Drummond e a formação de Quadrilha

Fernando Pessoa foi meu poeta da adolescência. Quando eu tinha uns 13 anos, ganhei uma edição de poesia reunida dos heterônimos, dessas que vinham com o jornal de domingo. Durante os anos seguintes, transformei o pobre livro em farrapos. Levava na bolsa e conhecia poemas inteiros de cor – principalmente os do Álvaro de Campos que, imagino, é o poeta que mais fala à montanha russa hormonal adolescente. Páginas marcadas e remarcadas, notas escritas nas margens, os dramas verdadeiros e os tantos pseudo-dramas que encontravam eco em versos que jamais esqueci. Pensei em Aniversário no dia em que perdi meu pai, e parodiei Todas as cartas de amor são ridículas na primeira carta – na verdade e-mail – de amor que escrevi.  Hoje o livro  está na minha estante apenas pelo valor sentimental do objeto – há muito uso o Obra Completa como fonte de pesquisa.

“Traí” o Pessoa quando fiz 20 anos. Sou tão polígama quanto todos os leitores podem ser: calma, calma, minha gente, tem amor pra todo mundo, e se não tiver lugar na estante, eu começo a fazer pilhas no chão. Outro era o livro que  começou a esfarrapar-se dentro das minhas bolsas. o que eu estava levando para cima e para baixo era o Reunião, que se chamava assim justamente por congregar dez livros, responsáveis por minha iniciação à poesia de Carlos Drummond de Andrade. Desde então, meu interesse e minha reverência ao mineiro só cresceu. Comecei a dizer que era o meu poeta da  vida adulta.

Tudo bem que a vida adulta é longa e a adolescência, felizmente, curta. Poeta do meu início de vida adulta, ou o meu poeta da década, ou qualquer coisa que o valha, não importa muito, na verdade. Drummond tornou-se referência, conselheiro, companhia para aqueles dias em que nenhuma leitura é tão boa quanto uma releitura. Todas a vezes que me voltam à cabeça os primeiros versos de A máquina do mundo eu ainda me arrepio.  A bruxa tornou-se minha companheira, quando decidi morar sozinha. Quando ouço alguém ler O caso do vestido sempre fico com um nó na garganta. Um dos momentos mais felizes da minha graduação em Letras foi a parte de um semestre dedicada à poética drummondiana. E as duas aulas inteiras que levamos para dissecar Nosso tempo me ensinaram mais sobre a leitura de poesia do que eu jamais havia aprendido até então.

Qual não foi minha felicidade ao ler que o Instituto Moreira Salles – que cuida do acervo do poeta – está tentando fazer com que o 31 de outubro, data de nascimento do itabirano, transforme-se  numa comemoração nos moldes do Bloomsday. A data, já apelidada de Dia D, será o epicentro de eventos que promoverão uma revisitação ao autor.  Olha, vou te contar que eu apoio a ideia: no lugar de irlandeses perambulando por Dublin e bebendo cerveja em pubs, leitura de poesia no Brasil com pão de queijo e cachacinha.

O site do Dia D fornece um calendário dos principais eventos sobre o poeta que acontecerão por todo o mês de novembro, com destaque para o filme Consideração do Poema, que foi preparado pelo IMS especialmente para essa data, e conta com entrevistas e leituras de poemas de gente como Caetano, Chico, Laerte, Marisa Monte, Eucanaã Ferraz, enfim, grande elenco (essa reportagem aqui oferece alguns vídeos que fazem parte do filme). O mesmo site também propôs que nós, os adoráveis  anônimos, mandássemos vídeos com leituras de poemas drummondianos para o youtube.

Conversando sobre essa iniciativa no twitter, eu e meia dúzia de outros blogueiros desocupados entusiasmados nos associamos para prestar nossa própria homenagem. A falta do que fazer move montanhas, faz a gente perder tempo no internet e, sem dúvida nenhuma, é responsável por 90% do conteúdo do youtube. Nossa recém formada quadrilha decidiu-se por recitar, é claro, Quadrilha. E depois de quase uma semana de trocas de tweets e e-mails frenéticos, erros de gravação e outros contratempos (isso porque cada uma das partes levava menos de 10 segundos para ser gravada, veja só como somos simples e práticos) conseguimos finalmente fechar o vídeo, que ficou bacanérrimo. (Modéstia, teu nome é Gabriela Ventura).

