Você está lendo Os Irmãos Karamázov?
Rodoviária de Petrópolis, onze e quarenta e cinco da noite, 10 graus e um vento de desencorajar o jogging do mais atlético pinguim. Em trânsito desde as duas da tarde, poderia parecer que eu estava tentando bater o recorde de uso do maior número de meios de transporte no menor tempo possível, e que sendo bem sucedida na empreitada – àquela altura, não me espantaria nada se os juízes do Guiness Book estivessem me esperando (sentados) na porta da minha casa. Dá pra imaginar meu humor e vontade de interação com o próximo a partir daí. Com os fones de ouvido fazendo de escudo, resolvi ignorar.
Ei, você está lendo Os Irmãos Karamazóv?
Ela insistiu e eu fui obrigada a olhar. Era uma moça, talvez uns 10 anos mais velha do que eu, e extremamente bem disposta para aquela hora da noite petropolitana de uma segunda-feira. Abriu um sorriso e ficou esperando a resposta que claramente viria, como se tivesse me perguntado o horário do próximo ônibus. Eu estava segurando o livro aberto entre as mãos, de forma que meu primeiro impulso diante daquele contato imediato de terceiro quarto grau foi responder “Não, estou levando o lixo para a reciclagem“. Consegui me conter com algum esforço, afinal aquela educação que mamãe me deu ainda funciona de vez em quando. Ensaiei aquele sorriso amarelo e concordei: sim, de fato eu estava lendo Os Irmãos Karamázov – embora talvez fosse mais verdadeiro dizer que estava me agarrando ao livro pra não cair de cansaço.
Ela pediu para ver minha edição porque havia lido o livro, há muitos anos atrás, numa tradução para o francês. Eu comecei a falar sobre o trabalho que o Paulo Bezerra fez para a 34, mostrando a ela o cuidado com as notas e o posfácio. Olhamos juntas as ilustrações do Ulysses Bôscolo, principalmente as que se referiam ao Fiodor Karamázov, com as melhores expressões. Ela havia feito uma matéria optativa na faculdade sobre o livro, e mencionou uns três teóricos sobre os quais jamais ouvi falar e de cujos nomes já não me lembro. Disse ainda que seu professor tinha um tique na pálpebra esquerda, e que por mais que as aulas fossem boas, era difícil se concentrar, se ele estivesse olhando diretamente para a turma – disso eu lembro, claro. E eu contei a ela que estava tentando me curar de ter conhecido Dostoiévski cedo demais: tentei ler Crime e Castigo aos 15, mas o livro só surtiu efeito até Raskolnikov rachar a cabeça de sua senhoria - o resto começou a parecer um castigo para mim, e a leitura foi abandonada antes dos capítulos finais. Aos 19 li O Idiota, e foi ali que minha relação com o autor (com os russos em geral, pra ser sincera) começou a melhorar. Mas foi só ano passado, com as Notas do Subsolo, que eu decidi voltar ao autor.
Acho que deu para perceber que minha opinião precisou de uns três minutos para mudar de ideia, e deixar que eu compartilhasse aquele entusiasmo. A verdade é que acabei esquecendo que estava irritada no momento em que comecei a conversar com a moça que fica sem nome neste texto, já que acabei não perguntando sobre esse detalhe. E, depois que ela foi embora (o ônibus dela chegou primeiro), fiquei pensando nas vezes em que pareci absurda e incômoda às outras pessoas. Sem culpa, só a admissão de minha própria quota de esquisitice, sabe? Por exemplo, toda vez que vejo alguém lendo na rua, retorço a cabeça para saber qual é o livro. O leitor acaba percebendo, é claro, mas é muito difícil lutar contra meu cacoete, mesmo com todas as desilusões sofridas nas vezes em que o resultado da minha pesquisa indicava alguma coisa da Zíbia Gasparetto. Ou o dia em que, numa lanchonete, pedi a um senhor que me deixasse dar uma olhada numa edição ilustrada, importada e mothafocka de Sonhos de Bunker Hill que ele estava folheando. Começamos a conversar sobre Arturo Bandini e, depois de uma meia hora de papo, eu acabei pagando os nossos cafés. Ou ainda a madrugada em que voltava para Niterói, não faz muito tempo, quando um rapaz sentou do meu lado no ônibus, e não eu conseguia parar de sorrir pro cidadão. Provavelmente ele pensou que eu estava bêbada ou dando em cima dele – ou um pouco das duas coisas – mas não consegui me conter. Explico a cena: para além de ser meio tímida e de ter namorado o rapaz não parecia nada interessado em mim em particular (ou mesmo no meu gênero como um todo). Mas sucede que ele estava concentrado nas primeiras páginas do meu livro favorito, e eu estava absurdamente feliz com a coincidência.
