Ouvir estrelas

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Noite estrelada sobre o Ródano – Vincent Van Gogh (1888)

- Tenho essa lembrança de um churrasco da faculdade. A família de um amigo morava na praia, numa daquelas casas infinitas que são capazes de abrigar quantos colchonetes sejam necessários. Já era de madrugada e, quem não estava dormindo, estava chapado o suficiente para não fazer muito sentido. Eu me sentia um pouco enjoado e decidi deitar em uma das espreguiçadeiras de plástico no deck da piscina, para ver se o ar da noite ajudaria. E foi então que eu vi: um céu realmente estrelado, um céu de documentário do Discovery Channel.
– Ah, vá, Jorge. Jura que só foi ver estrela na faculdade?
– Não daquele jeito, eu nunca fui de acampar nem nada. Sempre achei que para ver um céu daqueles você precisava ir para algum lugar muito remoto ou para um planetário. Tô acostumado com meia dúzia de estrelas raquíticas aqui e ali… mas aquilo era a porra da Via Láctea em todo o seu esplendor.
– Cara…
– Ok, talvez seja exagero. Mas era muita estrela, pelo menos pros meus parâmetros. E naquela cidadezinha mequetrefe que ficava a uma hora de carro do campus, saca? Descobri naquela noite que não precisava ir muito longe para ver o universo.
– E aí?
– Aí eu chorei um pouco, porque era a coisa mais bonita que eu tinha visto na vida. E depois vomitei no deck.

- Quando eu era pequena tinha medo de olhar para cima durante a noite. Meus pais e minha avó moravam em casas geminadas e eu lembro que quando precisava passar de uma para outra eu ficava com os olhos fixos nas chaves para não ver a noite.
– Mas do que é que você tinha medo?
– Não era bem medo, era nervoso. Não do escuro, ou das estrelas em si, mas do efeito provocado pela combinação das duas coisas. Com o dia claro se podia ver o sol e o céu azul e mais nada, parecia que tudo terminava ali. Acho que as estrelas davam uma noção de profundidade no céu que me deixava desconfortável. Era mais do que o olho podia capturar e muito mais do que eu podia entender.
– Você provavelmente não elaborava assim na época, Loris.
– É claro que não, besta, é só uma suposição. Mas lembro de não me permitir olhar pra cima, e agarrar o molho de chaves com tanta força que minha mão sempre ficava cheirando a metal.

- Um troço que me deixa cismado: a criatividade que as pessoas tinham para nomear constelações.
– Sempre pensei nisso, sabia? Como é que alguém um dia olhou pro céu e disse que hum, aqui estou vendo uma Ursa Maior, a Ursa Menor e essa meia dúzia de estrelas aqui meio que fazem o contorno de uma hidra?
– Já sou ruim para enxergar formato em nuvem, quanto mais em pontos de luz aleatórios.  O Cruzeiro do Sul deve ser a única exceção.
– Justo. Se a nossa vida dependesse da navegação por estrelas você sabe que a gente não iria longe.
– Eu não consigo nem achar os pontos cardeais sozinho. Mas tenho certeza que deve ter um aplicativo pra isso.
– Então vamos ter que instalar um monte de tomadas na nossa caravela.
– Sem dúvida.

Método

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Achei as anotações que procurava debaixo da cama, mas há outras, que sequer me lembro de ter perdido. Há post-its pela casa, lombadas descolando, fotocópias desencadernadas – os gatos gostam especialmente de brincar com aquelas molas, caçando-as como se estivessem vivas. Tropeço em pilhas de livros e xícaras sujas de café enquanto penso em jardins, biografias, erotismo, na arte que enfrenta a morte e na imagem de um cão soterrado por uma duna de areia – mas não me afogo.

Porque percebo que ainda estou buscando respostas para questões que me coloquei há 15 anos (não estou dizendo que é muito tempo, mas eu tinha a impressão de que era outra pessoa, e já não tenho certeza). E porque há essas ideias, alheias ao caos que eu produzo, que vão encontrando o caminho na ponta do meus dedos, como se já estivessem destinadas a nascer. Ou é o contrário, e o que escrevo me define a partir de agora e talvez daqui para frente, ou até que eu arranje um novo conjunto de obsessões. Se é que a essa altura do campeonato é possível arranjar um novo conjunto de obsessões. E eu que me queria tão distanciada – e séria, sobretudo séria, porque eu invejo gente séria de vez em quando – descubro que finjo melhor na ficção do que na crítica.