Além desta aqui que vos escreve, o vídeo conta com a participação de:

Aline – RJ – Blog Litlle Doll House
Daniela – RS – Blog Trecos e Trapos
Juliana – MG – Blog O batom de Clarice
Santiago – GO  - Blog Santiago Regis
Luara – RJ – Blog Isaac Sabe
Patrícia – MS – Blog Ainda Minina Má
Chico – RS – Blog Contextos

No mais, a brincadeira foi muito divertida e a sensação é a de dever cumprido. Drummond precisa ser celebrado, lido e relido. Seus poemas têm ser impressos em papel jornal, estarem disponibilizados na internet, enfeitarem muros e museus.Na academia e fora dela, nos recitais chatos de criancinhas, na TV e em blogs como esse. Drummond precisa ser curtido, compartilhado e twittado. Não pelo poeta, e muito menos por sua memória, que vai muito bem, obrigado. Mas por nós. Não é todo dia que temos a sorte de encontrar um elefante em nossas estantes.

Alice no salão Maria da Penha

Me descobrir uma espécie de Alice às avessas: sair do conforto de um mundo fantástico e cair de cara no mundo real. Mas estou me adiantando: melhor começar do início. Eu tinha hora marcada com a manicure de um salão que costumo frequentar quando estou em Petrópolis. O assunto do dia, para além do que a personagem da Lília Cabral fez ou deixou de fazer no último capítulo da novela das oito, era a ausência de uma das cabelereiras, que havia começado a trabalhar há menos de um mês e já havia deixado de atender três ou quatro clientes até então.

Ouvia a conversa calada, quando a manicure, meio risonha, comentou comigo em tom de confidência que aquele salão estava “carregado”, e que deveria mudar o nome para “Lei Maria da Penha”. Todas as outras cinco mulheres riram da “piada” com gosto. Esperei que elas parassem para pedir explicações. Ela me contou sem grandes embaraços que “ali todo mundo já havia levado ou iria levar porrada de algum homem”. Que era uma espécie de “zica” do salão. E que era essa a suspeita geral das moças para explicar as faltas da nova funcionária. Agora sim entra a sensação de haver deixado para trás há muito o país das maravilhas. Como não dava simplesmente para voltar atrás, resolvi continuar perguntando, enquanto elas não se sentissem ofendidas ou invadidas com a minha curiosidade e estivessem dispostas a partilhar suas histórias.

Não se sentiram uma coisa nem outra. Pelo contrário, estavam muito abertas para falar da violência doméstica praticada por namorados e maridos. O que mais me espantou não foi sequer a violência dos relatos, mas a naturalidade com que eram contados e recebidos pelas outras.  “Fui morar com ele aos 16 anos porque engravidei e minha mãe me expulsou de casa” – começou minha manicure. “Ele começou a me bater logo depois que a menina nasceu e não parou mais. Só consegui botá-lo para fora de casa há dois anos, com a ajuda da polícia”. A dona do salão afirmou ter tido um marido “vagabundo” que era sustentado por ela. Quando finalmente conseguiu se separar, o sujeito começou a ir ao salão para ameaça-la na frente dos clientes. Outra cabelereira disse que o ex-namorado batia nela com uma ripa de madeira que guardava atrás do armário. E que ela só teve coragem de revidar quando ele tentou bater no filho dela, que na época tinha só 10 anos.

As histórias que ouvi das outras funcionárias, bem como os casos de ex-funcionárias usados para corroborar com a hipótese de “maldição do salão” obedeciam a um mesmo roteiro: violência física, psicológica e ameaças à vida tanto das mulheres quanto a de seus filhos. A delegacia da mulher só havia sido acionada em momentos de desespero. Antes disso, todas aquelas mulheres aguentaram em silêncio as agressões de seus parceiros por meses, às vezes anos. E ainda ouvi a violência gratuita ser desculpada, em alguns casos: “Era um homem bom, mas não podia beber” ou “O problema é que ele era muito ciumento”. No fim, todas sobreviveram, felizmente. A que preço eu não sei.

As funcionárias do salão nem possuem uma situação tão diferente da minha assim. Geograficamente, a casa da minha família e o salão (e as casas de todas elas, como acabei descobrindo) estão localizadas em um mesmo bairro de Petrópolis, antigo dormitório dos trabalhadores da linha férrea.  Mecânicos e eletricistas que conseguiram comprar ou arrendar um pedacinho de terra quando nos anos 40/50, quando o bairro sequer poderia ser chamado assim – não havia iluminação pública, e as ruas eram pavimentadas com carvão. (Meu avô conta uma história de caça à onça, mas essa terá de ficar para outra vez).

