#DL 2012 – Papel manteiga para embrulhar segredos, Cristiane Lisbôa

Eu nasci numa dessas famílias que, à boca pequena, concedia epítetos pouco lisonjeiros aos membros que não correspondiam às expectativas gerais. Assim sendo, cresci ouvindo histórias sobre a Prima Crente do Rabo Quente, o Tio Devedor e a Nora Cachaceira, dentre outros tipos folclóricos. Essa breve introdução serve não apenas para fazer um inventário dos preconceitos familiares (e imaginar o que é que andam falando de mim hoje em dia!), mas também para dizer que na minha rua morava a Parenta Solteirona.

A bem da verdade, a Parenta Solteirona sequer poderia ser considerada como tal. Tinha mais de 40 anos quando casou, não teve filhos e o marido era “ausente”. Ausente, no caso, era um eufemismo para “gastava todo o seu dinheiro com mulheres na rua”, como muitos anos depois fui descobrir. (Para uma família com tão poucas travas na língua, não me perguntem por que justamente esse desvio era um tabu, eu não tenho uma explicação convincente sem ter de recorrer a jargões como “sociedade patriarcal” e blablabla. Prossigamos.)

A história a seguir se passa na casa da Parenta Solteirona, um dos lugares que eu e uma prima adorávamos visitar. A dita cuja possuía uma coleção de miudezas que nos encantava. Era fácil trocar todos os nossos brinquedos de plástico colorido – e mesmo meu master system – por uma tarde com bonecas de porcelana e de olhos de vidro, quebra-cabeças de madeira envelhecida e algumas outras preciosidades. A vedete da coleção era um jogo de chá de porcelana em miniatura. Aquelas xícaras minúsculas, um bule tão pequeno e colheres ainda menores saltavam aos nossos olhos a cada visita, mas permaneciam muito bem trancados na prateleira mais alta da cristaleira que ficava na sala.

Um dia, por um capricho qualquer, a Parenta Solteirona tirou o conjunto da cristaleira, e pôs até água da torneira no bule, para que o ritual do chá pudesse ser devidamente encenado. No entanto, só à minha prima foi dado o privilégio de mexer na louça: eu fui proibida terminantemente de chegar perto do bule, e só pude ficar com a xícara na minha frente, sem realmente tocá-la. “Você é um moleque, e se eu deixar na sua mão vai quebrar”.

A despeito da brilhantismo no trato com crianças que a Parenta Solteirona exibiu, em uma coisa ela estava certa: eu era mesmo um moleque. Por volta dos 10 anos eu barbarizava. Andava de boné, gostava de brincadeiras brutas e arranjava brigas na rua como quem muda a roupa das Barbies. Aliás, odiava Barbies. Minha prima era, como muitos podem supor, meu negativo: uma princesinha loira toda trabalhada na delicadeza. Outra suposição pertinente diz respeito ao final dessa história, que não é nada bonito, mas bastante previsível: chamei a Parenta de Solteirona, engatilhei dois palavrões cabeludos para que a frase surtisse o efeito desejado e fui embora, batendo os pés. Nunca mais fui convidada para aquela casa, e a Parenta Solteirona (que hoje em dia chamo de Esquisitona Rancorosa - devo ter herdado a vocação familiar, mesmo sem querer) não fala comigo direito até hoje.

Por mais que seja uma história engraçada (pelo menos o meu avô assim a descreveu para a minha mãe, na época, mas sei que há controvérsias), de vez em quando ela volta aos meus pensamentos. Sofro com uma sensação persistente de que não sou capaz de segurar uma pequena xícara de porcelana nas mãos sem que a tragédia, há muito anunciada, se concretize. É como se a delicadeza não tivesse vindo como item de fábrica para o meu modelo. Teimosa que sou, decidi aprendê-la na marra; e é por isso mesmo que ela é tão artificial e falha.

O corpo cresceu e ganhou formas femininas, o cabelo ganhou cachos, o boné vermelho foi substituído por um sem número de chapéus, tomei gosto pelas saias, vestidos e sapatos delicados. Mas ainda assim os modos (os maus modos, diriam alguns) permaneceram. Em um certo sentido, jamais deixei de ser um moleque – e não é de se espantar que, apesar de algumas concessões, eu não tenha abrido mão de ser assim.

