Nós, os críticos.

Julgar, avaliar, discernir. E não apenas a arte e a “arte” que são matéria para blogs e cadernos culturais, e fazem da crítica profissional um ofício que garante alguns trocados (ou não) para os “pitaqueiros” de plantão: acredito que parte do estar no mundo é manter um olhar consciente sobre tudo o que nos cerca.

Há alguns meses escrevi um post sobre meu incômodo com um poema que havia visto no metrô. Está certo que fui mázinha com o poema em questão, e que, na verdade, não há uma única vírgula que eu retiraria da postagem original. Eu, Gabriela Ventura, a semi-desconhecida dona de um blog semi-desconhecido – felizmente posso contar com alguns bem-aventurados que não me deixam falando às moscas – detestei o tal poema y punto y basta.

Não difamei o autor, tampouco teci qualquer comentário dirigido à pessoa dele. Minha implicância é com o poema, mas as pessoas insistem em levar para o lado pessoal (e passional) da coisa, vide alguns comentários que recebi.  Sequer  conheço o José Antônio Gatti. Inclusive, uma pessoa escreveu no meu blog fornecendo informações equivocadas sobre ele, que foram desmentidas pelo próprio semana passada, no comentário que reproduzo abaixo:

“Olá! Gostaria de deixar claro que não sou professor, muito menos renomado, sou mestrando em literatura portuguesa (UERJ) [ainda é colega de área!] , e sim, sou psicanalista e também publicitário. Confesso que adorei todos os comentários que li por aqui. Um barato!
Abraços,
José Antonio Gatti”

Comentário, aliás, que me deixou muito satisfeita. [Abraço retribuído, portanto!] Não sei como chegou até aqui – talvez ele tenha colocado seu nome no Google, por curiosidade (vamos, quem é que nunca se googleou?) e caiu no meu blog. Achou a discussão divertida. Certamente não vai parar de escrever porque eu não gostei dos poemas dele. E também não acho que vá colocar o pé na frente para me fazer tropeçar quando estivermos num mesmo congresso de Literatura.  Tampouco penso que vai tentar mudar para me agradar –  eu não sou o público dele. E só os deuses sabem que, com o advento da internet, qualquer um consegue encontrar meia dúzia de caboclos que gostem de seus textos (e é claro que me incluo nessa estatística). Sobretudo, gostei do comentário porque ele não me levou à sério, e eu jamais tive essa intenção, embora algumas pessoas duvidem disso sistematicamente.

Eu realmente não posso saber porque as pessoas escrevem, mas gosto de pensar que talvez todos nós estejamos sempre em busca de um diálogo, e esse diálogo sequer precisa ser cordato. Escrever não é (não deveria ser) apenas lançar pontes para o outro, mas lançar flores ou granadas de mão, a depender de quem é que está fazendo o quê e para quem.

João me fez ver Ratatouille há um tempo atrás, alegando que eu iria gostar do Anton Ego. Indeed. O crítico – espécie de  Bárbara Heliodora da gastronomia francesa – foi o pesadelo do ratinho protagonista e de todos os humanos que lutavam para manter um restaurante (uma vez destruído pela resenha negativa do vilão) funcionando. No entanto, ao fim do filme, quando escreveu a última resenha sobre o estabelecimento e  seu chef , hum, sui generis o que fez foi fornecer uma aula sobre e para que serve a crítica, e até onde pode ir.

Na minha descuidada tradução:

“Em muitos sentidos, o trabalho do crítico é fácil. Nos arriscamos muito pouco – e, no entanto nos colocamos numa posição acima daqueles que apresentam seus trabalhos e seu próprio ser para nosso julgamento. Preferimos as críticas negativas, que são divertidas de escrever e de ler. Mas a realidade amarga que nós, críticos, precisamos enfrentar é que, numa perspectiva mais ampla, qualquer porcaria medíocre possui mais significado do que uma crítica que assim a designa. Há, contudo, momentos em que um crítico precisa arriscar algo, e este momento consiste na descoberta e na defesa daquilo que é inovador. O mundo não costuma ser gentil com novos talentos e criações. O novo precisa de amigos. (…)”

Preciso falar mais? Não há dúvida de que um Camões é mais  importante que dez naus cheias de comentaristas de Camões (cujos nomes e teorias talvez já tenham sido apagados pelo tempo ou estejam vivenciando o processo). No entanto,  a esquadra não tá no mar à toa e não vai se abater diante da fúria de Poseidon.

*

Eu terminaria esse texto por aqui, mas tenho ainda algo a acrescentar. O comentário divertido que recebi neste fim de semana de uma moça que resolveu tomar as dores do poeta (que não foram sentidas, diga-se de passagem) e partir para o ataque. Como só recuso comentários de quem resolve xingar a minha mãe – porque aí já é baixaria – acho absolutamente bem vindo que me digam que sou feia-boba-chata-e-cabeça-de-mamão. Segue então o comentário, com a minha réplica.

Fala que eu te escuto, Ana Duarte:

Gabriela fazer crítica ruim é fácil!

