As fitas cassete do meu pai

E não é que eu consegui encontrar algumas fitas no fundo da gaveta?

(Esse post tem trilha sonora)

Dia desses comentei que, estando o Wando numa situação delicada (que meu avô gentilmente classificaria como “mais pra lá do que pra cá”), eu não conseguiria realizar o sonho de assistir um show dele. Eu e um amigo tínhamos esse projeto, e pretendíamos fazer o roteiro completo, jogando nossos trajes menores no palco e tudo, porque, veja, qual a graça se não fosse assim - e agora, Rômulo? THE KING IS DEAD.

A despeito de toda a galhofa – e das cuecas e calcinhas economizadas nessa brincadeira –  de fato lamentei quando soube da morte do cantor ontem de manhã. Por mais estranha que essa frase possa parecer, o Wando fez parte da minha educação sentimental. Sério. Meu pai adorava o Wando, costumava ouvir a fita (A FITA!) que tinha dele dentro do fusca (73). A mesma fita que hoje corri para resgatar de dentro de uma gaveta, e que pus imediatamente para tocar.

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Meu pai ouvia não só o Wando, claro, mas o Wando também. Aliás, agora em finalmente parei para pensar na minha experiência como ouvinte de MPB, devo dizer que, nos meus primeiros anos de vida, o “Popular” era talvez a palavra que melhor representasse o que a sigla significava para mim. Chico Buarque e Caetano  eu só fui começar a ouvir final do Ensino Médio. Novos Baianos e Mutantes, então, esses só fui saber quem eram quando já estava na faculdade. Na minha infância, para além do rádio – rádio nos anos 90, realizem! – eu tinha as fitas cassete do meu pai.

Cabe esclarecer que papai nasceu numa cidadezinha de Minas chamada Santo Antônio Aventureiro (população de 2000 aventureiros e uns quebrados). Já tinha uns 10 anos quando foi finalmente informado do advento da luz elétrica; antes tarde do que nunca. Só foi descobrir o que era rádio, no entanto, quando tinha uns 15, porque mudou de cidade, indo morar em Mar de Espanha (população de 12 mil, mas isso em 2004, segundo a wikipedia). Na fábrica em que arranjou o primeiro emprego ( foi aprendiz e depois  lapidador de pedras preciosas), o patrão tinha um rádio daqueles grandes, verdadeiros móveis para enfeitar a sala.

Quando meu pai entrou na era da televisão eu não sei realmente dizer, porque ele nunca me contou essa história, ou se contou não me lembro. No entanto, ouvi muito sobre o rádio. Esse sim marcou-o de tal forma que, quando finalmente teve dinheiro para comprar seu primeiro modelo a pilhas, nunca mais viveu sem um. Meu pai foi caminhoneiro, taxista e, antes de adoecer, mecânico. Tudo isso durante as décadas de 70 e 80, e ouvindo rádio sem parar enquanto executava as funções que lhe eram designadas. – papai não teve grana para investir numa vitrola, mas chegou a tempo de assistir à era dos toca-fitas – aparelho que, aliás, até hoje conservamos lá em casa.

Para alguém com esse currículo, fica fácil  imaginar o repertório musical que estava contido nas fitas que enchiam a estante. Wando, Fagner, Sérgio Reis, Belchior, Agepê, Elba e Zé Ramalho, Almir Sater, Bete Carvalho, Alcione, Oswaldo Montenegro. Nomes e músicas que me lembram a infância. O Fagner, meu pai dizia, cantava as músicas mais bonitas que ele já tinha ouvido na vida, músicas que o faziam lembrar da época em que ainda não conhecia o rádio e ia para a praça da cidade com o pai para ouvir os violeiros que vinham de quando em quando. Já o Wando, segundo me contou, era sucesso nas matinês de sua adolescência, para dançar colado com as meninas, numa época em que as mães faziam rondas severas para conservar a honra de suas pequenas – eu sei, grande parte do mundo vivia a revolução sexual, mas estamos falando do interior.

Através dos ouvidos do meu pai, aprendi o valor de cada canção que falava sobre amores, bares, estradas e solidão. Mulheres perdidas,  Ritmos e temas que, depois vim a saber (e, consequentemente, até a repetir) que eram bregas. Mas que jamais tive coragem de esquecer, embora tenha guardado as fitas cassete do meu pai no fundo da gaveta, quando ganhei meu primeiro CD player. Eu devia ter uns 10 anos e resolvi convencê-lo de que as fitas estavam muitíssimo ultrapassadas, e que agora só compraríamos CDs. “Cds são discos pequenos –  e tão caros quanto”, dizia.

Ele morreu poucos meses após o meu décimo sexto aniversário. Em seus últimos dois anos – os mais difíceis para todos nós –  nossas diversões consistiam em assistir a MTV e a CMT (um canal de música country americana). E, de quando em quando, desligar a televisão para ouvir não o meu rádio, mas os seus cassetes no toca-fitas. A verdade é que nunca conseguimos (ou não nos interessamos, ou não tivemos tempo, dinheiro, tampouco me lembro) em comprar CDs dos ídolos do meu pai. De toda forma, não fez a menor diferença, e talvez tenha sido até melhor assim.

A história é essa, não há mais muito a dizer. Devo ao Wando. Não pelas músicas, pela coleção de calcinhas que já rendeu tantas piadas, ou mesmo por ser um autor que aprendeu a fazer um personagem de si e assim transcender a própria obra – muito esperto, senhor Wando, mas não por isso, claro.  Devo respeito e uma homenagem a ele hoje pela importância (quase insuspeitada) do símbolo: não é qualquer um que consegue transformar-se, para sempre, em uma das fitas cassetes do meu pai.