Um efeito colateral dessa minha “deficiência de delicadeza” – Centrum resolve? – é meu interesse por coisas de mulherzinha. Um interesse estranho, que oscila entre a atração psicótica e a repulsa ostensiva. Só para citar um exemplo, dentre minhas leituras favoritas, que não são muito dadas a frescuras, separo um espaço especial na minha estante para os romances da Jane Austen. Sério. Já perdi a conta de quantas vezes li Orgulho e Preconceito. A madame fica encostadinha aos livros do Kerouac, uma coisa linda (e meio sacana) de se ver.

Papel Manteiga para embrulhar segredos me chegou às mãos nesse clima. Atração e repulsa. A capa e contracapa me eram demasiado fofas, isso sem falar no close da xícara que, por si só, já me deixou um tantinho apreensiva. Fiquei desconfiada, mas, como várias pessoas diferentes haviam me indicado, resolvi prosseguir na leitura.

A narrativa é epistolar, e deve muito de sua composição à fábula: uma aprendiz de cozinheira chamada Antônia, num restaurante perdido no tempo e no espaço, envia cartas e receitas para sua bisavó, muitas vezes escritas no próprio papel manteiga que usa na cozinha. O texto prossegue sereno e sem sobressaltos. As cartas salgadas e doces – dependendo de quais receitas as acompanhem – nos dão a conhecer um pouco mais da narradora e seu processo de iniciação na cozinha, que é também sua iniciação na vida adulta. Cabe à Senhorita Virgínia, dona do restaurante, o papel da tutora que auxilia Antônia em ambas as transições. E, de quebra, a matrona torna-se cúmplice dos segredos que a jovem partilha com a bisavó. Mais não digo para não atrapalhar a leitura, que tem lá suas pequenas reviravoltas, e não estou aqui para encaroçar o angu de ninguém.

As receitas, assinadas por Tatiana Damberg, parecem ser, em sua maioria, de execução fácil a moderada. Só não fui para a cozinha testá-las ainda por causa do volume de trabalho que tenho tido. A papelada só anda me permitindo, como ponto máximo dos meus delírios gastronômicos, parar o que estou fazendo para ligar para o delivery de empanadas. E olhe lá.

Cristiane Lisbôa cozinhou o texto em fogo baixo, com uma calda de açúcar dourada. Tudo é banhado por essa doçura caramelizada, daquelas que até fazem doer o cantinho da boca, sabe? Há passagens muito bonitas, como a que Antônia afirma-se como cozinheira para a bisavó, contrariando a mãe, uma feminista militante: “[...] como se para ser uma mulher moderna eu precisasse mentir que não gosto de panos de prato. Entendo que o sexo é político, abomino mutilações como as que acontecem em algumas tribos africanas e, claro, sou a favor de algumas coisas que ela defende, mas Bisa, minha luta é outra. Mulheres não precisam ser masculinizadas para que exista respeito. Em momento algum é preciso fingir que não temos, lá dentro, um sentimento arcaico de servir sabor a quem amamos. Isso não me diminui, não diminui ninguém. Apenas nos afasta”. E há também lembretes carinhosos para o melhor preparo das receitas, uma cortesia de Virginia: “Não se esqueça de tomar um copo de rum enquanto cozinha. Pode dançar se quiser”. Outras pequenas delícias são facilmente encontradas no corpo do texto – mas não vou citar mais nada para não encher  de couvert a barriga de possíveis clientes, antes que o prato principal tenha chegado à mesa. Digo que indico a leitura; indico a leitura com chá e biscoitos.

Por vezes achei que Cristiane Lisbôa fosse perder a mão. E, por vezes, quis deliberadamente que ela a perdesse: que a consistência ficasse estranha, que o leite coalhasse, que a massa solasse e virasse uma gosma enegrecida no fundo da forma. Assim eu poderia sair com um comentário cínico que me salvasse, assim não precisaria me render totalmente à aura acolhedora da cozinha de Virginia. Mas meus desejos azedos foram todos em vão.