Sem dúvida. Até aí estamos de acordo.

Nossa! Li seu blog, suas críticas e depois me perguntei: o que será que essa moça faz da vida?

Se esta não foi uma pergunta retórica e você está realmente interessada,  clique aqui: http://quinasecantos.wordpress.com/da-autora/

Não acredito que seja curtir uma boa leitura!

Minha vida agora virou questão de fé. Legal. E eu não sei se peço a ela para definir o que é uma “boa leitura”. Melhor não.

Vi pela sua super lista que você lê bastante mas será que se interessa por algum desses livros? Será que curte algum?

Não. Leio porque sou masoquista.

Pq pelo que percebi vc corre com a leitura, será que é para somar o maior número de livros lidos?

Como diabos você pode saber se eu corro? Sim, sou uma leitora ávida, daquelas que leem no ônibus, na fila do banco, ao acordar, antes de dormir e em toda lacuna de tempo possível. E sim, gostaria de somar o maior número de livros lidos – sinto uma dorzinha a cada vez que opto por um novo livro, porque estou sumariamente sacrificando tantos outros. Ainda no modo bardo: “Para tão longo amor tão curta a vida”. Mas, é claro, você pode entender como quiser.

(“eu quero ler um milhão de livros para bem mais forte poder criticar” – pensei que esse pode ser seu lema de vida, que feio!)

Ana ganhou uma estrelinha de boa menina pelo uso adequado – embora cafona – da ironia.

Te dou uma dica:

Opa, manda!

leia com calma um livro qualquer,

Só eu que senti que ela está de fato incomodada com a quantidade de livros que eu leio?

vá passear com amigos (vc tem?),

Tenho.

namore

Check.

e antes de ser tão dura com suas críticas

Qual o problema de ser dura com críticas? Sabe, a condescendência não leva ninguém a lugar algum, as ideias precisam circular. E não há nada de mau em fazer ou receber críticas duras – é só não se esquecer de não levar nunca para o lado pessoal (como você está fazendo comigo). Poemas não terão seus sentimentos feridos, fique tranquila.

aproveite que está morando no Rj ou em Niteroi (não sei)

E em Petrópolis. E em breve em São Paulo também. Às vezes nem eu sei.

e passeie pelo calçadão, escute o barulho do mar…

Sugestão anotada.

não tente entender uma poesia apenas aprecie!

AÍ VOCÊ TÁ DE BRINCADEIRA, NÉ? Eu vou tomar como outra ironia – tão elaborada que por um momento achei que você estivesse falando sério. Outra estrelinha para a moça.

Jose Antonio Gatti!
Obrigada por nos proporcionar uns minutos de encantamento, as poesias no metro dão um encanto ao vai e vem de todos os dias!

Viu o que eu disse mais anteriormente sobre a questão do público? Cada escrevente acaba encontrando o seu – nem que por público você entenda os seus pais. Não precisa bater no coleguinha porque ele não gosta da mesma coisa que você, Ana.

Espero que meu serviço de atendimento ao leitor enraivecido tenha servido à contento.

Desservimos bem para desservir sempre!

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10 comentários sobre “Nós, os críticos.

  1. Seu blog é chato, sua escrita pedante, ler um texto teu até o final pode matar de tédio. Mas se você precisa disso, de uma muleta, continue. Mas saiba que para pretender ser escritora de qualquer coisa é necessário um mínimo de talento, e você não tem. Seja mais crítica consigo própria, com suas críticas. Ou daqui a pouco faz 30 anos e continuará não tendo um emprego decente, estabilidade, grana pra nada, e só terá esse ar de intelectual que lê demais e sabe o suficiente para fazer críticas, mas não é capaz de fazer dar certo com a própria vida. Caras e bocas em fotos e críticas sem público é o máximo que consegue fazer? Aparência não enche barriga.

  2. Gostei do post, mas sou suspeito pra opinar.

    A única coisa que me desagrada é essa atitude de vocês (estou incluindo sua amiga), no mínimo desnecessária, no máximo perigosa, de bater palma pra maluco dançar.

    Você já é pára-raio de maluco, não precisa colocar bombril na ponta.

  3. Continue escrevendo e criticando e recebendo críticas.
    Não porque eu goste ou porque a Ana Duarte ou a Patrícia não gostem.
    Mas porque você goste! Sempre senti que o que você escreve é escrito com gosto.
    E se isso te faz bem, continue fazendo da mesma forma, esqueça TODO o resto.

    A propósito, eu não gosto.
    Adoro!

  4. Preciso dizer que rolei de rir com a sua resposta: “Não. Leio porque sou masoquista.”
    Eu não poderia pensar numa resposta melhor para uma pergunta tão descabida.

    Não foi uma nem duas vezes que te falei que acho você muito radical (lembra da Martha Medeiros?) com certas opiniões, mas eu simplesmente não consigo te criticar por isso. Primeiro porque gosto não se discute (como sabemos, ele é constantemente comparado à bunda) e, como você mesma disse, há público para tudo, felizmente. Viva as diferenças!!!

