Eu nasci numa dessas famílias que, à boca pequena, concedia epítetos pouco lisonjeiros aos membros que não correspondiam às expectativas gerais. Assim sendo, cresci ouvindo histórias sobre a Prima Crente do Rabo Quente, o Tio Devedor e a Nora Cachaceira, dentre outros tipos folclóricos. Essa breve introdução serve não apenas para fazer um inventário dos preconceitos familiares (e imaginar o que é que andam falando de mim hoje em dia!), mas também para dizer que na minha rua morava a Parenta Solteirona.
A bem da verdade, a Parenta Solteirona sequer poderia ser considerada como tal. Tinha mais de 40 anos quando casou, não teve filhos e o marido era “ausente”. Ausente, no caso, era um eufemismo para “gastava todo o seu dinheiro com mulheres na rua”, como muitos anos depois fui descobrir. (Para uma família com tão poucas travas na língua, não me perguntem por que justamente esse desvio era um tabu, eu não tenho uma explicação convincente sem ter de recorrer a jargões como “sociedade patriarcal” e blablabla. Prossigamos.)
A história a seguir se passa na casa da Parenta Solteirona, um dos lugares que eu e uma prima adorávamos visitar. A dita cuja possuía uma coleção de miudezas que nos encantava. Era fácil trocar todos os nossos brinquedos de plástico colorido – e mesmo meu master system – por uma tarde com bonecas de porcelana e de olhos de vidro, quebra-cabeças de madeira envelhecida e algumas outras preciosidades. A vedete da coleção era um jogo de chá de porcelana em miniatura. Aquelas xícaras minúsculas, um bule tão pequeno e colheres ainda menores saltavam aos nossos olhos a cada visita, mas permaneciam muito bem trancados na prateleira mais alta da cristaleira que ficava na sala.
Um dia, por um capricho qualquer, a Parenta Solteirona tirou o conjunto da cristaleira, e pôs até água da torneira no bule, para que o ritual do chá pudesse ser devidamente encenado. No entanto, só à minha prima foi dado o privilégio de mexer na louça: eu fui proibida terminantemente de chegar perto do bule, e só pude ficar com a xícara na minha frente, sem realmente tocá-la. “Você é um moleque, e se eu deixar na sua mão vai quebrar”.
A despeito da brilhantismo no trato com crianças que a Parenta Solteirona exibiu, em uma coisa ela estava certa: eu era mesmo um moleque. Por volta dos 10 anos eu barbarizava. Andava de boné, gostava de brincadeiras brutas e arranjava brigas na rua como quem muda a roupa das Barbies. Aliás, odiava Barbies. Minha prima era, como muitos podem supor, meu negativo: uma princesinha loira toda trabalhada na delicadeza. Outra suposição pertinente diz respeito ao final dessa história, que não é nada bonito, mas bastante previsível: chamei a Parenta de Solteirona, engatilhei dois palavrões cabeludos para que a frase surtisse o efeito desejado e fui embora, batendo os pés. Nunca mais fui convidada para aquela casa, e a Parenta Solteirona (que hoje em dia chamo de Esquisitona Rancorosa - devo ter herdado a vocação familiar, mesmo sem querer) não fala comigo direito até hoje.
Por mais que seja uma história engraçada (pelo menos o meu avô assim a descreveu para a minha mãe, na época, mas sei que há controvérsias), de vez em quando ela volta aos meus pensamentos. Sofro com uma sensação persistente de que não sou capaz de segurar uma pequena xícara de porcelana nas mãos sem que a tragédia, há muito anunciada, se concretize. É como se a delicadeza não tivesse vindo como item de fábrica para o meu modelo. Teimosa que sou, decidi aprendê-la na marra; e é por isso mesmo que ela é tão artificial e falha.
O corpo cresceu e ganhou formas femininas, o cabelo ganhou cachos, o boné vermelho foi substituído por um sem número de chapéus, tomei gosto pelas saias, vestidos e sapatos delicados. Mas ainda assim os modos (os maus modos, diriam alguns) permaneceram. Em um certo sentido, jamais deixei de ser um moleque – e não é de se espantar que, apesar de algumas concessões, eu não tenha abrido mão de ser assim.