E ainda bem, porque a receita seguiu seu curso e foi um sucesso. Quando terminei a leitura, num ponto de ônibus lotado, no meio de uma chuva sem trégua, numa das avenidas de maior tráfego da cidade, ainda assim. Ainda assim eu me sentia pronta para tomar chá com Antônia e Senhorita Virginia. E segurar a xícara entre as mãos, e talvez não deixá-la cair.

“Agora é daqui pra frente”, concluiu Antônia, esperançosa. “Pois é”, pensei comigo, enquanto o ônibus finalmente chegava ao ponto, e o ritual do empurra-empurra estava apenas começando.

#DL2012 – O pedante na cozinha, Julian Barnes

Eu adoro cozinhar. Mas na época em que tenho que escrever monografias ou outros textos para a academia caio de cabeça no vertiginoso mundo das refeições prontas com sabor artificial de papel, sacos gordurosos de biscoito, sanduíches de recheios tão criativos como atum e patê de latinha com maionese, dentre outras guloseimas do gênero. Isso não ajuda em nada o mau humor que costuma nortear todo o período em que me entoco em casa para escrever, eu sei. Mas só de pensar em chegar perto do fogão sinto uma preguiça existencial que me derruba. De volta ao computador: se é pra procrastinar que seja no twitter, e não cortando legumes.

(O caso extremo da preguiça gastronômica talvez tenha sido a semana em que me alimentei quase que exclusivamente de batata palha e coca zero, porque estava nas páginas finais da dissertação e não tinha tempo/disposição de sair de casa para comprar comida. O previsível resultado foi uma gripe-amidalite-conjuntivite que  quase me levou para o Esquecimento, e sem o diploma de mestre.  Não que o diploma fosse ter muita validade por lá, é claro. Fui defender o texto de óculos escuros, rouca e ardendo em febre. Um papelão que não pretendo repetir e que não recomendo para ninguém: crianças, comam seus vegetais!)

Também não gosto de cozinhar só para mim. E eu geralmente estou só durante grande parte do processo de escrita – até porque fico particularmente insuportável em épocas como essas. Quando nem o amor de mãe dá conta, e a minha  ameaça me rifar…, vai vendo. Voltando ao tema. Cozinhar para consumo próprio esbarra em alguns impedimentos básicos na minha visão de mundo, que são:

1) Só gosto de comida feita e consumida na hora. Me chame de garotinha da mamãe, mas mesmo que eu cozinhe a menor porção possível do básico, ainda assim vai sobrar arroz e feijão para sei lá quantos milênios, e sou fresca o suficiente para achar que 48 horas depois o “gosto de geladeira” causa danos irreversíveis em qualquer tempero.

2) Não tem ninguém para lavar a louça. Cara, eu odeio lavar louça. SÉRIO. Posso ficar 4 horas na cozinha tranquilamente, mas não me peça para lavar louça por 20 minutos.

3) E, o pior de tudo: não há ninguém para cumprimentar o cozinheiro pelo sucesso de um prato. De que adianta um penne ao funghi irretocável se não havia testemunha gustativa para atestar o fato? Resultado: você vai comer, vai mandar um “joinha” interno para si e o que sobrar do manjar di-vi-no que você preparou… adivinha?  Quando alguém resolver atacar as suas sobras num momento de desespero arqueológico, a comida vai estar com gosto de geladeira. E você ainda vai ter que ouvir algum esfomeado na madrugada perguntando se tem miojo no armário. Vai por mim: história real.

No entanto – e apesar dos pesares – cansada da rotina de almoçar um congelado e jantar hambúrguer (cortesia do namorado, que se dispôs a fritá-los para mim durante boa parte das últimas semanas – e não sou mal agradecida!), decidi cozinhar algo que se parecesse com comida de verdade. Ainda que de leve. Fui ao mercado sem um plano específico e voltei com bombons de alcatra. Improvisei um molho madeira, fiz uma farofinha com ovos, fritei umas batatas noisettes – que eu havia comprado congeladas, ou você achou que eu ia ter saco de prepará-las? – e pronto, em menos de 50 minutos tinha salvado um pouco da minha dignidade.

