Só mais 5 minutinhos… de tensão

Não basta sofrer com a insônia: é preciso ter o sono leve, daqueles que fazem do passarinho cantando no parapeito da janela um inimigo mortal. Isso sem mencionar as cigarras no verão – não há bucolismo que resista àquele som infernal e lá esta você, desejando que um bichinho que você nem consegue ver CANTE, MAS CANTE ATÉ EXPLODIR, MISERÁVEL. Como é que se pode ser uma boa pessoa numa situação dessas, me diz?

Enquanto eu não puder me entocar num quarto com luz e temperaturas controladas – e, acima de todas as coisas, isolamento acústico – vou provavelmente acordar nas primeiras horas da manhã com algum barulho persistente, e particularmente irritante. E com um humor daqueles de pendurar a plaquinha “Cão bravo”. Não é culpa do mundo se meu relógio biológico anda em descompasso, mas, ei, certamente a culpa não é (inteiramente) minha também. Não podemos chegar a um acordo?

Ah, as maravilhas da vida em comunidade! Não importa se com a família, o namorado ou os colegas de quarto, e  eu tenho ampla experiência nos três casos: sempre haverá um motivo para querer esganar as pessoas que moram com você, ainda que com muito amor. É o ronco compassado de sua querida mamãezinha, é sua colega de quarto que perde a chave de casa às três da manhã e fica ligando para o seu celular até que você  abra a porta, é o seu avô que decide que sob a sua janela é o ponto acústico perfeito para martelar em algo por horas, ou para conversar com as pessoas que passam na rua. Muito, muito amor.

Mas um dos aspectos mais irritantes de viver sob o mesmo teto que alguém é, sem dúvida, o número de vezes que essa pessoa aperta a função “soneca” em seu despertador ou celular. Deveria haver um capítulo nos códigos de bom comportamento apenas sobre como esse hábito é insuportável, e como deixa quem não participa do processo num estado de absoluta tensão.

Para não parecer mais mal humorada do que realmente sou: não tenho absolutamente nada contra despertadores. Não é porque eu ando trabalhando e vivendo em horários alternativos que o resto do mundo precise fazer a mesma coisa. Se você tem que acordar seis e meia da manhã para bater cartão às nove, vou cobrir minha cabeça e te desejar em pensamentos um bom dia de trabalho, virar para o outro lado e tentar reencontrar o sono interrompido. Quando eu tenho que acordar num determinado horário, o tempo que vou passar a mais na cama não é nunca pontuado pela ditadura da soneca; do contrário, não consigo relaxar.

No entanto, normalmente as coisas não funcionam assim. Digamos que a pessoa precisa acordar às seis e meia: ela então coloca o relógio para despertar às seis e fica, de cinco em cinco minutos utilizando o recurso soneca. Considerando que a pessoa (que-ri-da) em questão está querendo dormir mais um pouco, é improvável que vá abrir os olhos só para deter um aparelho fora de controle. A ação de tatear a mesa de cabeceira até achar o despertador – e o botão correto que acionará o dispositivo – leva, portanto, o dobro ou o triplo de tempo necessário. Resultado: uns bons 15 segundos de alarme em sua cabeça, a cada cinco minutos, num intervalo de meia hora. Um pesadelo. E, juro, não estou exagerando.

Nesses cinco minutos (e em todos os outros que seguirão) seu parente/roomate/parceiro terá sonhos intricados e complexos, vai roncar e babar no travesseiro… enquanto você – no caso, e – vai estar imerso em angústia, perguntando-se se é dessa vez que o desalmado vai finalmente levantar, ou se você terá que ficar esperando por uma possível redenção pelos cinco minutos seguintes.

Considerando que, duas ou três repetições depois, quem perdeu o sono totalmente foi você –  no caso… –  é hora de levantar, ir ao banheiro, checar as olheiras, tomar uma água, abrir o  notebook, quem sabe até fazer um post meio ranzinza no blog, só para conjurar um sono que não há de voltar tão cedo.

Eu sei que sou voto vencido, que a humanidade incorporou definitivamente a soneca ao descanso. Só me resta correr para as cavernas, ou talvez nem isso. Porque eu só me mudo de vez se conseguir encontrar alguma que não tenha cigarras – ou mesmo passarinhos bem intencionados – na vizinhança.

11 thoughts on “Só mais 5 minutinhos… de tensão

  1. Morei anos num prédio à beira da estrada. Caminhões devassando bueiros são canções de ninar para mim. Marido, ao contrário, cresceu no mais puro silêncio do interior e treme a cada piada de passarinho. Eu o submeto à tortura diária da soneca – almas gêmeas são para isso, não? rsrs
    Mas pensarei nele com carinho depois do seu texto e, quem sabe, ajusto o despertador para a hora exata em que devo levantar.

    Beijinhos!

  2. hahahahahaha eu sou bem assim. coloco 5 minutos no despertador sempre que ele toca. SEMPRE MESMO. Por que a gnt se tortura assim, né?! E mais, pq a gnt tortura quem a gnt ama, no meu caso, o boy?
    adorei o texto =)

  3. Tenho alguns problemas com o sono (não tenho aquele sono que proporciona o descanso sabe? então costumo ficar cansada o dia todo, quase sempre), mas definitivamente o “sono leve” não é um deles… você pode, literalmente, me jogar da cama que eu não acordo… a não ser que eu já esteja “meio acordada”… e pra mim, a função “soneca” não é nem porque eu quero mais 5 minutinhos de soneca… é porque eu preciso de muito barulho pra me acordar, e só a função soneca é capaz de proporcionar um barulho alto e constante pra me fazer despertar :x A minha sorte é que quase todos da minha casa tem sono pesado e acordam no mesmo horário que eu, então fica todo mundo feliz, rsrsrs

  4. Mesmo ranzinza seus textos sempre são ótimos. Compartilho o ódio por cigarras e passarinhos cantantes, mas acho uma pena você não ter a habilidade da soneca. Os sonhos mais psicodélicos acontecem naquele intervalinho de dez minutos (ou 9 e 45 segundos).

  5. Ótimo texto. Bom saber que não sou a única que abomina o SONECA. Embora em 90% das vezes eu já esteja acordada quando o maldito despertador alheio começa com a sinfonia de soneca, não há como não odiá-lo. Tenho que me segurar muito para não ir lá e desligar de vez o alarme.

  6. As funções de despertadores e pessoas são quase convincentes…
    Ah, se as pessoas viessem de fábrica com o botão de “soneca”…
    Sonhos… Quase sonhos.

    Gabriela, se você vê esses comentários, dá uma passadinha no meu blog e deixa uma opinião sincera?
    Obrigado e… Durma bem!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s