#DL2012 – Jane Eyre, Charlotte Brontë

Zefirelli acertou em cheio: a Charlote Gainsbourg é estranha o suficiente para encarnar a Jane.

Um novo recorde pessoal: consegui perder o prazo mesmo sendo este um ano bissexto. Sento para escrever a resenha do livro de fevereiro na segunda madrugada de março. Dia desses,tomando café com uma nova amiga (que  também está participando do Desafio Literário), comentamos sobre o verdadeiro desafio, que é o de vencer a preguiça. Ler um livro temático a cada mês é moleza; o problema começa na hora de se organizar para escrever as resenhas. Com a auto-crítica em dia, é hora de seguir adiante.

O tema de fevereiro era Nomes Próprios (de pessoas). Esse é justamente o tipo de escolha que me faz cumprimentar mentalmente o autor por sua audácia. Enquanto um catatau de escreventes fica pensando no que vai espremer em meia dúzia de caracteres para que sirva de síntese das trezentas e tantas páginas que escreveu, um ou outro gato pingado resolve que “ah, meu romance vai se chamar só Clarissa ou Quincas Borba“.

Nesses casos, não há sequer uma informação para dirigir o leitor. Em Mrs. Dalloway e Madame Bovary já sabemos de antemão que as donas são casadas. Pierre Ménard é o autor do Quixote e o próprio Dom Quixote de La Mancha é um engenhoso fidalgo. Lolita é um diminutivo, Chéri um rapaz de sorte. Há também os pares: Romeu e Julieta são um casal, Elvis e Madonna também. Esaú e Jacó são tão irmãos quanto Pedro e Paula, embora os primeiros não tenham tido uma relação incestuosa. Caim é nome transbordante de carga bíblica: fazer um romance chamando um personagem de Caim e não citar nem de longe o Antigo Testamento seria a maior trollagem para  gerações de críticos literários que se descabelariam em interpretações da referência in absentia.  O mesmo para vale para o Ulisses.

Imagino que seja com muita confiança  que o autor coloca lá na primeira página com letras inchadas de tanto orgulho: Frankenstein, Paula, Cândido, Ana Karenina, Pedro Páramo. O uso de nomes próprios  - com ou sem “dicas” atreladas a eles – como título só pode querer dizer: “Veja bem, esse personagem é tão bacana (ou não), relevante e completo que o livro não pode simplesmente se chamar de outra forma”. É uma esfregação na cara do leitor, convenhamos. Ou pode ser que seja apenas cisma minha.

Alguns personagens, inclusive, são tão cativantes – para o bem ou para o mal – que poderiam encabeçar suas próprias narrativas, às vezes substituindo títulos primorosos, porque eu sou dessas que mutila livros sem pudor dentro da minha cabeça. O caso é que não há como duvidar da força de nomes como Julien Sorel, Arturo Bandini, Florentino Ariza.

Eu ia ler Orlando para o desafio, mas fez muito calor em fevereiro. Eu sei, é uma justificativa esdrúxula, mas é real. Com os termômetros registrando 37 graus na serra (ouviram?, na serra!), a modorra me venceu. A bem da verdade e, olhando em retrospecto, eu não faço a menor ideia de como possuo um diploma de graduação, uma vez que para merecê-lo tive de frequentar a Ilha do Fundão durante quatro anos, aquele cantinho arejado e agradável no coração do Rio de Janeiro, só que ao contrário. Porque há comprovação empírica por meus pares: eu fico completamente idiota no calor. Completamente incapaz de articular frases mais complexas que “alguém liga o ar-condicionado, por favor”, quanto mais de ler Virginia Woolf. Voltarei a Orlando no inverno rigoroso que há de vir. Oremos.

Acabei dando de cara com uma edição de Jane Eyre numa banca de jornal. Romance vitoriano, com uma pegada gótica. Ou seja, cheio de roupas pesadas, castelos escuros, chuva, lama, vento e charnecas. Dá para pensar num cenário pior do que uma charneca para se ler  no meio do verão? De todo jeito, comprei o livro. A indicação de uma amiga ficou na minha cabeça: “Você tem que ler Jane Eyre, Gabriela, é a sua cara”.