Imbuída do espírito de “minha comida não parece uma gororoba aleatória” achei por bem espantar a preguiça de vez e resenhar o primeiro livro do Desafio Litérário 2012: O pedante na cozinha, de Julian Barnes.  O tema de janeiro, para quem não se lembra, era Literatura Gastronômica. E eu havia prometido ler Como Água para Chocolate, da Laura Esquivel. Sucede que eu não achei o livro de jeito nenhum nas minhas estantes, antes de viajar. E acabei encontrando O Pedante como que por acaso numa das minhas visitas à livraria X de um cinema Y. (Tinha colocado o nome da dita cuja, mas retirei antes que me acusassem injustamente  de merchan: gasto os tubo por lá e nem os marcadores de página que eles dão são utilizáveis – só fazem propaganda de livros uó).

Enfim, O Pedante na Cozinha. Vamos à ficha técnica.

Autor: Julian Barnes, o mesmo indicado pelo Marcos Faria para o mês de maio, com seu História do Mundo em 10/2 capítulos. Uma puta e feliz coincidência, devo dizer. Nunca havia lido, e estou pensando em colocar na lista de prioridades, porque me diverti de verdade.

O que é: uma série de crônicas sobre culinária, (muito bem) escritas por aquele que se julga um pedante na cozinha: o obsessivo que gostaria de extrair o máximo de cientificismo das receitas culinárias, e que está pronto a queimar livros e autores  na inquisição culinária pelo uso de termos subjetivos como “a gosto”, “pitadas”, “mão cheia”.

Não, espera, não estou sendo justa – o livro não é só isso. Ele também dá alento a cozinheiros esporádicos como eu, dizendo coisas óbvias mas pertinentes como “jamais acredite nas fotos dos livros” e “não compre um livro sobre sucos se você não tem um espremedor de frutas em casa”.

Tempo de preparo leitura: um par de horas muitíssimo bem aproveitadas. Coisa fina para ler enquanto se assa uma maminha na cerveja preta.

Adequado para:

a) gente que gosta de cozinhar e fica meio neurótico quando a receita não é clara o suficiente, ou quando a suflê dá errado, ou quando aquela sobremesa fica parecendo pudim de terra.

b) diletantes na cozinha que sempre largam a receita de lado no meio do caminho e sempre acham que vão fazer melhor do que chefs pomposos com programas na TV – chupa, Gordon Ramsay! – geralmente com resultados catastróficos. Categoria na qual me incluo.

c) gente que nem liga muito para cozinha – quer dizer: sabe fazer pipoca de microondas – mas ainda assim gosta de um texto bem escrito, de uma ironia de bico de pena e de rir um pouco com as desgraças alheias. Categoria na qual também me incluo.

Perdeu o ponto: nas ilustrações. Vou te contar, as ilustrações do livro são motivo de vergonha alheia para 2012 inteiro e além. Tão feias e despropositadas que sequer estão creditadas. Ou foi o filho adolescente de alguém importante quem fez, ou foi o próprio autor (que não quis ser incriminado pelo capricho) ou foi obra de algum chef muito xingado nas crônicas, que conseguiu inserir aquelas atrocidades visuais antes que o livro fosse impresso na gráfica.  Não compromete o texto do Barnes, evidente, mas destoa do conjunto geral. “Nunca acredite nas fotos”, o autor diz. E eu digo “não acredite nas ilustrações toscas”, porque o livro não merece.

O couvert é opcional: Leia a primeira crônica aqui.

Até o fim do mês verei se consigo encontrar minha Laura Esquível perdida. E aos leitores e amigos que me indicaram a leitura de Papel Manteiga Para Embrulhar Segredos, da Cristiane Lisbôa, devo dizer que estou frustrada. Fiquei animada com tantas indicações (foram pelo menos 7 ou 8, de uma autora que eu desconhecia), achei o blog da moça, entrei em cinco livrarias diferentes e em nenhuma delas havia um exemplar do livro dando sopa. Digo o mesmo para dois sites e a Estante Virtual. Acontece.