Entre o arrebatamento e o método: o Grande Hotel Budapeste

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I

Estruturas me fascinam. Bobinas e correias, graxa e engrenagens, resistências e quadros de luz. Raios X de pinturas famosas. Maquetes. Documentários. Teoria Literária. Diários. O Centro Georges Pompidou. Notas de composição. Coxias de teatro. Truques de mágica revelados. O que não diminui minha incessante busca por maravilhas.  E acho uma bobagem quando ouço algum artista dizer que tive um relâmpago de inspiração e as obras mais geniais saíram de suas cabeças como um espirro. Que é possível ficar de pé em febre criativa uma noite toda e escrever os poemas que compõem O Guardador de Rebanhos quando admitir que aquilo deu um trabalho do cão para parecer tão espontâneo é muito mais bonito.Porque quando uma música realmente me toca eu não quero saber do esquema rítmico, mas apenas dizer “mas que coisa impossível, que prodígio”. E quando eu entro em uma catedral sei que de nada me adianta o conhecimento livresco sobre arcos e simbologias de vitrais para amenizar minha pequenez diante de um edifício que está de pé há 800 anos. Mas passado o momento em que as palavras me faltam eu volto para casa e me ponho a pesquisar.

II

Me sinto cooptada por obras que fabricam uma forma, que deixam as estruturas aparentes ou que, ao menos, não trancam os alçapões ou enchem de pregos suas portas dos fundos para que possamos desbravá-las. Há quem diga que a artificialidade afasta o espectador e impede a imersão; eu, pelo contrário, tendo a achar que é o melhor caminho para fazer do espectador um cúmplice. Apontar o dedo e dizer: isso é engenho, veja, e ainda assim você está aí parado com essa cara de bobo – vem comigo, vamos brincar mais um pouco.

III

Essa minha preferência para o jogo cênico em detrimento das pretensões de realismo vale para tudo, é  claro, mas estou pensando em cinema, uma vez que ontem fui assistir O Grande Hotel Budapeste, último filme de Wes Anderson. Anderson está no centro dessa minha predileção junto com outros diretores como Michel Gondry, Jean Pierre Jeunet, Terry Gilliam. Ou alguns filmes específicos como o Hugo Cabret, do Scorcese, Waking Life de Richard Linklater e Peixe Grande, de Tim Burton. E embora tais filmes, em sua maioria também flertem com uma aura de fábula com final feliz – ou ao menos até quase o final, como Maria Antonieta de Sofia Coppola – o engenho também pode ser aplicado a histórias terríveis como Brazil, de Terry Gilliam e O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro. Mesmo o Grande Hotel Budapeste, baseado em escritos de Stephan Zweig, talvez seja o filme com o final mais agridoce do diretor que usava filtros do Instagram em seus filmes antes do Instagram ser uma rede social.

IV

Na imaginária República de Zubrowka, um paiseco do leste europeu, havia um suntuoso hotel no alto de uma montanha. Demolido no final do século XX, conheceu o esplendor da belle-époque até que a guerra o transformasse em quartel e, no pós-guerra, a decadência fosse se infiltrando no cenário opulento. Um escritor, nos anos oitenta, relembra uma visita feita nos anos sessenta ao Grande Hotel Budapeste, já então uma magnífica ruína. A trama é costurada por um voiceover que simula os recursos discursivos presentes no livro escrito pelo escritor. Durante a visita conhece o proprietário Zero Moustafa, que decide contar a história ao escritor. O filme então retrocede ainda mais no tempo para narrar a história de Zero quando este era apenas um lobby boy sobre o treinamento do concièrge M. Gustave – maníaco por detalhes, amante de poesia (e ainda sim dono de uma boca muito suja quando perde a compostura) e Don Juan profissional das velhinhas ricas e inseguras que se hospedavam no hotel tão somente para usufruir de sua companhia. Segue um plot de aventura, romance, viradas rocambolescas e, bem, isso não importa porque é o de menos, convenhamos.

As obsessões de Wes Anderson estão todas lá. E ainda que eu consiga entender que seja possível achar a repetição estilística de seu arsenal um troço sacal, eu bato palmas não apenas pela marca, mas pelo refinamento da técnica. Ao contrário dos últimos filmes do Tim Burton que parecem uma versão diluída e requentada (a famosa sopa de pedra) do estilo que se tornou sua marca três décadas antes, o cinema autoral de Wes Anderson é um caldo que só engrossa. (A metáfora com a sopa é terrível, eu sei, mas estou escrevendo esse texto na hora do almoço e eu decidi escrever em vez de passar no supermercado, deem um desconto) Mas sim, não à toa a internet fez uma cartela de bingo para os filmes do diretor: tudo está lá, da paleta de cores ao elenco que parece nunca sair da folha de pagamento da produção – e BILL FUCKING MURRAY -, às miniaturas, animações, fantoches, enquadramentos simétricos, divisão em capítulos, Edward Norton em uniformes ridiculamente deliciosos… preciso mesmo continuar? No entanto, o ritmo está melhor do que nunca, o timing da comédia visual e das punchlines idem. O equilíbrio entre a comédia e uma certa melancolia que perpassa todo o filme também.

