Se o Nirvana for um escritório eu não quero entrar lá, ou: O dia em que David Lynch partiu meu coração

Sinais de que estou chegando aos trinta anos, ou: atentem para a carga simbólica dos clichês: comprei meu primeiro pacote de granola por esses dias. Comecei a correr na esteira e pretendo, em breve, me aventurar na rua. E, ontem, fui assistir uma palestra sobre meditação, por culpa do David Lynch – que, aliás, partiu meu coração. Mas estou me adiantando, vamos por partes.

I – Uma fã de David Lynch. Uma fã da ideia de meditação e não da meditação em si, cês já tentaram?! Como faz pra desligar o cérebro!?

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Sou uma fã do trabalho de Lynch desde que eu assisti Veludo Azul em um Corujão da vida (e me causou uma impressão imensa, é claro). Alguns itens da filmografia dele estão soldados na minha lista de favoritos e eu acredito piamente que Twin Peaks é uma das melhores coisas que já aconteceram para a cultura televisiva – e, sem dúvida, toda aquela esquisitice me influencia até hoje. Por conta dos anúncios sobre a volta de Twin Peaks em 2016 meu interesse sobre o homem que tem o melhor corte de cabelo da galáxia reacendeu, e foi por isso que não pensei duas vezes ao comprar um livro que vi na livraria, escrito por ele. “Em águas profundas: criatividade e meditação” é uma série de apontamentos biográficos e sobre os diversos momentos da carreira de diretor (e de pintor) de David Lynch, mas é, sobretudo, um elogio ao estilo de meditação que ele pratica, e para o qual abriu uma fundação que se dedica a levar a prática a diversos grupos em vários países.

Pausa para dizer que a ideia de meditação sempre me agradou, ainda que eu nunca tenha feito grandes esforços para aprender qualquer técnica. Tentei um livro ou outro, para além de uma meia dúzia de arquivos de áudio com meditações guiadas ao longo dos anos, sem muito sucesso. Ou seja: assim como o arco e flecha, a dança contemporânea e a prática do violoncelo, a meditação entrou naquela categoria “atividades que admiro a distância, mas para as quais teria de nascer de novo, porque sou muito inadequada para qualquer uma delas”.

Mas daí li o texto do Lynch, quando ele fala sobre a primeira experiência com a prática que ele escolheu (e que recuso a reproduzir o nome, por motivos que serão expostos a seu tempo, mas que podem ser resumidos por: alerta de picaretagem). Ele diz:

(…) em julho de 1973, fui a um Centro de Meditação em Los Angeles, encontrei uma instrutora e gostei dela. Era parecida com a Doris Day. Foi ela que me ensinou essa técnica. Ela me ofereceu um mantra, uma vibração sonora de pensamento. (…) A instrutora me levou até uma pequena sala para a minha primeira meditação. Eu me sentei no chão, fechei os olhos e iniciei esse mantra; e foi como se estivesse em um elevador e um cabo se rompesse de repente. Boom! Caí direto na felicidade: na mais pura felicidade.

Olha, eu não sei vocês, mas eu queria que meu elevador caísse direto na felicidade também. Bem, talvez eu usasse uma metáfora menos violenta. Queria que meu corpo suavemente pousasse nas almofadas de pena de ganso da felicidade. De todo jeito, foi o suficiente. Parei a leitura e dei um google na técnica. Achei um Centro de Meditação aqui por essas bandas, e eles ofereciam uma palestra introdutória gratuita para o dia seguinte, olha só a minha sorte. 

Não que eu cultivasse a expectativa real de mergulhar na piscina de bolinhas da felicidade, mas se houvesse uma técnica simples, independente de qualquer crença religiosa (como afirma o site) e que me ajudasse a ser menos ansiosa e mais focada já seria um puta upgrade na minha vida.  Me inscrevi.

