Intermezzo

All I can say is that my life is pretty plain
I like watchin’ the puddles gather rain
And all I can do is just pour some tea for two
and speak my point of view
But it’s not sane, It’s not sane

Nada de novo no front. Um feriado todo feito de filmes indicados por amigos, e de livros pela metade a serem terminados. Um convite para descer a serra  abafado pelo edredon, pelas luvas, as meias grossas; mãos atadas por um cachecol de lã,  volte já para a cama, mocinha!
Nenhuma surpresa,  crise de ansiedade, reviravolta. Nenhuma Grande Cena de novela mexicana para ser reaproveitada pelo SBT em uma tarde qualquer.
Nenhum plano ou rota de fuga, nenhuma paixão correspondida ou não; apenas o  mergulho em dias Gelol, dias Neosaldina, paliativos dias em que rigorosamente nada acontece. E como eu já estava começando a duvidar de que viveria novamente dias como estes. (No entanto, um emprego temporário  pagará minhas contas em dia até dezembro. E, no fim do mês, haverá uma arguição de doutorado para a qual não deposito nenhuma expectativa – se eu passar tô é no lucro. )
Só eu e a confortável previsibilidade de  um feriado feito de filmes e livros e vontades irresistíveis  de enfrentar a petropolitaníssima chuva fina e estóicos 8 graus para tomar um café com chantilly (ufa). A companhia  do velho sobretudo vermelho,  para combinar com o nariz e as bochechas no mesmo tom. E, dessa forma, a vida em sotto voce me embala, e não há nada mais que eu poderia desejar, por enquanto. Estou feliz.
A trilha sonora do dia, claro, vocês já sabem qual é:

60 minutos

Um monge hare krishna tentou me vender livros de meditação “pelo preço que seu coração quiser pagar”; levei um banho de água de côco quando passei em frente a uma barraquinha – a moça sorriu e pediu desculpas, enquanto eu dava de ombros, respondendo “é tratamento de beleza, esquenta não”; um vento forte (prenúncio de um dilúvio por vir) levantou meu vestido me matando de vergonha; um menininho loiro, galante, no alto de seus três anos de vida me ofereceu seu picolé (babado) – e eu recusei.

O gato rajado com um olho verde e outro azul da escola ronronou pra mim; o gato malhado da sapataria ronronou pra mim; o gato persa do sebo não estava lá. Abri uma antologia do Borges só para reencontrar as primeiras linhas de A Loteria da Babilônia – “Como todos os homens da Babilônia, fui pro-cônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres.” – e desejei ardentemente escrever uma frase que tivesse ao menos um quinto desse impacto.

Comi com pressa um nhoque sem sal; queimei minha língua e gastei R$3,50 numa Pepsi light, um péssimo negócio; o Brasil fez um gol contra o Irã e todo mundo no restaurante comemorou. E foi nesse momento de distração que limpei a boca suja de molho no guardanapo que estou usando como bloco de notas.

E  durante todo este tempo estive imaginando como as pessoas gastam a hora de almoço delas, antes de voltarem para todos os seus ares condicionados, em seus escritórios.

Ponto, crachá, café. E lá vamos nós de novo.

Marketing pessoal avariado

Tá certo, a epifania deveria ter sido minha, mas bem que o universo poderia ter ajudado um pouquinho, mandando sinais mais óbvios. Não que eu seja do tipo que necessita de céus se abrindo ou sarças ardentes falantes; sempre me considerei razoavelmente boa na arte de captar sutilezas & ironias. Ok, visto em retrospecto, o  que aconteceu em abril foi praticamente o soar das trombetas do apocalipse, mas eu considerei que o incidente havia se dado tão somente porque estava em um meio familiar.

Tolinha.

Em abril deste ano, durante as comemorações do meu aniversário, fui surpreendida pela recorrência de um mesmo presente por parte dos meus amigos: Orgulho, Preconceito e Zumbis.

 

 

Antes de torcer o nariz para o livro, tente se convencer de que só a capa já não é genial. Han, han? Deixa de ser mal humorado, Harold Bloom!

 

O mashup literário com a obra da Jane Austen virou o presente perfeito para mim, na opinião de uma algumas criaturas que me aturam há vários anos. Tá certo, eu reconheço: há poucas pessoas que podem apreciar tanto quanto eu uma invasão  zumbi na Inglaterra campestre do século XIX. E menos gente ainda que, depois de ter lido Orgulho e Precenceito algumas vezes – e de adorar Jane Austen – pode realizar um sonho antigo: ver Elizabeth Bennett (minha personagem favorita!) enchendo o senhor Darcy de merecidas porradas nada vitorianas. E a ingênua aqui achando que “ai-que-legal, como meus amigos me conhecem bem”…

Hoje eu sei que a questão é de marketing pessoal avariado. Vejam, recebi de um colega do meu trabalho novo -  e ele me conhece há menos de um mês, meldels! – o seguinte vídeo:

Alguém duvida que quase já sei toda a letra de cor?

Quando fui comentar com ele que havia achado fantástico, recebi um “eu sabia que você ia gostar”.

Opa, opa, peraí: que tipo de maluca as pessoas acham que eu sou? (por mais que eu tenha adorado). E eu achando que meu verniz social era bom, ou pelo menos razoável.

Alguém tem um livro de auto-ajuda bom por aí, pra me emprestar? “Os ratos alienígenas mexeram no seu queijo” ou “Como fazer andróides e influenciar replicantes” deve servir.

Update: 18/10

Estou trabalhando quietinha, na minha, e  eis que recebo o seguinte e-mail:

Gabi,

você já sabia? Vão fazer o filme do “Orgulho e preconceito e zumbis”! Olha que maravilha: em 2012, todos os seus amigos podem te dar outra vez o mesmo presente de aniversário: o DVD!
Beijo,
Mônica
Então tá, né?