mesmo que consigo acertar na loteria?

- Foi o biscoito quem disse. Questão de autoridade. Os sábios chineses devem entender mais do que eu.

- Os números são comuns a todos os tipos de sorte, eu é que tenho azar de encontrar essas pérolas de auto ajuda em vez de algum consolo oracular para o futuro. Abra o seu, o que diz?

- Pera, deixa eu só… ah, “Sua vida amorosa será feliz e harmoniosa”.

- Tá vendo? Dei a boa sorte a você e fiquei com a porcaria pra mim. Nem nisso eu acerto.

 – Quer trocar? Não ando fazendo a mínima questão de uma vida amorosa, mesmo que me prometam um felizes para sempre de filme da Disney e milionário romântico de romance de banca de jornal.

 – Não senhora. As sortes são pessoais e intransferíveis.

- Olha, não sei não. Sinceramente, não preciso de papelzinho nenhum para ter certeza de que minha natureza emocional é bem mais forte e sensível do que a sua. Pega o biscoito que tá sobrando, dessa vez vai.

-  “A tempestade arranca a árvore sozinha”. QUÊ?! É agora que eu sumo de vez com o contato desse delivery.

- Vou comprar umas mudas pra te fazer companhia. Podemos começar um jardinzinho na sacada.

* Botando a Loris e Jorge para papear de novo, porque esses dois me divertem.

Você pode ler outra conversa deles aqui.

Blogagem Coletiva: livros que marcaram a infância

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A querida da Sybylla (Momentum Saga) propôs uma blogagem coletiva e eu achei a ideia excelente, principalmente porque não ando lá muito motivada a atualizar o blog e é sempre bom não deixar acumular muita poeira por aqui. Falar sobre livros, no entanto, é sempre um prazer. Sobre os primeiros, então, melhor ainda, principalmente porque a minha trajetória de leitura não foi muito óbvia e rendeu algumas histórias engraçadas. Quer dizer, para mim, pelo menos. Se minha mãe estivesse escrevendo esse post no meu lugar certeza que ela teria um ponto de vista diferente para oferecer a vocês. 

Cena: formatura da Alfabetização – 6 anos

Eu não queria ir de jeito nenhum. Quer dizer, o chapéu e a capinha eram bonitos e eu gostava dos meus amiguinhos, mas nos foi dito na semana anterior que a gente ia precisar subir no palco e dar um beijinho na professora. Como eu odiava a minha professora (coitada!) cruzei os braços e disse que não iria. Minha mãe, sabendo que eu era uma criatura facilmente manipulável, me convenceu a ir para ganhar o livro que viria no kit, junto com o diploma – os pais devem ter comprado esse kit, não sei bem. Era um paradidático da coleção Os Pingos, chamado “Que bicho será?” Terminei o livro ainda na cerimônia, antes de sair com a minha família para almoçar. A diretora da escolinha vem dar uma de simpática e perguntou se eu gostei. “É uma porcaria”, respondi. “Só tem figura e a história é boba”. Corta para a cara da minha mãe de arrependimento por não ter me deixado ficar em casa.

*

Eu era uma criança esquisita. Quer dizer, muita gente pode argumentar – não sem alguma razão – que eu ainda sou uma criança esquisita. Mas na época em que eu tinha idade para isso, sim, esquisita, definitivamente. O primeiro grande livro da minha infância, quando sequer havia aprendido a ler, foi uma edição pocket de A Odisseia em prosa. Nós não tínhamos muitos livros em casa, esse era espólio do segundo grau da minha mãe. E eu fazia ela ler para mim. Uma das minhas brincadeiras favoritas era matar Ciclopes no quintal de casa. Ou fingir que era a Circe para poder transformar meus amiguinhos da rua em porcos.

