Eu adoro cozinhar. Mas na época em que tenho que escrever monografias ou outros textos para a academia caio de cabeça no vertiginoso mundo das refeições prontas com sabor artificial de papel, sacos gordurosos de biscoito, sanduíches de recheios tão criativos como atum e patê de latinha com maionese, dentre outras guloseimas do gênero. Isso não ajuda em nada o mau humor que costuma nortear todo o período em que me entoco em casa para escrever, eu sei. Mas só de pensar em chegar perto do fogão sinto uma preguiça existencial que me derruba. De volta ao computador: se é pra procrastinar que seja no twitter, e não cortando legumes.
(O caso extremo da preguiça gastronômica talvez tenha sido a semana em que me alimentei quase que exclusivamente de batata palha e coca zero, porque estava nas páginas finais da dissertação e não tinha tempo/disposição de sair de casa para comprar comida. O previsível resultado foi uma gripe-amidalite-conjuntivite que quase me levou para o Esquecimento, e sem o diploma de mestre. Não que o diploma fosse ter muita validade por lá, é claro. Fui defender o texto de óculos escuros, rouca e ardendo em febre. Um papelão que não pretendo repetir e que não recomendo para ninguém: crianças, comam seus vegetais!)
Também não gosto de cozinhar só para mim. E eu geralmente estou só durante grande parte do processo de escrita – até porque fico particularmente insuportável em épocas como essas. Quando nem o amor de mãe dá conta, e a minha ameaça me rifar…, vai vendo. Voltando ao tema. Cozinhar para consumo próprio esbarra em alguns impedimentos básicos na minha visão de mundo, que são:
1) Só gosto de comida feita e consumida na hora. Me chame de garotinha da mamãe, mas mesmo que eu cozinhe a menor porção possível do básico, ainda assim vai sobrar arroz e feijão para sei lá quantos milênios, e sou fresca o suficiente para achar que 48 horas depois o “gosto de geladeira” causa danos irreversíveis em qualquer tempero.
2) Não tem ninguém para lavar a louça. Cara, eu odeio lavar louça. SÉRIO. Posso ficar 4 horas na cozinha tranquilamente, mas não me peça para lavar louça por 20 minutos.
3) E, o pior de tudo: não há ninguém para cumprimentar o cozinheiro pelo sucesso de um prato. De que adianta um penne ao funghi irretocável se não havia testemunha gustativa para atestar o fato? Resultado: você vai comer, vai mandar um “joinha” interno para si e o que sobrar do manjar di-vi-no que você preparou… adivinha? Quando alguém resolver atacar as suas sobras num momento de desespero arqueológico, a comida vai estar com gosto de geladeira. E você ainda vai ter que ouvir algum esfomeado na madrugada perguntando se tem miojo no armário. Vai por mim: história real.
No entanto – e apesar dos pesares – cansada da rotina de almoçar um congelado e jantar hambúrguer (cortesia do namorado, que se dispôs a fritá-los para mim durante boa parte das últimas semanas – e não sou mal agradecida!), decidi cozinhar algo que se parecesse com comida de verdade. Ainda que de leve. Fui ao mercado sem um plano específico e voltei com bombons de alcatra. Improvisei um molho madeira, fiz uma farofinha com ovos, fritei umas batatas noisettes – que eu havia comprado congeladas, ou você achou que eu ia ter saco de prepará-las? – e pronto, em menos de 50 minutos tinha salvado um pouco da minha dignidade.
Imbuída do espírito de “minha comida não parece uma gororoba aleatória” achei por bem espantar a preguiça de vez e resenhar o primeiro livro do Desafio Litérário 2012: O pedante na cozinha, de Julian Barnes. O tema de janeiro, para quem não se lembra, era Literatura Gastronômica. E eu havia prometido ler Como Água para Chocolate, da Laura Esquivel. Sucede que eu não achei o livro de jeito nenhum nas minhas estantes, antes de viajar. E acabei encontrando O Pedante como que por acaso numa das minhas visitas à livraria X de um cinema Y. (Tinha colocado o nome da dita cuja, mas retirei antes que me acusassem injustamente de merchan: gasto os tubo por lá e nem os marcadores de página que eles dão são utilizáveis – só fazem propaganda de livros uó).
Enfim, O Pedante na Cozinha. Vamos à ficha técnica.
Autor: Julian Barnes, o mesmo indicado pelo Marcos Faria para o mês de maio, com seu História do Mundo em 10/2 capítulos. Uma puta e feliz coincidência, devo dizer. Nunca havia lido, e estou pensando em colocar na lista de prioridades, porque me diverti de verdade.
O que é: uma série de crônicas sobre culinária, (muito bem) escritas por aquele que se julga um pedante na cozinha: o obsessivo que gostaria de extrair o máximo de cientificismo das receitas culinárias, e que está pronto a queimar livros e autores na inquisição culinária pelo uso de termos subjetivos como “a gosto”, “pitadas”, “mão cheia”.
Não, espera, não estou sendo justa – o livro não é só isso. Ele também dá alento a cozinheiros esporádicos como eu, dizendo coisas óbvias mas pertinentes como “jamais acredite nas fotos dos livros” e “não compre um livro sobre sucos se você não tem um espremedor de frutas em casa”.
Tempo de preparo leitura: um par de horas muitíssimo bem aproveitadas. Coisa fina para ler enquanto se assa uma maminha na cerveja preta.