E quando, em uma das últimas cenas, Moustafa diz ao escritor que não manteve o dispendioso hotel pela memória de Gustave, porque “para ser franco, acho que seu mundo tinha desaparecido muito tempo antes que nascesse – mas, vou dizer: ele certamente sustentou a ilusão com graça!” não há como não pensar que essa seja a maior afirmação a respeito do próprio Wes Anderson e de suas reconstituições sonhadas e idealizadas não do passado que não viveu, mas um em que gostaria de ter vivido.

V

Esse duplo movimento em direção ao êxtase provocado por uma obra e a sua subsequente análise me faz pensar que o caminho mais interessante  talvez esteja escondido em algum lugar entre o arrebatamento e o método. E que gente como Wes Anderson (e não, por ora não continuarei com minha lista) ajuda a pavimentá-lo.

 

Porque massa de modelar não cai do céu

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Uma vez sonhei que eu estava tentando montar um quebra-cabeças complicado. Eu adoro quebra-cabeças, mas não sou muito paciente, e não conseguia avançar. A tarefa me exasperou a tal ponto que joguei a caixa com as peças para o alto. Quando caíram no chão não eram mais peças de papelão, mas massa de modelar, e assim pude juntá-las.

(Pausa para dizer que eu até gostaria de ter sonhos complexos e super simbólicos que virassem pauta para comunicações em congressos de psicanálise, nos quais eu teria meu nome abreviado e os psicanalistas passariam horas debatendo as neuroses da paciente G.V., mas meu subconsciente é meio idiota, sabe. Meus sonhos ou são colagens sobre desejos e banalidades diárias ou são metáforas safadas como essa do quebra-cabeças. Mas enfim.)

A compreensão das coisas nunca me chegou como um processo em linha reta, com o rigor do método científico e a racionalidade que tanto admiro no pensamento alheio. Assim como na época em que eu não conseguia pontuar nos problemas matemáticos da escola porque sabia as respostas mas não conseguia desenvolver o raciocínio matemático, o mais provável é que eu sempre enxergue um borrão e me angustie e pense que não há saída, que é difícil demais ou inútil, que atingi meu limite ou que o melhor a fazer é recomeçar. E então um dia estou tomando banho ou batendo um bolo ou jogando videogame e as coisas se encaixam, as respostas que eu procurava começam a dançar na minha frente e  talvez eu bata com a esponja, a espátula ou o controle na testa e me xingue um pouquinho por não ter percebido como era óbvio ou simples e, sobretudo, como era possível.

E não consigo deixar de pensar que meu vício por epifanias reflete o fato de eu não ter “aprendido a pensar do jeito difícil” – seja lá o que isso signifique.

Eu poderia ceder à tentação de me sentir culpada e imprestável, mas não, não mais. Porque não vou confiar nas metáforas safadas do meu inconsciente idiota. E porque massa de modelar não cai simplesmente do céu, e ainda assim as peças parecem começar a se encaixar.

 

Carta à avó desconhecida

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Claire Fisher – Six Feet Under (HBO)

Um post com trilha sonora.

Minha mãe ligou para avisar que você morreu. Não senti vontade de pegar o próximo ônibus e viajar a noite toda para chegar a tempo do seu enterro. O que eu poderia dizer? Você não pode me ouvir na morte mais do que não podia ouvir em vida. Nós nunca nos conhecemos. Eu não sei quantos anos você tinha, mas isso é o de menos. Sequer me lembro qual foi a última vez em que nos encontramos – em parte porque fiquei realmente boa em evitá-la.

Agora que você está morta sinto a necessidade de te escrever. Agora que você é tão somente a ideia e a versão que faço de você. Agora que posso reduzir sua complexidade para lidar com os aspectos em mim que me incomodam e me impedem de dormir. Para alguém que vivia reclamando do seu egoísmo não deixa de ser uma grande ironia, é claro. Você está morta e está tão perdida para mim quanto esteve ao longo de toda a vida; por isso te escrevo, em vez de “escrever a você”, e não poderia ser de outra forma.

