A pequena máquina à teimosias

Stubborn - Lauren Francis

A cena mostra um lanche da tarde em uma cozinha. Em volta da mesa de madeira, repleta de pães, café, requeijão e afins, quatro personagens estão dispostos, cada qual em sua cadeira de espaldar alto: um casal idoso, uma menininha de uns 4 anos – um pouco mais, um pouco menos – e uma mulher de idade  indefinida e mais bem vestida que os outros três personagens; poderíamos, pois, chamá-la sem erro de “visita”.

A menininha quer um biscoito, que está em uma das pontas das mesa, em frente à senhora que parece não fazer parte da cozinha. É sem constrangimento que olha para a mulher e estende a mão, murmurando um “me dá”  imediatamente repreendido pela senhora que está sentada ao seu lado: “Peça por favor, agora. ” A garota sente-se afrontada com a sugestão, tanto quanto alguém com mais ou menos meia década de vida pode se sentir: “Me dá”, repete, de pura birra. A avó – sim, obviamente a criança encontra-se na casa dos avós – faz uma ameaça, visto que não é do tipo de mulher que admite insubordinações infantis: “Se você não pedir por favor vai sair da mesa, e não vai comer mais nada até a hora do jantar.” A criança sabia que era mais questão de dizer “por favor”. Tudo girava em torno da ameaça. “Não quero biscoito nenhum”, desdenhou. “Vá para o seu quarto agora, Gabriela”, rosnou a avó, impiedosa, enquanto se desculpava com a amiga.

Esta é uma das minhas primeiras memórias de infância. De fato não pude comer nada até o jantar. O que parece um castigo leve hoje na época foi uma tragédia; provavelmente aquelas foram as horas mais longas da minha curta vida de até então. Não faço ideia de quem era a visita, só consigo lembrar de seu visível constrangimento por ter provocado o incidente familiar. No entanto, se a mulher é apenas um borrão nas minhas lembranças, o rosto da avó, com suas olheiras e a óbvia reprovação em todos os gestos é muito mais do que nítido. Assim como são nítidos os meus pés balançando na cadeira, enquanto eu morria de medo e de certeza que não ia ceder:  era preciso não pedir por favor, ao menos não daquela vez. Era preciso que ela soubesse que não podia vencer todas, ou qualquer coisa equivalente que eu estivesse pensando. Mesmo que me valesse uns beliscões. E o castigo. Minha avó provavelmente deve ter esquecido a travessura na mesma semana, eu jamais pude esquecer. Ficar sem o biscoito e com uns beliscões a mais me pareceu o Heroísmo dos heroísmos.

De lá pra cá, a pequena máquina alimentada à teimosias que eu era tornou-se…, bem, tornou-se a grande máquina alimentada à teimosias que eu sou, não muito mais que isso. Grande parte do que fiz nos últimos anos e do que continuo fazendo hoje em dia deve-se principalmente à minha cabeça dura – constatação da minha mãe, não minha. E ela é a única que parece achar isso uma coisa legal. Nos últimos anos, então, parece que cada uma das minhas decisões acabam gerando mais dedos apontados para a minha cara do que eu imaginava poder existir em mãos humanas. Escolher o curso de Letras, em outra cidade. Mudar-me para lá, viver em repúblicas, fazer um mestrado e por aí vai. Eu sou daquelas que tem uma plateia atrás de si – um um coro grego, as you wish – afinadinho, entoando o “mas nós avisamos!”. Pois é, mas como já é de praxe exercitar a mula empacada interior, acho graça e continuo com os projetos “muito-maiores-que-os-passos-que-posso-dar” (o crédito da citação  vai para uma encantadora tia, durante o último almoço familiar.)

O problema é quando os  erros meus, a má fortuna e o amor ardente em minha perdição realmente decidem se conjurar (piada ruim, mas inevitável) – ou, pior ainda, quando sequer o amor ardente dá as caras por estas paragens, enquanto os erros e a fortuna ruim abundam – a vontade de desistir de tudo e abraçar o coro quase fala mais alto. Quando o contracheque não cobre o cheque especial outra vez, o trabalho tem tanto a ver comigo quanto a situação dos curdos ou a paz no Oriente Médio, a senhoria da pensão resolve dar festas no meio da semana, impossibilitando o acesso à cozinha, ou quando resolve atender as clientes até altas horas da noite – eu já mencionei que ela é taróloga, não mencionei? E, claro, ter o chuveiro meio-queimado há quase um mês não anda ajudando também.

Seria tão mais fácil ganhar o biscoito, ser a boa menina, voltar para casa. Seria tão ridiculamente mais fácil, porra.

Quem ainda não parou de ler o post, a estas alturas, estará no mínimo se indagando se eu perdi de vez o senso, e resolvi transcrever 0 meu-querido-diário no blog, por absoluta falta de assunto. Como eu sei que ainda há uma meia dúzia que lê isso aqui, peço paciência: talvez vocês não tenham nada a ver com a tragicomédia dessa que vos escreve, mas há quem tenha, e muito, a ver com esta história. Gregório, Kathe, Bets, Lu e Rafa são amigos que, em seus particularíssimos jeitos ajudaram, cada qual ao seu modo, a manter a máquina funcionando, justamente no dia em que a teimosia faltou. Talvez eu deva complementar a minha mãe, e dizer que grande parte de tudo o que eu fiz na vida devo à minha cabeça-dura sim, e também às outras que fui encontrando por aí. A elas este post. E meu muito obrigada.

O tanque está cheio de novo, crianças.

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8 comentários sobre “A pequena máquina à teimosias

  1. Gabi, adorei o texto e me identifiquei MUITO!
    Pretendo fazer Letras, morar em outra cidade e ser “pobre p/sempre” ( essa parte é o coro da minha família/amigos que repete sem parar).Ninguém entende minhas decisões, já pensei em ficar por aqui, ou tentar fazer Direito (o que seria quase um suicídio).Enfim, cada dia o desânimo aumenta mais e a teimosia falta…

    beijos!

  2. Parabéns pelo texto confessional que não tem nada de “meu querido diário” é pura literatura mesmo. Tenho admiração pela sua coragem e teimosia, quem dera eu tivesse sido mais teimoso com as coisas de que gosto (acho que a mania de confessar está pegando..). Você escreve bem e isso ninguém duvida, nem mesmo a encantadora tia.

  3. E desde quando me entendo por gente que entende um pouquinho dessa bagunça toda ganhar biscoitos após um ‘por favor’ faz com o que seu sabor se perca quase totalmente.

    As pessoas sempre esperam que façamos por nós aquilo que elas querem para nós, já que elas nos conhecem como ninguém, né? E daí tomam a liberdade de nos ajudar a tomar nossas decisões, a pensar por nós, poxa…e você se torna um ingrato, insensível se não aceita esse grande gesto de amor. Ô.

    Também apostei na coragem e também tenho a alegria de conhecer outros vários como nós nesse caminho…esses que nos dão força para os dias difíceis.
    :)

    A narrativa do começo é linda, pude sentir o cheiro dos biscoitos e ainda estou com água na boca.

  4. G.,

    O negócio é apenas não desistir, você sabe. Lembro de algo que minha professora de piano disse:[momento clichê ON] se você não encontrar barreiras em um caminho, bem… ele não te levará a lugar nenhum.

    Acho que é mais ou menos isso. [momento clichê OFF]

    Um beijo,
    Gregório

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