Só mais 5 minutinhos… de tensão

Não basta sofrer com a insônia: é preciso ter o sono leve, daqueles que fazem do passarinho cantando no parapeito da janela um inimigo mortal. Isso sem mencionar as cigarras no verão – não há bucolismo que resista àquele som infernal e lá esta você, desejando que um bichinho que você nem consegue ver CANTE, MAS CANTE ATÉ EXPLODIR, MISERÁVEL. Como é que se pode ser uma boa pessoa numa situação dessas, me diz?

Enquanto eu não puder me entocar num quarto com luz e temperaturas controladas – e, acima de todas as coisas, isolamento acústico – vou provavelmente acordar nas primeiras horas da manhã com algum barulho persistente, e particularmente irritante. E com um humor daqueles de pendurar a plaquinha “Cão bravo”. Não é culpa do mundo se meu relógio biológico anda em descompasso, mas, ei, certamente a culpa não é (inteiramente) minha também. Não podemos chegar a um acordo?

Ah, as maravilhas da vida em comunidade! Não importa se com a família, o namorado ou os colegas de quarto, e  eu tenho ampla experiência nos três casos: sempre haverá um motivo para querer esganar as pessoas que moram com você, ainda que com muito amor. É o ronco compassado de sua querida mamãezinha, é sua colega de quarto que perde a chave de casa às três da manhã e fica ligando para o seu celular até que você  abra a porta, é o seu avô que decide que sob a sua janela é o ponto acústico perfeito para martelar em algo por horas, ou para conversar com as pessoas que passam na rua. Muito, muito amor.

Mas um dos aspectos mais irritantes de viver sob o mesmo teto que alguém é, sem dúvida, o número de vezes que essa pessoa aperta a função “soneca” em seu despertador ou celular. Deveria haver um capítulo nos códigos de bom comportamento apenas sobre como esse hábito é insuportável, e como deixa quem não participa do processo num estado de absoluta tensão.

Para não parecer mais mal humorada do que realmente sou: não tenho absolutamente nada contra despertadores. Não é porque eu ando trabalhando e vivendo em horários alternativos que o resto do mundo precise fazer a mesma coisa. Se você tem que acordar seis e meia da manhã para bater cartão às nove, vou cobrir minha cabeça e te desejar em pensamentos um bom dia de trabalho, virar para o outro lado e tentar reencontrar o sono interrompido. Quando eu tenho que acordar num determinado horário, o tempo que vou passar a mais na cama não é nunca pontuado pela ditadura da soneca; do contrário, não consigo relaxar.

No entanto, normalmente as coisas não funcionam assim. Digamos que a pessoa precisa acordar às seis e meia: ela então coloca o relógio para despertar às seis e fica, de cinco em cinco minutos utilizando o recurso soneca. Considerando que a pessoa (que-ri-da) em questão está querendo dormir mais um pouco, é improvável que vá abrir os olhos só para deter um aparelho fora de controle. A ação de tatear a mesa de cabeceira até achar o despertador – e o botão correto que acionará o dispositivo – leva, portanto, o dobro ou o triplo de tempo necessário. Resultado: uns bons 15 segundos de alarme em sua cabeça, a cada cinco minutos, num intervalo de meia hora. Um pesadelo. E, juro, não estou exagerando.

Nesses cinco minutos (e em todos os outros que seguirão) seu parente/roomate/parceiro terá sonhos intricados e complexos, vai roncar e babar no travesseiro… enquanto você – no caso, eu – vai estar imerso em angústia, perguntando-se se é dessa vez que o desalmado vai finalmente levantar, ou se você terá que ficar esperando por uma possível redenção pelos cinco minutos seguintes.

Considerando que, duas ou três repetições depois, quem perdeu o sono totalmente foi você –  no caso… –  é hora de levantar, ir ao banheiro, checar as olheiras, tomar uma água, abrir o  notebook, quem sabe até fazer um post meio ranzinza no blog, só para conjurar um sono que não há de voltar tão cedo.

Eu sei que sou voto vencido, que a humanidade incorporou definitivamente a soneca ao descanso. Só me resta correr para as cavernas, ou talvez nem isso. Porque eu só me mudo de vez se conseguir encontrar alguma que não tenha cigarras – ou mesmo passarinhos bem intencionados – na vizinhança.