II – A negação

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Sabe quando varremos para baixo do tapete da consciência a sensação de que alguma coisa vai dar muito errado? Pois é. A palestra era na parte da noite, então, no meio da tarde, fui pesquisar como chegar ao Centro. A acessibilidade era complicada: a melhor alternativa seria pegar um taxi, porque o centro ficava em uma parte nobre da cidade, e pra quê transporte público em área de bacana, não é mesmo, minha gente diferenciada? Mas persisti. Deveria ter passado pela minha cabeça um cálculo rudimentar de quanto seria o aluguel numa área dessas? Deveria sim.

E a localização geográfica não foi o único indicador. Estranhei que, no site, ao procurar literatura específica sobre a técnica, havia disclaimers avisando que não se pode aprender a tal vertente em livros, que o conhecimento só pode ser passado por professores treinados e cadastrados pelo centro. Peraí, quê? Quer dizer que não posso ler um único texto a respeito? Que o “segredo” da técnica é guardado por meia dúzia de pessoas, das quais prescindo para poder me “iniciar”? Não era só uma técnica de meditação e relaxamento? O que os instrutores poderiam fazer, torcer meus músculos em cadeiras de tortura para que eu alcançasse alguma posição bizarra de yoga/Cirque du Soleil? Nada contra a tradição oral, inclusive respeito muito. Mas acho – só acho – que se você faz um site com depoimentos de famosos (pois é, indício número 3, eu sou mesmo uma trouxa) e páginas e páginas de benefícios trazidos pela técnica de bom tom ter uma literatura mínima a respeito, para que as pessoas possam se informar sem ter de ir assistir a tal Palestra Introdutória Gratuita.

Mas, se eu fui?  Como perder a chance de quicar inocentemente na cama elástica da felicidade? Não custava tentar, certo? Quer dizer, literalmente. Fui sim.

III – A experiência

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Cheguei faltando poucos minutos para o início da palestra. Uma atendente simpática me encaminhou para uma sala. “Estamos exibindo um vídeo, que já está terminando. Assim que o vídeo acabar o professor entrará em sala.” Ok. Entrei em silêncio, sentei na última fileira. Contei outras 11 pessoas na sala. O vídeo institucional repetia a informação divulgada no site, mesclando opiniões de famosos (inclusive o Lynch, os outros nomes não eram lá muito confiáveis), propaganda sobre os benefícios da prática e alardeando a existência de centenas de pesquisas científicas que comprovam a eficácia do método. Afora a parte dos depoimentos de personalidades da mídia (americana) – e botando a mão na consciência de que eu só estava lá por conta de uma – o tom geral parecia fazer esforço para se libertar de qualquer clichê new age. Meditação para o homem contemporâneo, sem grandes hocus pocus. Não parecia de todo desagradável.

O professor finalmente chegou, ele devia ter uns 30 e poucos anos. E estava usando um terno, gravata combinando, sapatos brilhantes. O terno me desconcertou. Não é como se eu estivesse esperando vestes cerimoniais, mas olhei para o meus tênis sujos, meu jeans largo e minha camiseta da Mulher Maravilha e me senti deslocada. Opa. Começamos mal, mas ficou pior. Ele ligou o projetor e iniciou… uma projeção de Power Point. Não sei o que eu achei que fosse acontecer em uma palestra sobre meditação, mas certamente não esperava apresentação de slides com ponteira a laser e roteiros ensaiadinhos. Mas pensei, “ok, vamos lá: a ânsia de laicizar a meditação fez com que o método ficasse parecendo treinamento corporativo. Eu posso lidar com isso, coragem!”

O professor então diz que a técnica em si é muito simples, e independe de esforço intelectual. Essa informação se provou útil para que eu conseguisse aturar uma hora de slides sem me enforcar com o carregador de celular que estava na bolsa. E me proporcionou uma satisfação interna sobre como muitas vezes as pessoas não percebem a ironia em seus próprios discursos, já que, logo em seguida, ele começou com a história de que NÓS USAMOS APENAS 10 % DO NOSSO CÉREBRO, NÃO SERIA MARAVILHOSO SE PUDÉSSEMOS USAR MAIS? 2014 e tem gente que acha o argumento plausível. (Spoiler alert: não é). Um cara sentado do outro lado da sala revirou os olhos. Nos olhamos e trocamos mensagens telepáticas sobre o que diabos estávamos fazendo ali.