Uma vez mais, crianças, a moral da história saiu pra comprar cigarros e até agora não voltou para este blog. Talvez mande um postal, mas duvido muito. As pessoas não fazem sentido, principalmente quando são movidas por suas paixões. E se eu já arranjo tanta história pra contar com essa atividade supostamente solitária que é a leitura, fico me perguntando o que seria de mim se eu gostasse de futebol e frequentasse estádios, ou dedicasse minha vida a combater a matança das baleias jubarte. Já que tenho de terminar esse texto, e não há, evidentemente, conclusão para ele, digo já que eu não recomendo Dostoiévski para quem quer fazer amigos e influenciar pessoas mas, veja, que é um começo, ah, isso é. Vai que.

“As pessoas não fazem sentido, principalmente quando são movidas por suas paixões.”
Se fosse preciso alguma “moral da história”, ao meu ver seria a frase acima.
Mas isso pouco importa. Fazer sentido, afinal, pouco importa. Ler sim, importa!
Parabéns pelos textos. Sou fã das “garotas que leem”.
Um grande abraço!
Obrigada, Laércio, por cavar uma moral da história pra mim!
Dosto é F$%#*@!
Desculpa o palavrão…
Ah, seu livro preferido é … Sonhos de Bunker Hill, entendi?
hahahah, não. Eu gosto bastante do Fante, mas meu livro preferido – que o moço tava lendo no ônibus – é O jogo da Amarelinha, do Cortázar.
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Moral da história: quando for ler em público, que seja um livro bacana, do tipo que aumenta a probabilidade de pessoas legais virem puxar conversa.
Tô lendo Rayuela. Mais ou menos como o que você fala de Crime e Castigo: tentei ler quando ainda era cedo demais e desisti, retomei agora.
Marcos, essa história de “conheci o autor x muito cedo e não entendi patavinas” (ou “muito tarde, e passou da data de validade”) tá rendendo. Mas seu comentário sobre o Rayuela me levou a pensar que às vezes a gente começa pelo lado errado também.
Explico. Só fui saber quem era Cortázar por conta do meu primeiro período na graduação. Eu tenho essa amiga (que na época foi minha professora, e estava terminando a dissertação de mestrado sobre ele) que recomendou a leitura de O perseguidor (não sei se vc conhece o conto, está n’ As Armas Secretas). Não sabia patavinas sobre Cortázar, jazz, improvisos. Não tinha estofo para trabalhar o conto, que não me3 disse nada.
E a coisa poderia ter passado em brancas nuvens, não fosse o Bestiário – e logo depois os Cronópios – terem caído na minha mão.
Hahaha, li O Jogo da Amarelinha porque era o livro preferido do garoto em que dei o primeiro beijo. Não entendi nada, mas até hoje só namoro se gostar de Cortázar… (Esse comentário não faz o menor sentido, mas serve pra dizer que seu texto está muito bom!)
Rhea, ri muito com “só namoro se gostar de Cortázar”. Eu namoro um fama, pode?
Graças a essa dica, nunca mais exponho um bom livro em público. Quanto menos pretexto pra alguém puxar conversa, melhor.
Aliás, idéia para ganhar dinheiro fácil #436: vender para esquizóides sobrecapas de livros imitando aqueles romances água-com-açucar.
esquizóide e bonitinho. a combinação perfeita.
da arte de fazer relações esdrúxulas entre ideias absurdas e mesmo assim escrever um texto interessante e coerente. você está virando mestra nisso.
aliás, vou trocar o “mesmo assim”, por um “a partir disso”, que torna minha leitura menos inocente e me parece mais apropriado ao (seu) caso.
Li Crime e Castigo, mas sou incapaz de dar uma opinião definitiva sobre uma obra tão complexa. Também gosto dos russos. Sobretudo o Tolstói. E Nina Lugovskaia – que escrevera apenas um livro, mas que desde já amo.
Beijos!
Achei o post numa busca por notícias de Dostoiévski, acho incrível como de tempos em tempos encontro gente legal que lê Dostoiévski, ainda há esperanças.
Pessoas que tentam descobrir o que o passageiro do lado está lendo (quase sempre livro espírita): 3 membros.
Toda, toda, toda santa vez eu TENHO QUE torcer o pescoço pra ver qual o livro da pessoa.