Financeiramente, nossas contas bancárias estão alinhadas numa faixa que nos permite dizer que somos classe média, mas sem grandes extravagâncias. Todas tinham TV, celular, computador e acesso à internet, como eu. E-mails, contas no facebook e histórias engraçadas sobre caras que elas conheceram pela internet. Nenhuma de nós ali iria fazer turismo na Europa num futuro próximo, mas, ei, o aluguel de uma casa em Cabo Frio para o fim de ano delas já parecia acertado.

A única diferença entre nós era “apenas” o investimento que minha família fez em minha educação. Apesar de ter estudado em escola pública grande parte da vida (a mesma escola em que, inclusive, estudou também a minha manicure), eu tive suporte emocional e financeiro quando passei no vestibular para uma faculdade pública na capital. Minha mãe ajudou a bancar os primeiros dois anos da minha faculdade – e sem essa ajuda, eu eu não poderia colocar no currículo o ensino-superior-completo, quanto mais o mestrado e agora o doutorado que estou fazendo.

Eu jamais soube o que era violência em nenhum dos relacionamentos que tive. Nenhuma discussão com namorado ou ex-namorado jamais “passou dos limites”, como cheguei a ouvir. Não estou dizendo que a violência contra a mulher é produto exclusivo da falta de escolaridade dos envolvidos (casos recentes como a da estudante de direito que teve o braço quebrado numa boate não me deixam cair num desses reducionismos), mas pesquisas confirmam que a instrução feminina é fator importante para o mapeamento de casos de violência em países em desenvolvimento. Para alguém que, como a minha manicure, por exemplo, foi obrigada a morar com o pai da filha por não ter para onde ir e nem como sustentar a criança e a si mesma sozinha, fica fácil entender o porquê da submissão a um relacionamento violento.

A bolha de segurança a qual eu já havia me acostumado pareceu se chocar  – e ameaçar se romper – por causa das arestas nas histórias contadas por aquelas mulheres. Histórias de infância das quais eu já nem me lembrava voltaram à memória. Uma vizinha que vi ser perseguida pelo marido na rua quando era pequena. A facada que a mãe de uma colega de escola levou do ex-namorado.  Ah, a conveniência de esquecer como certas instituições e ideias são frágeis. O meio em que circulo hoje – meus amigos, professores, colegas de profissão, contatos de internet – considera inadmissíveis a violência contra a mulher, a homofobia, o racismo, a interferência de qualquer religião num estado que deveria ser laico. Bacana (e confortável) fantasiar que somos muitos, que somos maioria, unicamente porque excluímos ou não damos crédito às vozes dissonantes que, por um acaso, conseguem penetrar em nosso filtro.

Mas em um dia como qualquer outro, basta que você encontre um coelho branco na rua e decida segui-lo  para esbarrar em meia dúzia de verdades inconvenientes. O cronômetro macabro que indica que “A cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil” de repente adquire formas, contornos e uma proximidade assustadora. Sim, as moças estavam certas, e de fato uma maldição rondava o salão – mas não havia dúvida que o problema estava longe de ser obra do sobrenatural. Foi quando me peguei pensando que poderia facilmente ser parte das estatísticas. E você (independente do seu sexo, diletíssim@ leitor@), também. Mas é claro que poderíamos, por que não? Estou “chovendo no molhado”, você pode argumentar, e não serei eu a discordar de você.

No entanto, guardo comigo a impressão de que os socos que costumam acertar em cheio o estômago costumam vir de constatações óbvias o suficiente para serem quase tão obscenas quanto nossa cegueira  a respeito delas. Foi por causa de uma dessas que,  quando Alice finalmente encontrou o país da vida real, até tentou fugir uma vez mais para o reino das maravilhas. Mas acabou percebendo que o caminho de volta já não estava mais lá. E que agora precisava lidar com isso.

Pequeno inventário de obsessões: o circo do Doutor Lao e outros picadeiros oníricos

Bailarinas, vagabundos e um grande bocejo para todos eles

Aviso de mixtape esquizofrênica: esse post vem acompanhado de trilha sonora. Clique no link por sua conta e risco.

Tenho lembranças ruins (ou ao menos monótonas) de todos os circos da minha infância. Eu criava a maior expectativa quando ouvia o anúncio de um novo espetáculo na cidade, mas quando meus pais cediam à minha insistência e me levavam para assistir o show, eu invariavelmente saía da sessão um pouco entediada. Meia dúzia de animais raquíticos – na época em que circos ainda podiam ter animais – disputavam a simpatia do público com equilibristas de pinos ou bolas coloridas, contorcionistas em collants surrados, mágicos inexpressivos e palhaços sem graça. Aquela rotina de uma hora e meia que só valia a pena pela pipoca e o algodão doce. Criança chata, eu sei, mas fazer o quê?