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Cena: quarto da prima mais velha que morou uns anos com a gente (eu devia ter uns 8 anos)

Minha mãe me pegou fuçando as gavetas da minha prima adolescente, enquanto eu achava um exemplar de Brida, de Paulo Coelho. “Você não pode ler esse livro, não é adequado para a sua idade” (uma proibição meio estranha vindo de alguém que lia a Odisseia para mim anos antes, mas ok). Foi o suficiente para que eu roubasse o livro e o lesse às escondidas, depois que a casa estivesse dormindo. Não entendi metade, fiquei com um pouco de medo e desenvolvi um fascínio persistente por cartas de tarot. Mas me marcou. Eu voltei a ele na adolescência, naquela época de Jovens Bruxas era um hit (as meninas dos anos 90 queriam ser wicca, sociedade!). Se minha mãe tivesse proibido o dever de casa e os trabalhos domésticos, certeza que a vida dela teria sido mais simples. E essa é a história de como Paulo Coelho foi um dos autores da minha infância, meninos e meninas. Para vocês verem como é a vida. 

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Essa educação literária meio ao acaso, de ler o que me caía na mão, acabou deixando buracos, mas também trouxe coisas boas. A Coleção Vagalume, por exemplo, eu só fui ler quando já era adolescente, assim como os livros do Pedro Bandeira. E nunca sequer cheguei perto de um Monteiro Lobato, nem na idade adulta. Mas eu devia ter uns 9 ou 10 anos quando a minha mãe começou a comprar para mim uma coleção de clássicos da literatura adaptados e ilustrados que saíam no jornal O Globo. Foi quando  entrei em contato com a maior parte dos livros que marcaram aqueles anos, clássicos ingleses e americanos.  Eu lia a adaptação e depois ficava enchendo o saco para ler o original, que minha mãe nem sempre encontrava na biblioteca. Foi assim que conheci A ilha do tesouro, Tom Sawyer, Oliver Twist, Os três mosqueteiros, Robinson Crusoé,  e o meu favorito de todos: Moby Dick. Sinto dizer que eu não era lá uma grande ambientalista: para além de não gostar de Capitão Planeta, eu torcia para o Ahab. E fiquei entendendo tudo de vida náutica na época, no que talvez tenha sido minha primeira empreitada de obsessão por conhecimento inútil, uma vez que eu morava na serra e via praia de vez em nunca.

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Cena: aula de matemática na sétima série

O professor me tomou um exemplar de O assassinato no Expresso Oriente que eu estava lendo escondida, em vez de copiar as fórmulas que estavam no quadro. Era uma edição de sebo, mas minha mãe disse que não iria recomprar o livro para que eu aprendesse a lição, e talvez assim tirasse notas melhores. ( o que não aconteceu). Foi um trauma: fiquei meses sem saber quem era o assassino até arranjar dinheiro nem sei de onde para comprá-lo. Li quase tudo da Agatha Christie nessa época, mas esse ficou sendo o meu favorito. Talvez pelo drama. Provavelmente pelo drama. 

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Dos livros que me marcaram NEGATIVAMENTE: 

- A maldita Pollyanna e aquele otimismo sem noção que me fazia querer dar com as muletas na cabeça dela. GURIA CHATA DO INFERNO.

- Os filhos do Capitão Grant, de Julio Verne. Único volume da coleção de clássicos da Globo que não consegui terminar, quanto mais ler a versão integral. E eu gostava do Julio Verne. Já havia lido 20 mil léguas submarinas e A Volta ao Mundo em 80 dias. Acho que foi minha primeira decepção com um livro, ao menos a primeira que eu me lembro – excetuando o livro da formatura da Alfabetização. 

- Qualquer coisa que a escola me mandasse ler – inclusive alguns bons livros que redescobri sozinha, quando superei as tretas da minha cabeça dura – porque eu jamais entendi a leitura como obrigação e também nunca fui muito inclinada a confiar em professor algum. O que não deixa de ser irônico porque fui virar logo o quê? Isso mesmo, amiguinhos, isso mesmo, pequena Gabriela… fui virar professora de literatura. Só pode ter sido praga da minha mãe, e não tô nem dizendo que não foi merecida, não. Eu aceito. Tá pouco de praga, manda mais, universo.