A palestra oscilava entre o tédio e o nonsense. Eu não diria que a contextualização histórica tenha sido adequada. A técnica havia sido reciclada e adaptada para o homem contemporâneo pelo guru indiano X, mas a sabedoria data dos Vedas, que ele não conseguiu explicar direito o que era porque não leu antes a página da Wikipedia correspondente. Já na parte científica… a tentativa de explicar a fisiologia do cérebro era totalmente fake science, pelo menos até onde pude perceber (não sou nenhuma especialista, tão somente curiosa em relação a textos de divulgação científica, mas mesmo assim). As “comprovações científicas” sobre a eficácia do método, tantas vezes citadas, não vinham com as referências na hora de serem apresentadas na tela. De que adianta, então, colega?

E quando tudo não parecia pouco crível o suficiente, ele lançou a carta da FÍSICA QUÂNTICA. Claro, é o clichê de qualquer mutreta pseudo-científica: se você não sabe como explicar algo, use física quântica, já que é algo que nenhum leigo entende mesmo. Mas o ápice da demonstração científica foi quando o Doutor Fulano de Tal foi mencionado. Credenciais do Fulano de Tal: ele apareceu no filme de O Segredo. Constrangimento define.

Uma hora e dez depois (que pareceu um mergulho numa eternidade dolorosa, em vez do meu banho de imersão no ofurô da felicidade), o professor estava pronto para oferecer os dados do curso introdutório que nos ensinaria a técnica em cinco aulas. Nessa altura eu já estava esperando uma facada mas, mais uma vez, minha imaginação foi pouco poderosa ante o espetáculo absurdo da Realidade. O valor total poderia ser dividido em quatro parcelas de muita, mas muita grana. Nem as aulas de francês que eu queria fazer, em um curso chique, custavam tanto. Dei um sorriso enquanto a secretária me entregava a ficha de inscrição: você está louca, querida.

Meu colega de suplício levantou a mão e perguntou: “Se eu me sentir insatisfeito, posso pedir o dinheiro de volta?” Enquanto o professor explicava que não, precisava, ao mesmo tempo, ficar olhando feio para mim, que não aguentei e dei uma risada. Nós dois fomos os únicos a entregar a ficha em branco, e os primeiros a sair. A secretária resolveu economizar na simpatia e não se despediu de nós. Já do lado de fora, ao menos eu tinha um coleguinha para comentar os absurdos que havíamos ouvido. E uma “carona a pé” até o ponto de ônibus mais próximo, já que eram quase 10 horas da noite e, apesar de estarmos em uma área nobre, quem é que não tem medo de andar no escuro, certo? Eu pelo menos estava a dois ônibus de casa. Descobri que o pobre coitado ainda morava em outra cidade.

IV – O pós-experiência, ou Uma comparação inquietante.

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Saquei meu celular da bolsa e, no caminho de volta, fui direto para a internet. Não é possível que eu fosse a única pessoa a perceber que aquilo era um esquema, não sou tão esperta assim – o discurso é que é ruim. Mas acabei descobrindo um site inquietante, organizado por um ex-professor do método que explica por A + B que, para além de uma empresa lucrativa baseada na ciência pudinesca, a coisa toda na verdade é um culto. Sim, uma dessas seitas com líder, doutrina, lavagem cerebral e tudo mais. Aparentente o papo de “técnica de meditação que independe de doutrina religiosa”  é uma fachada para ~drogas mais pesadas~: uma vez dentro você começa a ser introduzido aos segredos da doutrina (mediante pagamentos astronômicos, é claro, não existe almoço grátis, quiçá felicidade).

Ou seja: David Lynch está para essa técnica específica assim como Tom Cruise está para a Cientologia. 

Tá bom de revelação espiritual e alargamento de consciência pelo mês inteiro, não tá? Parei no meio do caminho, morta de fome, e apelei para um cachorro-quente em uma birosca. O único mergulho na felicidade que me foi oferecido naquela noite apareceu na forma da maionese de alho da lanchonete, que estava deliciosa. Vai entupir minhas artérias e inutilizar meus esforços na esteira. Mas estava deliciosa. Como eu disse, a terceira década de vida está se aproximando. Quantos clichês a mais, meu deus, quantos clichês a mais?