Mas não o faço por culpa. Tampouco por pesar ou vontade de consertar as coisas. Assim como não é caso de perdoar ou pedir perdão. Não há lição de moral a ser aprendida. Há apenas um domingo, não faz muito tempo, em que voltei a pensar em você e descobri, com surpresa, que já não te odiava. E a verdade é que eu preferia me sentir mesquinha a seu respeito, ou que preferia deixar de te odiar apenas quando você já tivesse morrido, e não antes, porque então eu pareceria magnânima e não me sentiria estúpida mas, bem, meu timing é sempre complicado.

Aquele domingo me deu elementos suficientes para formular hipóteses sobre a avó que você foi para mim – e, acima de tudo, a mãe que você foi para o meu pai. E ainda que esse súbito entendimento tenha afastado minha raiva, não pude – não, na verdade não quis – fazer nada a respeito. Era tarde demais para nós, acostumadas aos papéis que designamos uma para a outra. Eu, a neta desgarrada, você, a avó desconhecida. Mas essa era apenas a nossa relação. Ninguém é tão unidimensional a ponto de ser apenas a faceta que se mostra a alguém. Sei que  há filhos e netos (e talvez amigos e vizinhos) chorando a sua morte. E sinto por essa dor, ainda que não consiga me relacionar com ela.

O ódio que eu sentia por você  (e sentia com tanta força!), com o tempo, foi substituído pela urgência. O conceito da avó desconhecida me fez entender a precariedade e a beleza dos laços que estabelecemos com outras pessoas, partilhem elas ou não nosso sangue. E ainda que não vá te agradecer por isso, devo reconhecer que essa ausência que você representa me dá perspectiva e responsabilidade, e me faz tentar ser uma filha, neta, amiga e namorada melhor. Acho que nunca vou saber realmente, mas espero que você tenha tido um boa vida, avó desconhecida.

Agora eu continuo daqui.

Adeus.

 

 

A hora das indulgências

Chagall - O circo azul

Chagall – O circo azul

Apelidei três da manhã de “A hora das indulgências”.

É hora de uma caneca de chá e das minhas playlists favoritas. É também a hora em que mundos nascem de dedos leves que, de repente, encontraram o caminho. Talvez seja o cansaço, talvez o silêncio ou quem sabe seja mesmo um presente: não vou perguntar, desconfio que saber demais pode quebrar o encanto, se há encanto, e eu prefiro acreditar que haja. As pessoas tem fé nas coisas mais variadas, eu acredito na paz que só experimento às três da manhã.

Estou finalmente sozinha comigo; todos os críticos e fiscais que moram em mim  já desistiram há muito de dizer que não estou fazendo meu trabalho direito, que eu deveria desistir daquele romance que comecei a escrever, que sou pretensiosa, mesquinha e indigna, sobretudo indigna. Relaxo. Penso que escrever uma bobagem é melhor do que escrever coisa alguma. Reviso.

Um gato pula para o meu colo e ronrona daquele jeito esquisito, como se estivesse com asma, e por um breve momento tudo parece tão certo que eu só quero viver para sempre nessa madrugada e nesse edredon, porque se há um nirvana ele deve se parece com as três primeiras horas da manhã. Mas a sensação passa, é claro, o gato vai atrás do pote de ração e preciso dormir porque há mais um dia pela frente, com todos os terrores e as falhas e as indignidades – sobretudo as indignidades.

Até a próxima madrugada. Porque três da manhã é a hora em que consigo me perdoar.

E me perdoo.

Prova de amor é desligar o celular

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Meu histórico talvez não seja o mais adequado para escrever um texto desses porque:

1) Desde que ganhei meu primeiro Walkman (e descobri o mundo mágico dos fones de ouvido) quase fui atropelada um sem número de vezes. A última foi nesse ano.

2) Quando estava na sétima série consegui um corte na testa ao bater em uma placa na rua. Eu não vi a dita cuja porque estava prestes a descobrir quem era o culpado em O assassinato no Expresso Oriente (spoiler) e achei que andar e ler eram atividades compatíveis.

3) No fim da graduação eu quase fui reprovada em uma matéria da faculdade porque eu pretendia estudar assim que acabasse de ler “mais um capitulozinho” de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Passei a noite nessa, terminei o livro e fui fazer a prova virada.

4) Mês passado quase precisei ir ao Pronto Socorro porque me cortei enquanto descascava uma maçã & assistia o episódio de uma série.