#Chatiadíssima

Karma is a bitch

Ouvir estrelas

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Noite estrelada sobre o Ródano – Vincent Van Gogh (1888)

- Tenho essa lembrança de um churrasco da faculdade. A família de um amigo morava na praia, numa daquelas casas infinitas que são capazes de abrigar quantos colchonetes sejam necessários. Já era de madrugada e, quem não estava dormindo, estava chapado o suficiente para não fazer muito sentido. Eu me sentia um pouco enjoado e decidi deitar em uma das espreguiçadeiras de plástico no deck da piscina, para ver se o ar da noite ajudaria. E foi então que eu vi: um céu realmente estrelado, um céu de documentário do Discovery Channel.
– Ah, vá, Jorge. Jura que só foi ver estrela na faculdade?
– Não daquele jeito, eu nunca fui de acampar nem nada. Sempre achei que para ver um céu daqueles você precisava ir para algum lugar muito remoto ou para um planetário. Tô acostumado com meia dúzia de estrelas raquíticas aqui e ali… mas aquilo era a porra da Via Láctea em todo o seu esplendor.
– Cara…
– Ok, talvez seja exagero. Mas era muita estrela, pelo menos pros meus parâmetros. E naquela cidadezinha mequetrefe que ficava a uma hora de carro do campus, saca? Descobri naquela noite que não precisava ir muito longe para ver o universo.
– E aí?
– Aí eu chorei um pouco, porque era a coisa mais bonita que eu tinha visto na vida. E depois vomitei no deck.

- Quando eu era pequena tinha medo de olhar para cima durante a noite. Meus pais e minha avó moravam em casas geminadas e eu lembro que quando precisava passar de uma para outra eu ficava com os olhos fixos nas chaves para não ver a noite.
– Mas do que é que você tinha medo?
– Não era bem medo, era nervoso. Não do escuro, ou das estrelas em si, mas do efeito provocado pela combinação das duas coisas. Com o dia claro se podia ver o sol e o céu azul e mais nada, parecia que tudo terminava ali. Acho que as estrelas davam uma noção de profundidade no céu que me deixava desconfortável. Era mais do que o olho podia capturar e muito mais do que eu podia entender.
– Você provavelmente não elaborava assim na época, Loris.
– É claro que não, besta, é só uma suposição. Mas lembro de não me permitir olhar pra cima, e agarrar o molho de chaves com tanta força que minha mão sempre ficava cheirando a metal.

- Um troço que me deixa cismado: a criatividade que as pessoas tinham para nomear constelações.
– Sempre pensei nisso, sabia? Como é que alguém um dia olhou pro céu e disse que hum, aqui estou vendo uma Ursa Maior, a Ursa Menor e essa meia dúzia de estrelas aqui meio que fazem o contorno de uma hidra?
– Já sou ruim para enxergar formato em nuvem, quanto mais em pontos de luz aleatórios.  O Cruzeiro do Sul deve ser a única exceção.
– Justo. Se a nossa vida dependesse da navegação por estrelas você sabe que a gente não iria longe.
– Eu não consigo nem achar os pontos cardeais sozinho. Mas tenho certeza que deve ter um aplicativo pra isso.
– Então vamos ter que instalar um monte de tomadas na nossa caravela.
– Sem dúvida.

Método

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Achei as anotações que procurava debaixo da cama, mas há outras, que sequer me lembro de ter perdido. Há post-its pela casa, lombadas descolando, fotocópias desencadernadas – os gatos gostam especialmente de brincar com aquelas molas, caçando-as como se estivessem vivas. Tropeço em pilhas de livros e xícaras sujas de café enquanto penso em jardins, biografias, erotismo, na arte que enfrenta a morte e na imagem de um cão soterrado por uma duna de areia – mas não me afogo.

Porque percebo que ainda estou buscando respostas para questões que me coloquei há 15 anos (não estou dizendo que é muito tempo, mas eu tinha a impressão de que era outra pessoa, e já não tenho certeza). E porque há essas ideias, alheias ao caos que eu produzo, que vão encontrando o caminho na ponta do meus dedos, como se já estivessem destinadas a nascer. Ou é o contrário, e o que escrevo me define a partir de agora e talvez daqui para frente, ou até que eu arranje um novo conjunto de obsessões. Se é que a essa altura do campeonato é possível arranjar um novo conjunto de obsessões. E eu que me queria tão distanciada – e séria, sobretudo séria, porque eu invejo gente séria de vez em quando – descubro que finjo melhor na ficção do que na crítica.

