A vaca pedante e a terapia de choque

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PEDANTE, Vaca. (2012) p.234

Minha avó tinha várias frases de efeito, um catálogo mental de sabedoria popular para empregar nas mais diferentes ocasiões. Lembro-me de ouvi-la dizer, mais de uma vez que  “ é quando a água bate na bunda que se aprende a nadar”. Bonito, não? E, se eu for parar para pensar, de uma literalidade absurda, uma vez que a ideia pedagógica do meu pai, para me ensinar a nadar quando eu tinha uns 4 anos, consistia em me jogar em uma piscina funda e pular atrás. Mas isso não vem ao caso.

Dia desses eu assistia um vídeo no Facebook. Era uma fala do Neil Gaiman como, sei lá, paraninfo de uma turma que estava se formando em alguma universidade. Todo mundo de beca, capelo e ele também paramentado, fazendo aquele tipo de discurso bonito que talvez sirva de consolo enquanto as dívidas do mundo adulto continuam chegando e os recém-formados têm que trabalhar a preço de banana, ou fora de suas áreas ou, o que é bem mais provável, as duas coisas.

De todo jeito, lá pelas tantas, Gaiman fala sobre o medo que tinha, no início de sua carreira como jornalista, de descobrirem que ele era uma fraude. Em tom de piada, dizia-se receoso de que alguém batesse na porta dele e dissesse: olha, finalmente entendemos tudo, o senhor não passa de um embuste. E de como teve que ignorar essa sensação para continuar fazendo o que queria fazer. A única coisa que posso dizer a respeito é que se a originalidade fosse uma doença grave eu certamente seria imune e desse mal não morreria, porque a sensação me soou escrotamente bastante familiar.

Eu não me encaixo exatamente na definição de pessoa tímida. Sou razoavelmente sociável e não costumo morder estranhos, exceto quando estes se comportam mal. Para além disso, fiz 9 anos de teatro, e, durante esse tempo, um sem número de peças. Não que eu fosse uma grande atriz – longe disso, na verdade –, mas, ao menos, não tinha o menor medo de palco, e olha que já eu já me vesti de galinha. Sim, de galinha, sério. Bico, penas, rabo. Por uma temporada inteira. (Não, não vou mostrar foto nenhuma, beijos.) No entanto, basta que alguém diga que preciso me apresentar em algum evento na faculdade para que eu entre em parafuso.

Considerando o fato de não ser exatamente uma caloura, não dá pra dizer que esse é o tipo de ansiedade provocada pelo medo do que é novo. São quase 8 anos nessa brincadeira. 4 de graduação, 2 de mestrado e 2 de um doutorado em curso –  pensando em desistir a cada aparição em público. Fui evoluindo, é verdade. Na graduação eu travava durante as apresentações, um autêntico bicho do mato. E, por mato, é claro, subentende-se Petrópolis. As palavras fugiam e eu sentia vontade de sair correndo para chorar no cantinho.  O mais ridículo é que nessa mesma época eu dava aulas para turmas de pré-vestibular com 40, 50 alunos… ao mesmo tempo que não conseguia falar aos meus professores ou colegas.

O mais estranho é que eu nem posso dizer que experimentava uma questão de idealização da academia: muitos professores diante dos quais gaguejei eram tão importantes para a minha formação quanto o comportamento das abelhas na Europa Oriental durante a queda da União Soviética. E muitos dos meus colegas falavam com tanta propriedade de temas tão relevantes (e cheios de sentido) quanto. Mas enfim, eu entendo tanto sobre psicologia quanto sobre as tais abelhas.

No mestrado eu aprendi a fazer seminários. Quer dizer, aprendi a vestir a personagem que desfiava roteiros enormes sobre livros, teorias e interpretações para fazer passar duas horas e meia com alguma naturalidade. Para manter o estado de espírito, criei a fantasia  de sempre estar apresentando colóquios na Casa Verde de O Alienista, e já que Simão Bacamarte havia nos condenados todos nada que eu dissesse poderia ser ainda mais desautorizado. A estratégia de ser uma lunática falando a outros deu tão certo que, certa vez, ouvi uma moça, com quem tive uma discussão em um desses seminários, dizer a uma amiga que eu era uma vaca pedante. De bicho do mato a vaca pedante, essa foi a minha apoteose, Brasil.

Apesar de ter recebido e incorporado esse novo epíteto, as coisas não ficaram mais fáceis. É quase o mesmo sentimento de ir para a quinta série, ter trocentos professores diferentes e não poder mais chamar nenhum deles de tio ou tia. Cafona, eu sei, mas é a sensação. A cada desafio novo uma nova crise nervosa. A última delas nessa semana, minha primeira participação de mesa plenária em um colóquio, com a preparação emocional de aluninha de iniciação científica. Às vezes eu penso que minha questão não deve ser de autoestima baixa, mas justamente o contrário, porque só se eu me achasse muito relevante (ainda que para o mal) para pensar que tem gente atrás de mim pronta para dar o bote em qualquer deslize que eu dê, aproveitando a oportunidade aos quatro ventos que não, eu não tenho o direito de estar onde estou.

