Feliz dia do Spam, Mulher!

Print screen da minha caixa de e-mail.

Ontem acordei sabendo que teria uma tarefa a mais pela frente: livrar o meu e-mail de todo o lixo eletrônico recebido. 8 de março é uma daquelas datas críticas, que rivalizam com a Páscoa e o Natal. Meio mundo tem um e-mail para te encaminhar – geralmente envolvido em algum tipo de purpurina virtual – para te felicitar pelo dia da mulher. Recebi diversas florzinhas, coraçõezinhos e outros clichezinhos no diminutivo.

Um dos e-mails, no entanto, resume bem a questão. Foi enviado pelo marido de uma prima – que eu sequer sabia que tinha o meu endereço pessoal, para começo de conversa. Eu e outras parentas – das quais eu tampouco tinha o e-mail – fomos agraciadas com um daqueles textos apócrifos que se espalham como praga, creditado dessa vez ao Luiz Fernando Veríssimo.

Me recuso a transcrevê-lo na íntegra porque tenho amor a esse pequeno espaço na internet que chamo de meu, além de nutrir um respeito tremendo pelo escritor que jamais cometeria semelhante patacoada. Mas você não precisa de muita criatividade para imaginar o museu de cera contido naqueles parágrafos. Sabe, a grande admiração do narrador pela mulheres “guerreiras”, que para além de segurarem as pontas de uma “dupla jornada de trabalho”, ainda arranjam tempo para se cuidar e oferecer ao mundo a “dádiva da beleza”. Fala ainda sobre as “soberanas” mães, que “nos deram a dádiva da vida”.

Em resumo, para além de mal escrito, o texto é condescendente e encerra em si uma série de ideias preconcebidas sobre o que é uma mulher e como ela deve se comportar para que seja digna de elogios e reconhecimento. Da noção de que uma mulher é um bibelô ambulante ao reducionismo de que todas as mulheres são mães em potencial. O que é, convenhamos, ainda pior do que todas aquelas apresentações de power point juntas que recebemos ao longo dos anos, em todos os feriados.

Se bem que talvez esteja no mesmo nível da Fast Shop, fazendo promoção de fogão no Dia da Mulher, como meu namorado bem avisou. Ou da Saraiva, fazendo promoção de livros “sobre o universo feminino”. Fui olhar os tais livros em promoção, e não daria parte dos meus cobres por nenhum. A não ficção era composta basicamente por dicas de moda, beleza e gastronomia e a ficção… o horror, o horror. Nicholas Spark e outros autores daquilo que recentemente descobri que se chama chick-lit (mas que continuo considerando romances de banca de jornal do tipo Julia-Sabrina-Bianca impressos num papel melhorzinho). Não estou aqui pra ficar fiscalizar leituras alheias – mal cuido das minhas – mas veja: se não estou contemplada em um único livro da promoção, onde é que eu me encaixo nesse “universo feminino” proposto pela Livraria?

Resumo da ópera: aquele e-mail eu não apaguei, simplesmente. Respondi, com cópia para todos os envolvidos, pedindo gentilmente para ser retirada da lista de spam da família. O que sem dúvida foi visto como um ato grosseiro da minha parte, embora eu já esteja arrependida de ter pegado tão leve, apenas para não desencadear a terceira guerra mundial em Petrópolis. Deveria ter respondido que um cidadão que acha, em eventos familiares, que a comida aparece magicamente nas panelas, ou que as louças são auto-limpantes – porque essa é a única explicação plausível para que ele passe o tempo todo na frente da TV tomando cerveja – não deveria ter a cara de pau de mandar e-mail nenhum para me desejar parabéns por nada.

De todo jeito, e apesar da banalização da data, das promoções estapafúrdias, das rosas vermelhas distribuídas, dos manés que nos mandam spam… ainda assim o Dia da Mulher é necessário, nem que seja para lembrar dos desafios passados e abrir pontes  para superar os que ainda estão por aqui. Há quem ache mais simpático comemorar a data como flores, compartilhamentos de fotos fofinhas no facebook, textos apócrifos e vídeos do Emílio Santiaago entoando Mulhe-er (gente, já deu!).

No entanto, não é com simpatia que se chama atenção para o fato de que muitas de nós ainda não recebem o mesmo salário que homens quando desempenham as mesmas funções. Não ocupamos tantos cargos de chefia, sofremos com a violência doméstica, não somos donas de nossos próprios corpos, a lista prossegue. O dia, pois, não é “feliz”. Mas ainda sim é nosso.

 

Ps – Um amigo me mandou ontem esse tumblr, com mais exemplos bacanérrimos (só que ao contrário) de “homenagens” ao Dia da Mulher.

 

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6 comentários sobre “Feliz dia do Spam, Mulher!

  1. Por falar em chick-lit: não me lembro agora qual foi o filme ou episódio de série em que um personagem livreiro (seria bibliotecário? é possível) explicava a uma amiga: “Isso já era. A onda agora é clit-lit”.

    Deve ser melhor.

  2. Esse tumblr é maravilhoso!
    Será que já fizeram algum estudo sobre essas “homenagens” do 8 de março?! Dava um bom caldo, pelo menos poderiam tentar descobrir a razão para tanta babaquice hahahaha

    Seu post como sempre, excelente! :)

  3. Você tem razão em tudo o que diz. Também detesto esses spams (pôneis malditos!) na minha acixa de e-mail e juro: sempre hesito muito antes de dar meu e-mail a alguém. É como se fosse dizer “eu te amo”, só que ao contrário, sabe?
    Abraços.

  4. um blogue bem delicioso o seu! Bons resultados para seu mestrado!!
    escreve muito bem e mostra ter bons conhecimentos!! Continue com esse Humor fino!! Leia o Aquilino Ribeiro para sentir como uma trama pode mesmo ser densa!! Abraços

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