A curiosidade venceu o medo, ou qualquer outra frase de efeito do tipo. Agora vejam a situação. A pessoa aqui está há oito anos dentro de uma faculdade de Letras. Uma graduação, um mestrado e parte de um doutorado. Li mais crítica literária do que gostaria e mais Teoria do que os padrões recomendados pela OMS para o bem estar social. Tudo isso para apresentar esse tipo de comportamento aqui na hora de ler Jane Eyre:

É verdade: incorporei o espírito folhetinesco. Não consegui parar de ler o livro até que terminasse, e, depois disso, fui atrás das adaptações para cinema. Só falei em Jane Eyre durante uma semana, para a desesperança dos meus amigos. E sempre em termos de discussão tão relevantes quanto os usados no curso de Literatura para Porteiras d’O Gato Fedorento. Se eu ainda não havia começado a resenha até então, imaginem que a partir dessa confissão a coisa vai  mesmo ladeira abaixo.

Posso até culpar o calor novamente pela transformação da minha massa cinzenta em vatapá, mas, a bem da verdade, eu até que sou dada a chiliques do gênero. Seja por implicância, fastio ou mesmo por identificação com a leitura. E não demorei muito para descobrir o que minha amiga queria dizer com “esse livro é a sua cara”.

Fui apresentada, logo na primeira página do capítulo inicial, a uma Jane Eyre criança que, de cara, já está levando esporro por não ser exatamente a menina doce e agradecida que sua tutora esperava que ela fosse. A cumplicidade com a órfã começou ali. Chutes, pontapés e maus-tratos depois, a menina é enviada para uma dessas escolas de caridade de romance inglês em que meio corpo discente morre de tuberculose antes que o inverno termine.

Lá a garota acaba aprendendo uma espécie de submissão de fachada para sobreviver. Afinal, não basta ser órfã, pobre e mulher no século XIX: é necessário que seja feia. Está certo que não ser ser candidata à Rainha da Charneca serve para enaltecer as outras qualidades que ela teria, em detrimento à beleza. Mas o fato da maioria dos personagens fazer questão de frisar essa informação linha sim, linha também é de uma sacanagem infinita.

Enfim, Jane sai finalmente da escola e arranja emprego como preceptora de uma menina também órfã, numa dessas mansões de romance gótico que têm loucas no sótão e tudo. Sério, há mesmo uma louca piromaníaca presa num sótão sem janelas. Foucault provavelmente reprovaria as condições de tratamento de Bertha Mason… mas, para fins narrativos, não é fantástico ter uma louca no sótão? Não é o tipo de coisa que gruda em nosso imaginário?

Daí é aquela coisa: todo o desenvolvimento a atração de Jane pelo patrão esquisitão que curte um travestismo. Acabei de pensar que os possíveis fãs do livro me queimariam em praça pública por esse último comentário. Apresentar o casmurro e, ainda assim, interessantíssimo Edward Rochester como “o patrão esquisitão que curte um travestismo” talvez seja mesmo uma descrição um pouco pesada, embora pertinente. E tudo bem que o travestismo disse respeito só à cena da cigana, mas mesmo assim…

A levada depois fica óbvia: há romance e a impossibilidade de concretização do mesmo por conta de um Grande Segredo escondido. Há a  fuga e abandono de si à sarjeta – ainda que as charnecas não tenham sarjetas, mas considerem sarjetas metafóricas. Depois há ainda o momento “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, em que a órfã fica ryca. E, por fim, depois de uma tragédia, há o reencontro da feia com “meio”  patrão esquisitão. Todo mundo feliz, embora de uma maneira muito bizarra, e fim. O que me leva a pensar no que é que tinha na água que passava pela charneca das Brontë, mas enfim.

Conversando por e-mail com a amiga que me indicou o livro, ela fez um aparte engraçado, e espero que não se zangue por eu transcrevê-lo aqui: ”(…) este romance é um perigo! Leva mocinhas inocentes a acharem que só elas entendem os esquisitões e podem converter os mauzinhos que odeiam a humanidade – mas as adoram porque elas são diferentes – em pessoas felizes.” Substituindo uma ou duas variáveis menos importantes dessa equação, a coisa toda fica parecendo um pedaço da história da minha vida.  

O que provavelmente explica, mas não justifica, ficar chamando Rochester de “safado manipulador”, dentre outros termos técnicos condizentes à minha profissão enquanto esperava uma amiga na fila do cinema. Ou seja: Jane Eyre foi a minha novela das oito de fevereiro. O que certamente não desmerece o livro, é bom que se diga. Tampouco a resenhista, que sempre pode colocar a culpa no calor. No mais, gostaria que o tal curso Literatura para Porteiras me valesse uns créditos para o doutorado. Já comecei a imaginar meu seminário sobre O Primo Basílio para Porteiras.

 

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