Festa no Céu ou Esta não é uma crítica, é uma intimação.

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Entramos na sala e nos surpreendemos. Não era, afinal, a sessão de onze horas do Cine Belas Artes com um filme turco sobre um rapaz cego que sonha em ser filatelista. Era uma animação para crianças, em 3D, em um cinema de shopping. Por que não havia nenhuma criança? Aliás, por que a sessão estava tão vazia? Contando com nós dois, éramos cinco ao todo. Talvez o filme fosse uma droga e só nós não tivéssemos recebido o memorando por e-mail. Mas o ingresso estava comprado e eu tenho por princípio jamais sair de uma sessão de cinema pela qual eu tenha pagado antes que o filme termine, nem que seja para falar mal com propriedade e lamentar o dinheiro que gastei.

Mas o filme… meu deus, o filme é incrível! (Em tempo, antes que eu me esqueça: estou falando sobre Festa no Céu, de Jorge R. Gutierrez) Ainda que a história fosse talvez linear demais e até mesmo previsível (desenho para criança, Gabriela, respira fundo e admita que você não é o público alvo principal), o visual era embasbacante, os personagens bem construídos, as piadas não eram idiotas, a trama estava cheia de boas lições e, apesar de ser fundamentalmente uma história sobre um triângulo amoroso, a personagem feminina principal tem uma personalidade só para si e não se encaixa nem de longe na definição da donzela em perigo.

Tudo bem, era uma segunda-feira, e nem estávamos na época das férias. E a divulgação não era padrão Disney/Pixar, ainda que o Mc Donald’s esteja vendendo bonequinhos do filme no lanche infantil do mês. E um pouco de pesquisa me mostrou que o filme foi até bem no fim de semana de estreia: 342.404 ingressos vendidos, segundo o Adoro Cinema. (Para fins de comparação, o sucesso retumbante que foi Frozen vendeu 679.503). Me tranquilizei. Quando cheguei em casa, no entanto, mandei mensagens para cinco amigos que eu sabia que também adorariam o filme, mas nenhum deles sequer sabiam da existência. Piraram no trailer, mas foi algo que escapou do radar de muita gente.

Então aqui estou eu, fazendo o trabalho de divulgação boca-a-boca, ou, ao menos, blog-a-blog. Não porque eu não acredite que o filme vá se pagar (ele está indo muito bem, obrigada, sem mim, e não é como se eu pudesse acrescentar muito a mais), mas porque acho que precisamos apoiar os projetos que gostaríamos de ver com mais frequência na tela ou em qualquer outro meio.

THE BOOK OF LIFE
Festa no Céu, uma tradução ri-dí-cu-la para The Book of Life, é uma celebração de tradições folclóricas sobre o Dia de los Muertos mexicano. Como talvez a ideia da celebração do dia dos mortos como uma festa seja um choque cultural para muitos, o filme é esperto em enquadrá-lo em uma moldura palatável a gostos mais ~sensíveis~. Um grupo de crianças americanas  encontra uma guia de museu especial, que as conduz por uma pavilhão de tradições mexicanas até o Livro da Vida, que guarda todas as histórias de que o mundo é feito. “Qual o lance dos mexicanos com a morte?”, pergunta o guri.

A história contada pela guia tenta explicar. Segue uma imersão no universo suscitado pelos bonecos de madeira que a guia apresenta, um mundo estilizado em que duas divindades resolvem fazer uma aposta. La Muerte é a senhora do Reino dos Lembrados, um lugar de festa perene para todas as almas ainda celebradas e queridas pelos vivos. Xibalba é o senhor do Reino dos Esquecidos, um lugar frio e triste, bem, faça o paralelo você mesmo. Entediado com a modorra de seu reino, Xibalba, o trapaceiro, desafia La Muerte (sua amante/ex-amante, os dois tem uma relação ~complicada~): ambos avistam um florescente triângulo amoroso em três crianças e decidem que cada um escolherá um campeão que tentará se casar com a mocinha no futuro. Ao vencedor, as batatas. Se Xibalba vencer eles trocarão de reino. Se La Muerte vencer, Xibalba deixará de se meter na vida dos vivos.