E que, inclusive, os conspiradores vieram reunindo provas ao longo dos anos para caçar todos os meus diplomas, me deixando como única opção a ideia destrambelhada de uma amiga, que disse certa vez que eu deveria largar tudo, arranjar um emprego ruim num motel de beira de estrada nos EUA e escrever um romance. Quer dizer, o motel de beira de estrada e os EUA são por minha conta, porque afinal esse é um projeto de vida muito Pergunte ao Pó. Só ideia que dá dinheiro, impressionante. Se um dia eu parar de postar de vez será porque não saberei a senha do wifi que pegará debaixo da ponte.

Pois então, o colóquio. É claro que não dormi na noite interior, bem como não parei de modificar o texto até que me sentasse à mesa, e mesmo durante a leitura – o que deixa a coisa toda meio esquizofrênica. É também claro que essa deficiência de melanina no meu organismo não me ajudou em nada: quando fico nervosa meu rosto todo acende. Chamem os bombeiros, gritou Zelda. Alegria: algoz inesperado. Alegria, só que ao contrário no meu caso, Ana. A mesma vontade de sempre que o chão se abra para me tragar, eu já devia estar acostumada, mas não estou.

Então me lembrei subitamente da minha avó. Isso porque na mesa anterior um rapaz começou um texto muito bonito falando umas coisas super poéticas sobre a avó dele. E eu lá, com a história da minha avó envolvendo água, bundas e o mundo como professor. Eis o tamanho do abismo da inadequação. Foi a outra professora na semana anterior dando uma aula escandalosamente erudita sobre o barroco e eu aplicando grande parte das considerações à linguagem dos videogames, mentalmente, claro, e depois as pessoas perguntam por que é que eu não sou uma aluna participativa, mas como explicar que eu acho a estética do século XVII pode muito bem ter influenciado jogos como Heavy Rain? Difícil. Talvez meu pânico de eventos públicos na academia seja justamente o fato de que não posso ser nem um pouco como eu sou, e esconder minhas associações dá mais trabalho no mundo da fala do que no mundo da escrita. Afinal tenho  blog para quê, se não para falar abobrinha?

De todo jeito, terapia de choque. A água batendo na bunda. Já que não havia jeito, fui lá e falei. E até achei cara de pau para explicar que sim, eu era a única figura realmente nervosa em 3 dias de colóquio, que aquela era minha primeira mesa plenária, que a professora ao meu lado tinha fama de rigorosa e eu temi ver minhas vísceras sendo expostas e assadas na grelha da degradação acadêmica – claro que isso eu resolvi omitir.

A apresentação, por fim, não foi nada brilhante, mas também esteve longe de ser a Cloaca da Vergonha Pública que achei que a coisa tinha potencial para virar. No fim das contas, na hora de responder as perguntas eu já era eu de novo e, se bem me lembro, nem passei vergonha, o que me deixou bastante satisfeita. Tenho certeza de que no próximo não enrubescerei. E já estou arquitetando um plano de carreira: quem sabe se em uns dois ou três anos eu não consiga virar a Vaca Pedante dos Congressos, Colóquios, Comunicações, Piquetes, Festinhas Infantis. É um nicho a ser explorado. Por enquanto, continuo por aqui, ruminando meu capim e feliz da vida porque mais um evento na faculdade acabou e eu sobrevivi. Agora é só respirar fundo para compor uma monografia e um projeto. Que são, felizmente, entregues por escrito.

Update: agora de tarde, a Luara, do Isaac Sabe, me mandou esse link aqui com o seguinte comentário: “Gente, o inconsciente coletivo é uma coisa! Acabei de ler seu post no blog, vi o Gaiman e agora isso! rs”. Santa coincidência, Batman. :)

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7 comentários sobre “A vaca pedante e a terapia de choque

  1. Eu sou igualzinha. Só que ao contrário. A única hora em que você vai me ver livre de ansiedade social é quando estou em uma apresentação acadêmica.

    Hoje eu saí de casa tremendo com medo de minha defesa do doutorado, mas não era medo da arguição, meu medo era o notebook queimar ou as comidinhas do café não serem entregues a tempo…
    Depois que o notebook funcionou e as comidas chegaram, passei quatro horas falando calmamente a respeito de simbolização, possibilidades lógicas e empíricas,aprendizagem relacional e outras bobagens. Me sentia totalmente zen, apesar de – supostamente – as questões serem difíceis.

    É possível que a ciência tenha mais dificuldade de explicar o meu caso que o seu, Gabs…

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