Para além dos trapezistas – dos trapezistas eu sempre gostei - duas foram as vezes em que fiquei realmente animada com circos, pelo o que me posso me lembrar: a primeira foi com um engolidor de fogo, razão pela qual minha mãe teve de tirar todas as caixas de fósforo do meu alcance ao perceber minha promissora vocação para pequena incendiária. E a segunda, quando vi um Globo da Morte. Convenhamos, uma esfera de metal servindo de pista para um monte de motos barulhentas é bacana toda vida: que criança não iria amar?

Da Marion eu gosto

Eu me lembro de reclamar com meu pai que os circos não tinham as coisas legais que eu esperava que eles tivessem. E acho que meu pai nunca entendeu direito o que é que eu estava esperando. Pudera.  Sucede que, na época, eu cultivava uma obsessãozinha por filmes de terror. Coisa saudável, sabe, para fazer girar a economia das locadoras de bairro, que pagavam suas contas às custas do aluguel de fitas sangrentas para criancinhas (e pornografia para adolescentes, mas aí já não era comigo).

Se você tem entre 2o e 30 e poucos anos, certamente assistiu ou, ao menos, ouviu falar e não quis ver de jeito nenhum a série de documentários Faces da Morte, que proliferavam em todas as locadoras das quais minha mãe era sócia. Eu aluguei as que passaram pela minha frente, e assisti outras tantas na casa de amiguinhos da escola. Se bem que sequer era necessário recorrer às locadoras; as tardes da televisão aberta (TV a cabo, o que é isso?) também estavam cheias de filmes de terror. Fosse no Cinema em Casa ou no Cine Trash da Bandeirante – Zé do Caixão, um dos responsáveis pela minha formação intelectual, isso-explica-muita-coisa.

Foi nessa época que assisti uma série de filmes ambientados dentro do campo semântico circo/parque de diversões. Afinal, parando  para pensar, são lugares com imenso potencial para cenários de pesadelos; basta lembrar, por exemplo, daquele vídeo feito anos depois da desativação do parque Six Flags, em Nova Orleans, que fechou em 2005 para a passagem do furação Katrina e não reabriu mais.

Vocês sabem do que estou falando: quem assistiu Tv nos anos 90 (ou quem, como eu, praticamente foi criado por ela) lembra-se muito bem do monstro comedor de criancinhas em forma de palhaço - do espaço – que só podia ter saído da cabeça do Stephen King. Fiquei semanas sem dormir. Ou do menos conhecido, mas nem por isso menos tosco cult, Pague para entrar, reze para sair, lançado em 1981 e repetido em looping infinito pelo SBT. Que  nada mais era do que a reciclagem do já gasto plot “5 amigos fazendo uma coisa x até que começam a ser perseguidos e retalhados por força maléfica y”. Pequeno adendo: eu adoro esse título em português. Funhouse, no original, não faz juz à “qualidade” do filme.

Eu devia achar que o circo tinha que ser menos Dumbo e mais Homem Elefante, só pode.

E esses nem eram meus favoritos. Pois fiquem sabendo que eu troquei meu álbum de figurinhas da Copa de 94 COMPLETO com um coleguinha por uma cópia com de um filme estranho em preto e branco pelo qual fiquei fascinada. A história se passava em um circo: uma trapezista e seu amante musculoso tentavam dar o golpe do baú em um anão rico. Apaixonado, o anão larga a noiva anã-bo azinha para casar-se com a gostosa. Que, inclusive, é aceita pela “galera” – pessoas com alguma má-formação congênita que trabalham no circo, tidas como monstros. No entanto, quando o plano da dupla é descoberto, a confraria dos esquisitos executa sua vingança contra o casal “normal”.

Só anos mais tarde, depois de já ter perdido a fita para o mofo e o videocassete para o aparelho de dvd é que fui descobrir que um dos filmes da minha infância era Freaks, de Tod Browning, um CRÁSSICO maldito e proibido. (Você pode assistir o filme completo aqui.) Quase dispensando o uso de maquiagem e efeitos especiais, o filme contava com um elenco de atores que realmente eram artistas de Freak Shows, espetáculos ainda muito em voga nos anos 3o.