Entre o arrebatamento e o método: o Grande Hotel Budapeste

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I

Estruturas me fascinam. Bobinas e correias, graxa e engrenagens, resistências e quadros de luz. Raios X de pinturas famosas. Maquetes. Documentários. Teoria Literária. Diários. O Centro Georges Pompidou. Notas de composição. Coxias de teatro. Truques de mágica revelados. O que não diminui minha incessante busca por maravilhas.  E acho uma bobagem quando ouço algum artista dizer que tive um relâmpago de inspiração e as obras mais geniais saíram de suas cabeças como um espirro. Que é possível ficar de pé em febre criativa uma noite toda e escrever os poemas que compõem O Guardador de Rebanhos quando admitir que aquilo deu um trabalho do cão para parecer tão espontâneo é muito mais bonito.Porque quando uma música realmente me toca eu não quero saber do esquema rítmico, mas apenas dizer “mas que coisa impossível, que prodígio”. E quando eu entro em uma catedral sei que de nada me adianta o conhecimento livresco sobre arcos e simbologias de vitrais para amenizar minha pequenez diante de um edifício que está de pé há 800 anos. Mas passado o momento em que as palavras me faltam eu volto para casa e me ponho a pesquisar.

II

Me sinto cooptada por obras que fabricam uma forma, que deixam as estruturas aparentes ou que, ao menos, não trancam os alçapões ou enchem de pregos suas portas dos fundos para que possamos desbravá-las. Há quem diga que a artificialidade afasta o espectador e impede a imersão; eu, pelo contrário, tendo a achar que é o melhor caminho para fazer do espectador um cúmplice. Apontar o dedo e dizer: isso é engenho, veja, e ainda assim você está aí parado com essa cara de bobo – vem comigo, vamos brincar mais um pouco.

III

Essa minha preferência para o jogo cênico em detrimento das pretensões de realismo vale para tudo, é  claro, mas estou pensando em cinema, uma vez que ontem fui assistir O Grande Hotel Budapeste, último filme de Wes Anderson. Anderson está no centro dessa minha predileção junto com outros diretores como Michel Gondry, Jean Pierre Jeunet, Terry Gilliam. Ou alguns filmes específicos como o Hugo Cabret, do Scorcese, Waking Life de Richard Linklater e Peixe Grande, de Tim Burton. E embora tais filmes, em sua maioria também flertem com uma aura de fábula com final feliz – ou ao menos até quase o final, como Maria Antonieta de Sofia Coppola – o engenho também pode ser aplicado a histórias terríveis como Brazil, de Terry Gilliam e O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro. Mesmo o Grande Hotel Budapeste, baseado em escritos de Stephan Zweig, talvez seja o filme com o final mais agridoce do diretor que usava filtros do Instagram em seus filmes antes do Instagram ser uma rede social.

IV

Na imaginária República de Zubrowka, um paiseco do leste europeu, havia um suntuoso hotel no alto de uma montanha. Demolido no final do século XX, conheceu o esplendor da belle-époque até que a guerra o transformasse em quartel e, no pós-guerra, a decadência fosse se infiltrando no cenário opulento. Um escritor, nos anos oitenta, relembra uma visita feita nos anos sessenta ao Grande Hotel Budapeste, já então uma magnífica ruína. A trama é costurada por um voiceover que simula os recursos discursivos presentes no livro escrito pelo escritor. Durante a visita conhece o proprietário Zero Moustafa, que decide contar a história ao escritor. O filme então retrocede ainda mais no tempo para narrar a história de Zero quando este era apenas um lobby boy sobre o treinamento do concièrge M. Gustave – maníaco por detalhes, amante de poesia (e ainda sim dono de uma boca muito suja quando perde a compostura) e Don Juan profissional das velhinhas ricas e inseguras que se hospedavam no hotel tão somente para usufruir de sua companhia. Segue um plot de aventura, romance, viradas rocambolescas e, bem, isso não importa porque é o de menos, convenhamos.