THE BOOK OF LIFE

E segue o desenrolar da história. Manolo, o escolhido por La Muerte, irá se tornar um toureiro incapaz de matar  touros (o que desonra sua família de toureiros), preferindo a vida de cantador. É um moleque esquisito e sensível que vai tirar Creep no violão quando estiver se sentindo triste (não é força de expressão, a cena realmente acontece). Joaquim é filho do herói póstumo da cidade, e depois que consegue por Xibalba um amuleto que garante invencibilidade em batalha, torna-se um tipo de action-figure vaidoso, mas com bom coração. Maria é uma guria impetuosa demais para seu pai, que tenta educá-la/ amaciá-la mandando-a para estudar em um convento na Espanha. Provavelmente o convento mais bizarro do planeta, porque ela aprende de esgrima a kung-fu. Ambos os rapazes entrarão em uma competição pela mão da mocinha, mas sem esquecer da amizade entre eles.

O filme também quase recria a história de Orfeu e Eurídice, acompanhando a jornada de um dos protagonistas pelo submundo. As figuras de madeira transformam-se nas caveiras mexicanas. O mundo dos mortos mexicano é a melhor parte do filme. Cores, filigranas, texturas deslumbrantes… se eu for obrigada a continuar, encherei parágrafos de adjetivos que não darão conta do desbunde visual que o filme apresenta.

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The Book of Life (me recuso a ficar chamando o filme de Festa no Céu, afinal a festa não é no céu, pombas, é no mundo dos mortos – outras referências mitológicas, lide com isso) foi produzido por Guillermo de Toro, salvando o projeto de Gutierrez, que havia sido abandonado pela Dreamworks, por “diferenças criativas”. Não deve ser fácil para um estúdio bancar a ideia de um pós-vida festivo. Cosmogonias à parte,  a lembrança e a celebração da ancestralidade exercem papel fundamental para o tema de The Book of Life: ser esquecido é deixar de existir. Não apenas uma alma, é claro, mas toda uma cultura.

Para além desse ensinamento, o filme ainda se posiciona contra a crueldade das touradas, celebra o valor da amizade, mostra os conflitos e os laços que unem uma família e explicita o amor entre um filho e sua mãe (quando o mais comum em representações infantis – à exceção de Bambi e Dumbo – é desenvolver laços de pais com filhos e filhas com mães). Também dá um jeito de enfiar a mensagem “não tenha medo de ser você mesmo”, conta com uma divindade extra, responsável pelo equilíbrio de todas as coisas, apresenta personagens femininas críveis e importantes em um cenário que à primeira vista pareceria completamente masculino e ainda insere um monte de canções grudentas no meio, incluindo uma versão de I can’t help falling in love with you. Tá bom ou quer mais?

(A única tristeza foi não ter encontrado cópias legendadas. As versões das músicas ficaram horrendas, ora com legendas, ora sem. Fora o time que se reuniu para dublar o filme nas gringa: Zoe Saldana, Ron Pearlman, Danny Trejo, Plácido Domingo (!!!!!) Já estou esperando o blu-ray sentadinha)

Se você gosta de animações, corra para o cinema mais próximo. E fique com o trailer, caso eu não tenha feito um bom trabalho ao explicar porque o filme é tão bacana.

Nossa Senhora da Concisão

"Pode cortar esse capítulo todo porque eu não vou ter tempo de ler, tenho filho pequeno pra criar".

“Pode cortar esse capítulo todo porque eu não vou ter tempo de ler, tenho filho pequeno pra criar”.