Há um tempo atrás conheci um rapaz no ônibus e viemos num papo super animado. E eu não sou disso. Eu sou uma que responderia “estou levando o lixo para a reciclagem”, ainda que mentalmente. Mas eu estava sentada no meu canto lendo um livro e o rapaz sentou do meu lado rindo e tirou da mochila outro volume do mesmo box. Eu estava no volume V e ele no II d’O guia do mochileiro das galáxias. Nerd, eu sei, mas tbm já fiz amigos lendo Kundera =P
Me identifico, tipo muito, com esse post =D
Carol,
nunca me aconteceu, mas eu certamente não conseguiria não puxar papo com um mingo dupal que estivesse lendo Douglas Adams na rua. Dependendo da situação, convidaria para uma dinamite pangalática. (Assim, eu sou do tipo de pessoa que, para comemorar o dia da toalha, realmente sai de casa com uma toalha no ombro).
Tô lendo o quinto. Quer tomar uma dinamite pangalática comigo no fim do universo?
Me diverti lendo seu post!!! Eu também confesso que não me contenho ao ver alguém lendo ou mesmo segurando um livro na rua… tento de todo o jeito ler o título… Uma vez estava na fila de um caixa eletrônico e vi uma menina segurando um livro. Claro que fui logo inclinando a cabeça para tentar reconhecer o título. Acabei descobrindo que era um livro em inglês que não tinha sido lançado ainda no Brasil da minha autora preferida!! Fiquei inquieta, morrendo de vontade de conversar sobre o assunto com a menina, às vezes acho que não sou normal heheh mas o engraçado é que a menina esqueceu o livro em cima do caixa eletrônico (eu só vi depois)… como estava num shopping, peguei o livro e pensei seriamente em ficar com ele pra mim… mas daí caí na real e decidi seguir a boa educação e seguir os valores de honestidade doados por minha família e entreguei o livro ao segurança do shopping para os “achados e perdidos”…até hj fico me perguntando se ela conseguiu o livro de volta ou se ele ainda está esquecido entre as prateleiras da salinha suja de achados e perdidos do shopping, Não sei. Só sei que fiz a coisa certa, né? rsrs tenho várias histórias que envolvem livros… uma vez estava no consultório do oftamologista lendo “cem anos de solidão” e tinha um menino (lindo) lendo o mesmo livro. Começamos a conversar e descobrimos váriasssss coisas em comum! Enfim, meu comentário já está quase um post…mas isso é o tipo de coisa que eu nunca poderia imaginar… um livro promovendo a interação e amizade!!! amo ler!! bjs e boa semana
Adorei suas histórias, Paula… principalmente a do Cem Anos de Solidão… espero que o papo tenha rendido.
putamerda, mas tu escreve bem pra caraleo.
e eu sou do tipo que lê hilda hilst em público, em riste, para evitar aproximações.
ou tem dado certo ou eu moro numa cidade ainda pior do que pensava. nunca fui abordada por ninguém. oxalá isso continue assim, eu não teria a sua sorte.
“toda vez que vejo alguém lendo na rua, retorço a cabeça para saber qual é o livro.”
Eu acho isso muito legal. Na livraria eu converso com várias pessoas, indicando algum livro ou pedindo opinião. As pessoas devem me achar uma doida varrida, mas é mais forte que eu.
Eu me identifiquei demais com esse texto. Sério. Tá me assustando. HAHAHA
Boas leituras e futuras amizades,
Karla
http://livrodechocolate.blogspot.com
Que coisa feliz deve ser se aproximar das pessoas lendo. Nunca aconteceu comigo, não que eu me lembre. Não costumo ler em público. Ler é muito solitário e é muito difícil conseguir bater um papo sobre uma obra específica. Achei tudo lindo.
Gabriela , foi um prazer achar o seu blog….. é difícil achar coisas assim hoje em dia.
Como você, tentei ler Crime e Castigo aos 15 /16 anos e podemos dizer que não foi uma experiência muito agradável, porém decidi voltar nele a pouco tempo e foi uma decisão mais do que acertada..
Outra coisa é que eu tenho, é a mania de descobrir o que as pessoas estão lendo no onibus, metro, na rua etc….. Acho que isso deve ser uma mania de todos que gostam de livros.
Apesar de ser da área das exatas, sou apaixonado por literatura, Hq´s e afins, e não tem nada melhor do que conseguir equilibrar as coisas,.
Parabéns pelo seu blog.
Essa proximidade que a gente sente pelo estranho só por estar lendo um livro que gostamos ou que tivemos aqueles momentos de intimidade durante a leitura é realmente curioso! É de se sentir afinidade só por relacionar as emoções que experimentamos ao ler aquele, ou sei lá por qual motivo. Quanto ao livro, no mês de novembro agora saiu uma Cult (revista) sobre Dostoiévski, pra quem gosta. Um abraço.