As obsessões de Wes Anderson estão todas lá. E ainda que eu consiga entender que seja possível achar a repetição estilística de seu arsenal um troço sacal, eu bato palmas não apenas pela marca, mas pelo refinamento da técnica. Ao contrário dos últimos filmes do Tim Burton que parecem uma versão diluída e requentada (a famosa sopa de pedra) do estilo que se tornou sua marca três décadas antes, o cinema autoral de Wes Anderson é um caldo que só engrossa. (A metáfora com a sopa é terrível, eu sei, mas estou escrevendo esse texto na hora do almoço e eu decidi escrever em vez de passar no supermercado, deem um desconto) Mas sim, não à toa a internet fez uma cartela de bingo para os filmes do diretor: tudo está lá, da paleta de cores ao elenco que parece nunca sair da folha de pagamento da produção – e BILL FUCKING MURRAY -, às miniaturas, animações, fantoches, enquadramentos simétricos, divisão em capítulos, Edward Norton em uniformes ridiculamente deliciosos… preciso mesmo continuar? No entanto, o ritmo está melhor do que nunca, o timing da comédia visual e das punchlines idem. O equilíbrio entre a comédia e uma certa melancolia que perpassa todo o filme também.

E quando, em uma das últimas cenas, Moustafa diz ao escritor que não manteve o dispendioso hotel pela memória de Gustave, porque “para ser franco, acho que seu mundo tinha desaparecido muito tempo antes que nascesse – mas, vou dizer: ele certamente sustentou a ilusão com graça!” não há como não pensar que essa seja a maior afirmação a respeito do próprio Wes Anderson e de suas reconstituições sonhadas e idealizadas não do passado que não viveu, mas um em que gostaria de ter vivido.

V

Esse duplo movimento em direção ao êxtase provocado por uma obra e a sua subsequente análise me faz pensar que o caminho mais interessante  talvez esteja escondido em algum lugar entre o arrebatamento e o método. E que gente como Wes Anderson (e não, por ora não continuarei com minha lista) ajuda a pavimentá-lo.

 

Porque massa de modelar não cai do céu

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Uma vez sonhei que eu estava tentando montar um quebra-cabeças complicado. Eu adoro quebra-cabeças, mas não sou muito paciente, e não conseguia avançar. A tarefa me exasperou a tal ponto que joguei a caixa com as peças para o alto. Quando caíram no chão não eram mais peças de papelão, mas massa de modelar, e assim pude juntá-las.

(Pausa para dizer que eu até gostaria de ter sonhos complexos e super simbólicos que virassem pauta para comunicações em congressos de psicanálise, nos quais eu teria meu nome abreviado e os psicanalistas passariam horas debatendo as neuroses da paciente G.V., mas meu subconsciente é meio idiota, sabe. Meus sonhos ou são colagens sobre desejos e banalidades diárias ou são metáforas safadas como essa do quebra-cabeças. Mas enfim.)

A compreensão das coisas nunca me chegou como um processo em linha reta, com o rigor do método científico e a racionalidade que tanto admiro no pensamento alheio. Assim como na época em que eu não conseguia pontuar nos problemas matemáticos da escola porque sabia as respostas mas não conseguia desenvolver o raciocínio matemático, o mais provável é que eu sempre enxergue um borrão e me angustie e pense que não há saída, que é difícil demais ou inútil, que atingi meu limite ou que o melhor a fazer é recomeçar. E então um dia estou tomando banho ou batendo um bolo ou jogando videogame e as coisas se encaixam, as respostas que eu procurava começam a dançar na minha frente e  talvez eu bata com a esponja, a espátula ou o controle na testa e me xingue um pouquinho por não ter percebido como era óbvio ou simples e, sobretudo, como era possível.

E não consigo deixar de pensar que meu vício por epifanias reflete o fato de eu não ter “aprendido a pensar do jeito difícil” – seja lá o que isso signifique.

Eu poderia ceder à tentação de me sentir culpada e imprestável, mas não, não mais. Porque não vou confiar nas metáforas safadas do meu inconsciente idiota. E porque massa de modelar não cai simplesmente do céu, e ainda assim as peças parecem começar a se encaixar.