Varei a madrugada tentando explicar a tese que venho escrevendo há meses em 20 parcas linhas para o caderno de resumos de um seminário da faculdade. (Se tivessem pedido um texto de 20 páginas eu não teria demorado tanto). Foi um tal de corta daqui, tira linhas essenciais de lá, um sufoco. O que me leva a pensar: a defomação profissional me faz invejar qualquer pessoa que consiga compor uma dissertação de vestibular ou de concurso. Introdução, dois ou três argumentos e conclusão em um espaço ínfimo. Eu posso até dar uma aula sobre isso, mas me espanta quando vejo (ou tenho de corrrigir) o milagre pronto: como é que pode?

Minha Nossa Senhora da Concisão, rogai pelos verborrágicos, mas especialmente por mim, que a inventei às quatro da manhã só porque não havia entidade adequada para acender uma vela nessa hora terrível. Não nos deixeis cair na tentação de diminuir ~só um pouquinho~ o tamanho da fonte ou do espaçamento, torcendo para ninguém notar. Livrai-nos dos adjetivos inúteis e de todos aqueles advérbios que a gente usa na hora e jura que está arrasando, para na primeira revisão se arrepender, porque, né, o texto ficou parecendo coisa de amador.

Amém.

As velas

Os olhos escurecem com o branco das cataratas. A audição fraqueja à medida que sobe o volume da televisão. A memória imediata está se deteriorando – troca o lugar das coisas da casa, perde papéis. Quase não anda mais de bicicleta, tampouco faz compras grandes no supermercado sozinho. Ainda aquece a própria comida, mas as refeições têm diminuído. Ocupa cada vez menos espaço, precisa de cada vez menos.

A pele está tão fina que a coceira da picada de um inseto pode virar um rastro de sangue. No rosto, manchas de sol cobram os tributos de uma vida inteira trabalhando ao ar livre. O burburinho do mundo agora é fonte de perigo: adolescentes de skate, aglomeramento de pessoas,  e mesmo os desníveis no chão me apavoram. E ele não olha para baixo, ele não faz concessões.

Hoje saímos à rua de braços dados. As pessoas param para falar com ele, sorriem para nós dois. Ele se estica para me confidenciar ao ouvido: “eu podia ser vereador”. Ele adora a atenção que recebe, os amigos que reencontra, as crianças que passam por ele. É preciso paciência para responder sempre às mesmas perguntas, mas como perder a calma se o que ele quer saber parece essencial, como se pressentisse que algo escapa de sua mente e que é preciso ordenar os nossos passos para que a vida atual faça sentido? Quanto à própria trajetória, no entanto, não hesita. É capaz de passar histórias que aconteceram há mais de meio século. E são sempre histórias engraçadas, mesmo que saibamos o quanto a vida dele foi difícil. O timing para piadas continua perfeito.

Voltando para casa, passamos por uma loja de artigos religiosos. Em um canto da vitrine havia uma vela votiva, queimando devagar. Ventava bastante mas a chama insistia, trêmula, ao fim do pavio. Com uma insistência que eu só poderia qualificar como milagrosa. Senti uma pontada no peito, mas sorri. Estávamos conversando sobre a festa que estou organizando para ele. “E aí, tá animado?” “Enquanto a gente estiver nessa Terra tem que estar sempre animado”. Sim, é verdade. Mês que vem vamos comemorar 90 anos de uma vela ardendo, na milagrosa teimosia de estar animado até o fim. E não é porque está brilhando menos do que já brilhou um dia que deixaremos de dançar.

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Sobre o vício de compor playlists

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(Título alternativo: Sobre como passar horas escolhendo músicas antes de começar de fato a trabalhar não é procrastinação, eu juro!)

 

Nasci na gloriosa (e breve) era das fitas cassetes. Talvez nem tão gloriosa assim, é verdade, mas, de todo jeito, a fixação por mixtapes só pode ter vindo da infância. Gravadores para copiar fitas de amigos. Esperar horas por aquela baladinha cafona que tocava no rádio e desejar a morte do locutor toda vez que ele começava a falar antes do fim da música. Editar, reeditar, colar durex na proteção contra a gravação das fitas de samba enredo do meu pai – e ouvir impropérios a cada vez que ele descobria que Atrás da verde e Rosa só não vai quem já morreu foi substituído, sei lá, por Aerosmith – eram os anos 90, afinal.