Adequado para:
a) gente que gosta de cozinhar e fica meio neurótico quando a receita não é clara o suficiente, ou quando a suflê dá errado, ou quando aquela sobremesa fica parecendo pudim de terra.
b) diletantes na cozinha que sempre largam a receita de lado no meio do caminho e sempre acham que vão fazer melhor do que chefs pomposos com programas na TV – chupa, Gordon Ramsay! – geralmente com resultados catastróficos. Categoria na qual me incluo.
c) gente que nem liga muito para cozinha – quer dizer: sabe fazer pipoca de microondas – mas ainda assim gosta de um texto bem escrito, de uma ironia de bico de pena e de rir um pouco com as desgraças alheias. Categoria na qual também me incluo.
Perdeu o ponto: nas ilustrações. Vou te contar, as ilustrações do livro são motivo de vergonha alheia para 2012 inteiro e além. Tão feias e despropositadas que sequer estão creditadas. Ou foi o filho adolescente de alguém importante quem fez, ou foi o próprio autor (que não quis ser incriminado pelo capricho) ou foi obra de algum chef muito xingado nas crônicas, que conseguiu inserir aquelas atrocidades visuais antes que o livro fosse impresso na gráfica. Não compromete o texto do Barnes, evidente, mas destoa do conjunto geral. “Nunca acredite nas fotos”, o autor diz. E eu digo “não acredite nas ilustrações toscas”, porque o livro não merece.
O couvert é opcional: Leia a primeira crônica aqui.
Até o fim do mês verei se consigo encontrar minha Laura Esquível perdida. E aos leitores e amigos que me indicaram a leitura de Papel Manteiga Para Embrulhar Segredos, da Cristiane Lisbôa, devo dizer que estou frustrada. Fiquei animada com tantas indicações (foram pelo menos 7 ou 8, de uma autora que eu desconhecia), achei o blog da moça, entrei em cinco livrarias diferentes e em nenhuma delas havia um exemplar do livro dando sopa. Digo o mesmo para dois sites e a Estante Virtual. Acontece.

hahahaha a resenha mais divertida que já li (em especial a introdução).
Esse cara deveria te pagar um extra.
Oi, Gabriela:
Adorei a resenha e já coloquei o livro na lista dos “para ler”.
Olha só, acho que reeditaram o “Papel Manteiga para Embrulhar Sonhos”.
Aqui vai o link do buscapé, tá?
Beijocas
http://compare.buscape.com.br/prod_unico?idu=1858961702&ordem=prec
Obrigada, Yara. Vou ver se dou sorte com alguma dessas lojas.
Hahaha, adorei! Ja esta na minha wishlist, como prioridade.
Sugiro tambem “O que Einstein disse a seu cozinheiro”, volumes 1 e 2. Leitura gostosa (sem perder o trocadilho, claro) que mistura culinaria, fisica e um toque de bom humor. E ja anotei o “Papel manteiga…”, se encontrar aviso.
Nossa, meu professor de física no segundo grau sugeriu a leitura desses livros… eu havia me esquecido completamente. Vou ver se encontro, Tati. Beijo.
Ficou parecendo aquelas crônicas do Apicius (não pergunte, é coisa de velho) no JB (idem), que começavam falando de algum outro tema e só lá pelo meio entravam na parte de crítica de restaurante.
Gostei da primeira crônica. E minha admiração ao tradutor e ao editor que mantiveram “alho-porro” em vez do horrendo “alho-poró”.
Quem é o pedante agora, heim? HAHAHA
Gostei muito do texto, principalmente da introdução! Esse mês do DL nao está sendo bom para mim, não estou curtindo muito os livros que escolhi até agora. Mas talvez dê uma chance para “O pedante na cozinha”, amo crônicas e me encaixo perfeitamente na categoria C. Obrigada pela indicação!
Beijo!
adorei sua resenha!
passei pela mesma coisa durante a reta final da escrita das monografias. tentei me programar na segunda para evitar os stresses e ter uma vida melhor, mas foi tanta intervenção de Murphy…
o livro parece ser leve e bem divertido de ler. também estive a procura do “papel manteiga…” mas não achei, ai escolhi “o clube das chocólatras” para o desafio
estou entre os tipos A e B hahahaha
beijos,
bibs
Aproveito pra fazer um update: eu achei o Papel Manteiga, finalmente! E já li, porque é pequeno. E ado-rá-vel.
Gabriela, ADOREI a resenha, ADOREI a dica de leitura, ADOREI o fato de ser um livro diferente dos que têm sido resenhados pro DL, mas mais ainda, ADOREI o seu blog e a maneira como você escreve. Muito mesmo, parabéns!
Bjs!
gostei muito da resenha, me encaixei na categoria A, isto é, quando estou tranquila com a pós-graduação… rsrs
Oi Gabriela!
Adorei seu texto e a resenha! O livro parece bem bacana mesmo. Quem ia imaginar que tem tanto livro bacana com tema gastronômico.
Um beijo!
Moça, eu adoraria aprender a cozinhar. Juro que em dezenove anos de existência, mamãe nunca se dispôs a a me ensinar essa coisa que me parece tão simples e, ao mesmo tempo, difícil de ser gostada por outros. Penso todo dia seriamente em fazer um curso no SENAC. Talvez funcione.
Desculpe o sumiço. Beijos.
Muito espirituosa sua resenha,achei sua escolha bem interessante e ja’ adicionei a minha wish list.
Como sempre, resenha impecável. E não é que me convenceu de que o livro é bom, vou procurar por aqui.
Oooops! Tava devendo postar esse, ficou delicioso! Fiz uma série! Bj