Um efeito colateral dessa minha “deficiência de delicadeza” – Centrum resolve? – é meu interesse por coisas de mulherzinha. Um interesse estranho, que oscila entre a atração psicótica e a repulsa ostensiva. Só para citar um exemplo, dentre minhas leituras favoritas, que não são muito dadas a frescuras, separo um espaço especial na minha estante para os romances da Jane Austen. Sério. Já perdi a conta de quantas vezes li Orgulho e Preconceito. A madame fica encostadinha aos livros do Kerouac, uma coisa linda (e meio sacana) de se ver.
Papel Manteiga para embrulhar segredos me chegou às mãos nesse clima. Atração e repulsa. A capa e contracapa me eram demasiado fofas, isso sem falar no close da xícara que, por si só, já me deixou um tantinho apreensiva. Fiquei desconfiada, mas, como várias pessoas diferentes haviam me indicado, resolvi prosseguir na leitura.
A narrativa é epistolar, e deve muito de sua composição à fábula: uma aprendiz de cozinheira chamada Antônia, num restaurante perdido no tempo e no espaço, envia cartas e receitas para sua bisavó, muitas vezes escritas no próprio papel manteiga que usa na cozinha. O texto prossegue sereno e sem sobressaltos. As cartas salgadas e doces – dependendo de quais receitas as acompanhem – nos dão a conhecer um pouco mais da narradora e seu processo de iniciação na cozinha, que é também sua iniciação na vida adulta. Cabe à Senhorita Virgínia, dona do restaurante, o papel da tutora que auxilia Antônia em ambas as transições. E, de quebra, a matrona torna-se cúmplice dos segredos que a jovem partilha com a bisavó. Mais não digo para não atrapalhar a leitura, que tem lá suas pequenas reviravoltas, e não estou aqui para encaroçar o angu de ninguém.
As receitas, assinadas por Tatiana Damberg, parecem ser, em sua maioria, de execução fácil a moderada. Só não fui para a cozinha testá-las ainda por causa do volume de trabalho que tenho tido. A papelada só anda me permitindo, como ponto máximo dos meus delírios gastronômicos, parar o que estou fazendo para ligar para o delivery de empanadas. E olhe lá.
Cristiane Lisbôa cozinhou o texto em fogo baixo, com uma calda de açúcar dourada. Tudo é banhado por essa doçura caramelizada, daquelas que até fazem doer o cantinho da boca, sabe? Há passagens muito bonitas, como a que Antônia afirma-se como cozinheira para a bisavó, contrariando a mãe, uma feminista militante: “[...] como se para ser uma mulher moderna eu precisasse mentir que não gosto de panos de prato. Entendo que o sexo é político, abomino mutilações como as que acontecem em algumas tribos africanas e, claro, sou a favor de algumas coisas que ela defende, mas Bisa, minha luta é outra. Mulheres não precisam ser masculinizadas para que exista respeito. Em momento algum é preciso fingir que não temos, lá dentro, um sentimento arcaico de servir sabor a quem amamos. Isso não me diminui, não diminui ninguém. Apenas nos afasta”. E há também lembretes carinhosos para o melhor preparo das receitas, uma cortesia de Virginia: “Não se esqueça de tomar um copo de rum enquanto cozinha. Pode dançar se quiser”. Outras pequenas delícias são facilmente encontradas no corpo do texto – mas não vou citar mais nada para não encher de couvert a barriga de possíveis clientes, antes que o prato principal tenha chegado à mesa. Digo que indico a leitura; indico a leitura com chá e biscoitos.
Por vezes achei que Cristiane Lisbôa fosse perder a mão. E, por vezes, quis deliberadamente que ela a perdesse: que a consistência ficasse estranha, que o leite coalhasse, que a massa solasse e virasse uma gosma enegrecida no fundo da forma. Assim eu poderia sair com um comentário cínico que me salvasse, assim não precisaria me render totalmente à aura acolhedora da cozinha de Virginia. Mas meus desejos azedos foram todos em vão.
E ainda bem, porque a receita seguiu seu curso e foi um sucesso. Quando terminei a leitura, num ponto de ônibus lotado, no meio de uma chuva sem trégua, numa das avenidas de maior tráfego da cidade, ainda assim. Ainda assim eu me sentia pronta para tomar chá com Antônia e Senhorita Virginia. E segurar a xícara entre as mãos, e talvez não deixá-la cair.
“Agora é daqui pra frente”, concluiu Antônia, esperançosa. “Pois é”, pensei comigo, enquanto o ônibus finalmente chegava ao ponto, e o ritual do empurra-empurra estava apenas começando.