Ou seja, quando se trata de escapar de atividades prosaicas para um outro mundo qualquer, desde que mais interessante bem, eu sou a primeira a comprar o bilhete e embarcar nesse trem. Evidente que até o jogo da cobrinha daqueles Nokia-tijolinhos indestrutíveis serviria aos meus propósitos, quanto mais a internet EM TODA A SUA GLÓRIA.

Feita a devida mea culpa, gostaria de dizer que movimentos demonizadores de tecnologia costumam me irritar sobremaneira. Eu entendo que as críticas tenham lá sua validade, e eu mesmo me incluo na classe de pessoas que tem de maneirar para não passar a vida na frente de uma tela de 4 polegadas, mas essa histeria… hoje, por exemplo, o Globo (em seu site) publicou uma matéria chamada Os corcundas de smartphone . Circulou há uns meses um vídeo – por todas as redes sociais – sobre uma moça que esqueceu seu celular em casa, lembram? E há ainda imagens de estabelecimentos preguiçosos que não colocam wifi e dão justificativas de “conectar-se ao que importa”, que de quando em quando voltam a encabeçar meu feed de notícias como se fosse um conceito maravilhoso e inovador. E sim, eu faço questão de ressaltar a ironia da coisa, principalmente porque não vejo as pessoas se reunirem para discutir sobre como a internet está nos deixando alienados, esse é o tipo de discurso que produzimos online, e pelo o qual, em geral, esperamos ganhar curtidas.

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Eu sei, eu sei, esse é provavelmente o momento em que você aí do outro lado está pensando seriamente em procurar o contato da minha mãe no facebook para sugerir que ela me coloque em uma rehab digital, mas, convenhamos, a “vida real” na maior parte das vezes é superestimada. Fiz parte significativa do meu grupo de amizades por meio de blogs, foruns e redes sociais ao longo dos anos. Foi pela facilidade de encontrar pessoas com interesses parecidos com os meus que muitas vezes troquei mesas de bar reais por discussões via teclado madrugada adentro. Há pessoas que sequer encontrei pessoalmente até hoje, depois de intensa convivência online, e isso não desmerece minimamente a ideia de amizade que sinto por elas.

A internet que cabe no bolso me salva do small talk constrangedor no ponto de ônibus – é, parece mesmo que vai chover hoje, moço, mas e daí?, do tédio das longas viagens, da saudade que sinto de pessoas com quem não posso estar . Foi meu melhor companheiro no tempo que passei fora do país, porque de certa forma eu jamais estive sozinha – havia sempre alguém para compartilhar a minha experiência. Agora, de volta ao Brasil, é também um jeito de matar as saudades da viagem e me manter em contato com os amigos que fiz em outro continente.

Uma vez eu li um texto – já não consigo me lembrar qual a fonte, #AJUDALUCIANO – que basicamente dizia que nosso vício em smartphones nos priva do tédio e da frustração: com nossas pequenas doses de serotonina vibrando nos bolsos caminhamos pavlovianamente em direção à falta de foco e à catástrofe. Tá, essa última parte é invenção minha, eu acho. Mas, na boa? Se eu receber um link de um vídeo de gato no momento daquele constrangedor jantar de família em que minha tia reaça está dizendo que bandido bom é bandido morto e essa pequena distração fizer com que eu não queira fagocitar meu próprio cérebro na mesa, olha… acho que estou no lucro. Estamos todos. A minha saliva economizada agradece. Mais vídeos de gatinhos e menos interação com situações irreconciliáveis, por favor. Pelo menos a internet te dá a chance de bloquear os indesejados: na hora em que inventarem um botão semelhante para a vida offline a gente volta a conversar.

Não tô querendo dizer que me mudaria para uma fazenda nas montanhas no Second Life (?), não é isso. Principalmente agora que estou morando longe de grande parte das pessoas que me são caras, dou um valor imenso a cada possibilidade de encontro real, a cada amigo que posso encontrar e abraçar ao vivo, a cada dia em que passo sendo superalimentada na casa do meu avô. Mas acho que não dá para ignorar que nossos principais meios de conexão com outras pessoas estão mudando, e que isso não é necessariamente algo ruim. Da próxima vez em que aquele seu amigo viciado não estiver te dando atenção, tente dizer com carinho: “dá para largar essa porra e olhar na minha cara?”, sem achar que a sociedade está ruindo por causa disso. Porque não está.

Mas a patrulhinha, ah, a patrulhinha sempre vai estar por aí para nos ensinar a melhor forma de viver a nossa vida e apreciar nossas experiências DO JEITO CERTO.

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Vivemos em tempos em que desligar o celular é prova de amor. E é uma prova de amor tão boa quanto qualquer outra – e vamos ter de lidar com isso.