Saudosismo na ponta da língua

A primeira segunda-feira do ano e lá estava eu, na seção de hortifruti do supermercado, indecisa sobre levar uvas ou cerejas frescas para o lanche*. Ao meu lado, um casal de velhinhos examinava com cuidado a pilha de frutas-do-conde. “Estão muito feias – disse a senhora -, é por isso que estavam tão baratas no reclame.”

Acabei me decidindo pelas uvas (mas já estou arrependida, e amanhã vou resgatar minha cerejas!), dei um sorriso para o casal  e fui embora, me sentindo um tanto cúmplice daquela escolha vocabular. Por conta de certas contingências familiares, eu passei grande parte da minha infância sendo criada pelo avô materno, que hoje tem nada menos do que respeitáveis 87 anos. Façam as contas, crianças, o pequeno Moacyr nasceu em 1924 – o “ph” da Pharmacia só caiu em 1943. Imaginem o número de arcaísmos que há naquela cabecinha branca, e quantos eu assimilei por osmose no decorrer dos anos. De vez em quando eu preciso de um toque das pessoas ao meu redor para dizer que não, Gabriela, as pessoas normais não falam assim hoje em dia.

Reclame eu bem sei que não se usa, que o comercial e a propaganda são os equivalentes que não fazem as pessoas olharem para mim com aquela cara de interrogação sobre onde foi que eu andei durante as últimas sete ou oito décadas. Mas naquele dialeto sentimental que compartilho apenas com o Seu Machado, num desses dias de dezembro me peguei comentando sobre os reclames de fim de ano da Globo, enquanto tomávamos café.

Agora chapéu é um caso clássico na minha vida. Eu não sabia que chapéu (usado para designar um guarda-chuva) havia saído de moda. Ou talvez o termo jamais tenha entrado em moda alguma e meu avô só fala assim  porque  é hipster deu na telha dele. De todo jeito, lá em Petrópolis é um tal de chapéu pra lá e chapéu pra cá – até porque, convenhamos, aquela cidade só faz chover – que eu assimilei a palavra e não consigo usar qualquer tipo de substituta, se não estiver muito atenta. O que, invariavelmente, faz com que meu interlocutor olhe pra mim daquele jeito estranho como se olha para pequenos bichos que vivem embaixo de pedras úmidas.

A lista continua. Banzé, no lugar de “confusão”, decalque em vez de “adesivo”, Cricri substituindo “implicante”, pratinhas para não dizer “moedas”. Putz grila, borocoxô, supimpa, bacana (eu sei, agora o bacana está ficando bacana de novo), tudo isso é do tempo “que se amarrava cachorro com linguiça”, “em 1900 e guaraná com rolha” –  duas expressões idiomáticas muito caras ao meu sábio avô.

Essa sou eu: com o saudosismo de uma época que não vivi na ponta da língua. Mentira, é claro que vivi: aquelas tardes em Petrópolis nas quais meu melhor amigo me ensinava a andar de bicicleta, a soltar pipa (embora eu nunca tenha aprendido) e a comer caqui quente de sol no pé – tirando a cica da fruta com muito cuidado. Ainda se fala cica por aí, aliás?**

 

***

* Essa frase poderia ter saído de um início de episódio de Desperate Housewives. O que atesta que janeiro é um mês esquisito na minha vida, no qual tenho que:

1) ficar dentro de casa escrevendo monografias de doutorado como se não houvesse amanhã, porque se eu for pensar no prazo, não há;

2) perder desesperadamente as calorias a mais consumidas em dezembro. Aquele panetone da Havana, os drinks com vodka de baunilha, o tender ao molho de laranja… razão pela qual eu estava na seção de hortifruti, e não na padaria, como dita o costume.

**fui pesquisar para ver se o deus google ajudava, e vejam que coincidência – o Vinícius ainda usa o termo cica. Faz sentido que esteja ficando com os cabelos brancos, e que, justamente hoje, enquanto escrevo, esteja ficando um ano [ainda mais] velho. Parabéns! ;) )