E o diabinho saiu de férias – o desafio “No Cry”

- Você tem um diabinho na garrafa no lugar do coração, Gabriela.

Essa é a punch line do Romulo, meu amigo há mais tempo do que o recomendado pela OMS para uma vida saudável e feliz. Aparentemente serve para justificar qualquer comportamento que eu tenha ou coisa que eu diga que o contrarie. Um exemplo clássico que ilustra essa tese foi a vez que fomos assistir Sempre ao seu lado. Melhor dizendo, a vez que Romulo ficou enchendo a minha paciência durante horas para que fôssemos ver esse filme numa tarde petropolitana qualquer.

O filme conta a história de um cachorrinho que vai todos os dias esperar o Richard Gere na estação de trem –  bicho esperto! – até o dia em que o dono tem um piripaque no trabalho, morre e, consequentemente, não volta para casa. Eu não sou exatamente fã de filmes com a temática “O Menino e seu Cachorro” porque, vejam, eu morro de medo de cachorros. Fui atacada por um quando era pequena e até hoje mesmo aquelas raças de quilo e meio me deixam paralisada de pavor.

Se serve de agravante para o caso, digo que era uma cópia dublada, o que acentuava o climão Sessão da Tarde. Por fim, como golpe de misericórdia, o elenco contava com Jason Alexander: de quem foi a ideia absurda? O chefe de casting tava lá, todo pimpão, fazendo as contas e vendo quanta grana sobrava para o elenco de apoio, uma vez que o Richard Gere deve ter consumido uns 80% do orçamento total do filme – e ainda tinham que comprar  a ração do cachorro. Porque só pode ser do desespero que alguém resolve associar filmes inspiradores de amizade entre homens e animais  ao George Constanza. Como levar a sério? Eu passei o tempo todo resmungando enquanto o Romulo chorava em seu lencinho bordado. Uma prova cabal de que eu tenho um diabinho na garrafa no lugar do coração.

Corte de câmera para hoje, um sábado tedioso em que estava passando tempo na internet, evitando terminar um conto no qual estou trabalhando desde cedo – coisa que estou fazendo com relativo sucesso até agora, cerca de três horas depois. (Para procrastinar a escrita eu até… escrevo, é impressionante.) Acabei descobrindo um tal No Cry Challenge no youtube. Um sádico usuário compilou 19 vídeos para machucar os corações.

Vamos aos fatos. 19 vídeos, quase uma hora e meia de apelação aos seus dutos lacrimais. Só faltou a morte da mãe do Bambi e o curta sobre o conto de Andresen  (maldito!)  A pequena vendedora de Fósforos; de resto, todos os clichês sentimentais marcam presença. 9 vídeos falando sobre a morte, 6 animações, 5 com cachorros, 5 sobre a relação entre pais e filhos, 3 sobre histórias de amor, 2 sobre soldados voltando para casa, 1 sobre esporte e superação pessoal. É possível que eu tenha feito as contas que nem a minha cara, mas deu para entender onde quero chegar com isso tudo. O desafio é capcioso – atira para todos os lados. Em alguma esquina ele vai te pegar e aí, meu amigo, é só correr pro refrão fácil: agora aguenta, coração.

Alguns vídeos são bastante conhecidos – passei por cima desses para evitar o chororô desnecessário. A morte de Mufasa em O Rei Leão, a cena final de Meu cachorro Skip (de vez em quando até eu choro em filmes de cachorrinhos, ok?) A sequência que mostra a vida de Carl e Ellie em UP  *lencinhos, por favor* e o final de Toy Story 3, que me fez sair do cinema com aquela cara de ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais.

Mas é justo dizer que eu realmente pensava que poderia resistir bravamente por alguns vídeos. Sabia que não venceria o desafio, mesmo pulando oportunamente toda a rasgação de seda emocional – na qual eu caio lindamente, não me levem a mal – da Disney/Pixar. No entanto, aos 4 minutos do primeiro eu já havia falhado, e miseravelmente. O diabinho resolveu sair de férias, bandido, e deixou meu coração de estudante no lugar.

Digam aí que não estou desidratando sozinha, que minha reputação não está ameaçada, que vocêstambém se lembram de ter assistido o episódio de Fresh Prince na época, e ficaram com morrendo de pena do Will. Digam também que meu diabinho vai voltar com um bronzeado e muito pique para o próximo ano de trabalho árduo. Encostem suas cabecinhas no meu ombro e chorem que hoje estou brega, crianças.

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4 comentários sobre “E o diabinho saiu de férias – o desafio “No Cry”

  1. Mas nem fodendo que vou assistir essa porra. Criancinhas famintas, campos de concentração, o Mufasa morrendo e tudo mais eu aturo, mas não há nada nesse mundo que possa me fazer assistir o video do cachorro que vai ser sacrificado. Já fiquei sem dormir só por ler o título.

    Sobre o filme, em minha defesa, devo dizer que ele é baseado em uma história real e que o cachorro espera a volta do dono todos os dias na estação até morrer, quase dez anos após a morte do dono. Só mesmo alguém sem coração pra não chorar com isso.

    E eu não digo que você tem um demônio engarrafado no peito por qualquer coisa que me contrarie. Apenas por aquelas que são frutos da sua COMPLETA E IRREMEDIÁVEL FALTA DE CORAÇÃO.

    O fato é que, tendo ele saído para o feriado ou não, você tem um diabinho na garrafa no lugar do coração.

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