    Segundo porque você tem todo o mérito do mundo para abrir a boca para falar de qualquer autor. Além de nunca ter te visto criticar nada nem ninguém sem antes conhecer o suficiente do trabalho desenvolvido pelo criticado, você não é dessas que apontam o dedo na direção de ninguém sem antes apontar na sua própria. E é por essas e outras que você tem todo o meu respeito. Antes de julgar se é bom ou ruim, você se propõe a conhecer melhor, você dispõe do seu tempo e dá uma ou várias chances ao autor, depois decide se gosta ou não. Simples assim. Além disso, nós não estamos falando de qualquer opinião, estamos falando de Gabriela Ventura, escritora de tamanha sensibilidade e inteligência, não de uma simples mortal.

    Li as poesias do Gatti no metrô vez ou outra, e se não fosse por isso, não ousaria opinar. Confesso que achei raso, mas não me incomodou. Se tivesse me incomodado como incomodou a você, eu também não teria o menor problema em dizer. Acho até um feedback interessante para o escritor, como o próprio demonstrou.

    Quando expomos o nosso trabalho, seja ele qual for, estamos sujeitos às críticas o tempo inteiro e se não soubermos como lidar com isso, melhor não trabalhar.
    A Ana acha injusto você criticar o Gatti, mas acha justo te criticar. Que feio, Ana! Os diretos são iguais para todos. Da mesma forma que você pode não gostar do que a Gabi escreve, ela tem todo direito do mundo de não gostar do que o poeta expõe no metrô escreve, e assim por diante…

    E, JP… preciso te dizer que vou levar esse seu comentário para a vida: “Você já é pára-raio de maluco, não precisa colocar bombril na ponta.”. Perfeito, perfeito!
    E, como você citou a amiga da Gabi aqui, preciso dizer que apesar de ver todo o sentido do mundo no que você diz, acho que não é só uma questão de bater palma para maluco, mas de levantar e dançar com ele. Nós não conseguimos (nem queremos) simplesmente assistir, queremos participar. Se temos um blog, onde sequer usamos um pseudônimo é porque estamos na chuva, e quem está na chuva é para se molhar, caso contrário, nem sai de casa… mas nós adoramos sair. E adoramos a chuva. Mesmo assim, agradecemos por você se lembrar de trazer o guarda-chuva, SEU LINDO!

    Gabs, siga escrevendo. E criticando. Você pode.

  5. ana duarte: você é uma besta. não entendeu porra nenhuma, tomou a dor alheia e falou merda. o próprio gatti, mesmo que possivelmente discordando, percebeu que a crítica ao poema dele foi bem colocada. e o cronicasdumasviagens (nos comentários do post original) chamou o cara de papa numa brincadeira saudável porque o gatti também se apresentou aqui de maneira positiva. aí me vem você com esse textinho infantilóide de “curtir uma boa leitura”, “escutar o barulho do mar”, “encanto ao vai e vem de todos os dias”. porra, superou os poemas do gatti.

    patrícia: você é outra besta. “seu blog é chato”?? taquipariu. com dois anos de idade eu passeava no carrinho de bebê levado pela minha mãe mostrando o dedo do meio pra quem me olhasse. se você não tem crítica fundamentada pra fazer, pelo menos aprenda a cobrir seu alvo com palavras verdadeiramente ofensivas.

    jp: roberta simoni tem razão: sua frase já é antológica, um clássico.

    gabriela ventura: eu pagaria alto para ver sua cara quando o gatti te abordar em algum congresso de portuguesa. pode ter certeza que ele vai fazer isso.

  6. ah, sim, o chacal tem um livro chamado “tontas coisas”. só queria dizer que o gatti fez um intertexto genial e você, leitora amadora e apressada, não percebeu a relação com esse cráááássico da literatura brasileira. vergonhoso.

  7. A Patricia jamais será papa ou papisa, no máximo freirinha da nossa Roma gattiana. Porém, vale seu esforço em tentar ler, pois o começo da superação do analfabetismo é assim mesmo, é comum que leituras mais elaboradas causem algum tédio!
    Gostei do histórico traçado aqui, foi emocionante e realmente merece um comentário do futuro paulista Joãozinho!
    Que sejamos tristes pra sempre por sermos menores que a imensa poesia gattiana.
    Gatti: enquanto você está no metrô, um dia estarei na Supervia e escreverei poemas para o cu dos bodes do Mercadão de Madureira… invejo-te e te admiro.

  8. Pingback: Drops do Quinas: Poesia no Metrô | Quinas e Cantos

  9. A Gabriela é uma pessoa fora de série. Morri de rir com o “debate” entre ela e Ana, e pretendo postar aqui mais algumas – ao meu ver,péssimas – poesias do senhor José Antônio Gatti (entre elas, a da “onomatopéia da cadela téia” – isso mesmo).

    Criticam a Gabi porque ela critica o Gatti. Hipócritas, estão fazendo a mesma coisa ;D !

    Atenciosamente,
    Gabriel Costa.

    PS: Rafael abaixou o nível completamente.

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