Outro grande favorito de infância (que assisti incontáveis vezes no Corujão): As 7 Faces do Doutor Lao. (Você também pode acessar o filme completo aqui.) É um filme estranho sobre a visita de um circo a uma cidadezinha do fim do mundo nos EUA, que está prestes a sucumbir a um magnata interessado na especulação imobiliária que uma nova estrada de ferro trará ao pedaço de terra até então esquecido do mundo. No entanto, não se trata de um circo qualquer, mas o de um simpático chinês de 7.322 anos, que ensinará lições aos moradores de Abalone, através de suas atrações legendárias e mitológicas, do calibre de um mago como Merlin, a própria medusa e o sátiro Pã.

Parece uma fábula infantil a la Fantástica Fábrica de Chocolates, que de vez em quando dá uma escorregada. Tim Burton e Mel Stuart dividindo a direção com o Aronofsky. É o que me passa pela cabeça quando vejo, por exemplo, o diálogo entre uma solteirona viciada em leituras de sorte e Apolônio de Tiana, um adivinho condenado a dizer somente e nada mais que a verdade.



Qual não foi minha surpresa ao achar, por acaso, numa livraria do centro do Rio, um exemplar de O circo do Doutor Lao, de Charles G. Finney (Leya, 184 pags., tradução de Donaldson M. Garschagen). Eu não fazia ideia de que um do filmes da minha infância havia sido adaptado de um livro, e fazia menos ideia ainda de quem poderia ser Charles G. Finney. Não precisei de mais do que 5 minutos para reconhecer que estava com algo realmente bom nas mãos – o primeiro capítulo foi especialmente persuasivo ( eu o transcrevi aqui, de nada, pessoal). Quando cheguei em casa já havia terminado, e fui ao google pesquisar sobre o autor, para depois poder começar  a primeira de duas releituras.

Edição ridiculamente bem cuidada. Os melhores R$ 19,90 gastos em muito tempo

Charles G. Finney era jornalista, mas acabou ficando para a história como um dos criadores do gênero Dark Fantasy. Sim, estou consciente de que “Dark Fantasy” é uma classificação tão vaga e empolada quanto “Traje Esporte Fino“. Aparentemente o termo serve para designar histórias de fantasia com um pézinho no horror. O circo do Doutor Lao, publicado em 1935, até que cabe nessa descrição, embora me agrade pensar que a coisa mais dark do romance seja o humor de Charles Finney, que não poupa ninguém. É daqueles livros que te fazem rir alto, o que pode ser uma inconvenência (para os outros) em transportes e vias públicas.

O enredo guarda semelhanças com a adaptação, mas é melhor que não se diga de antemão que não há qualquer rastro de Willy Wonka na figura do Doutor Lao. Sim, seu circo chega a Abalone, Arizona, durante a Grande Depressão. E sim, irá ensinar algumas lições aos moradores locais. Mas o buraco é mais embaixo, as personalidades de todos são mais sombrias, os símbolos menos óbvios e por isso mesmo mais densos – não há Oompa Loompa que se salve ou mancha de caráter que passe despercebida. Há uma excelente resenha do livro no Meia Palavra que dá conta das principais discussões suscitadas pelo romance, cuja leitura recomendo.

Depois da leitura de O Circo do Doutor Lao, dá para reconhecer influências diretas do universo criado por Charles G. Finney em livros como Algo Sinistro vem por aí, de Ray Bradbury, Deuses Americanos, de Neil Gaiman e até (ou principalmente) a série de tv Carnivàle, produzida pela HBO. Várias tramas paralelas constituem um painel de uma daquelas cidades poeirentas durante os tempos difíceis da recessão americana. O sinistro, o oculto, o fantástico rivalizam tanto em maravilhas quanto em sordidez com a vida interior dos próprios habitantes, fazendo às vezes de espelho, às vezes de portal para algum prêmio ou castigo.

Os circos da minha infância eram insossos porque prometiam O Maior Espetáculo da Terra e entregavam um show pasteurizado, previsível ou, pior ainda, dirigido pelo Marcos Frota. Já os filmes e referências que me seguiram pela infância e persistem ainda hoje no meu baú de obsessões, ah, esses me fascinam justamente porque nunca consegui pensar em nada mais exótico que nosso olhar sobre o diferente.

Seja a sereia capturada pelo chinês, os artistas dos shows de variedades de Coney Island, ou ainda a inquietação suscitada pelas imagens de uma Diane Arbus: ao fim somos nós os deslocados, os voyeurs que não terão mais uma realidade concreta para onde voltar quando desmontarem a lona. A desconstrução promovida pelos picadeiros oníricos acaba por revelar uma verdade que conhecida, mas nem sempre encarada de frente: a de que os verdadeiros freaks somos nós.