Desde aquela época – e muito antes que Alta Fidelidade me caísse nas mãos e fizesse o estrago emocional que me fez já no fim da adolescência – eu estava lá criando trilhas sonoras para pessoas, relacionamentos e situações. Não estou dizendo que é um hábito original, claro, é apenas um tique meu. Pessoas, situações, relacionamentos e viagens ganham trilha sonora na minha cabeça e, frequentemente, no Ipod. Músicas me ajudam a entrar no clima em quase todas as atividades, exceto na hora de fazer exercício porque música também não faz milagre.

Uso músicas para me descrever (a atual e sempre atualizada playlist sobre mim começa com Cat Power e termina com Blind Melon) Uso músicas para descrever meu namorado, meus melhores amigos e as boas (e as más) relações que tenho com a minha família. Cada fossa da minha vida teve obsessões musicais diferentes, dependendo dos motivos do término e do contexto geral da relação – em um espectro que vai de uma civilizada & fofinha canção de Stars à mea culpa na sofrida voz de Johnny Cash. Mas também há músicas para alguns dos momentos mais felizes: uma rodinha de adolescentes tocando Legião Urbana em Porto Seguro, uma madrugada em um inferninho lisboeta cantando com The Smiths como se minha vida dependesse disso.

Uso músicas para escrever, e faço delas uma rotina. Talvez seja uma forma de fazer com que meu cérebro entenda que precisa entrar em um mindset específico, do contrário a coisa não flui. A música foi o gatilho que encontrei para me manter minimamente concentrada. Minha tese tem pelo menos três trilhas diferentes. Gosto de ouvir jazz na hora de ler (Miles Davis, John Coltrane, Dave Brubeck), Bach para escrever e Sigur Rós para revisar. E se você me perguntar o porquê das preferências vou te dizer que não sei.

Já para escrever ficção, acredito que saber o que um certo personagem ouve já é meio caminho andado para a construção de personalidades distintas, ainda que isso jamais seja mencionado textualmente. No romance que eu estou escrevendo (é favor ler essa afirmação da forma menos pretensiosa possível porque, né, quem é que NÃO está escrevendo um romance por esses dias), uma das protagonistas, fã de Patti Smith e Leonard Cohen, vai dividir apartamento com um cara que é mais de Caetano e Radiohead. Na minha cabeça faz o maior sentido que, por isso, os dois sintam uma simpatia mútua e fiquem amigos de cara, embora não sem brigas memoráveis de quando em quando.

Uma playlist para cada estado de espírito. E uma para cada ação cotidiana. Buena Vista Social Club para cozinhar, Donna Summers para faxinar a casa. Nos últimos tempos acho que a música perfeita para viajar é a de Kevin Johansen. E atualmente eu tenho ouvido The Dresden Dolls direto porque ando nostálgica, com saudades de quem eu era quando descobri pela primeira vez a banda.

O sábio Zaratustra só poderia crer em um deus que soubesse dançar. Já eu, que estou longe de ser sábia, só poderia crer em um deus que tivesse criado o universo através da música. Essa história de No Princípio era o Verbo nunca me convenceu, as palavras parecem nunca ser suficientes e adequadas. São ásperas, imperfeitas, perdem-se no tempo e em suas próprias ressignificações: confiar o tecido da realidade a elas seria uma estupidez. Não: no princípio era um riff que durou uma eternidade, um acorde perfeito, um refrão em que o sentido importa menos do que a sensação que deixa em nós.

Biscoitos da sorte*

- “Sua natureza emocional é forte e sensível”. Agora me diz, Loris, como é que isso pode ser considerado uma sorte? O biscoito não deveria predizer um futuro glorioso para mim, ou, pelo menos, algum futuro? O Conselho de Psicologia foi consultado sobre os impactos de colocarem uma afirmação dessa sem mais nem menos dentro de um biscoito?

- Não acho que um conselho de psicologia possa fazer alguma coisa. Como tudo o que vem da China, biscoitos da sorte devem ter no mínimo uns 4000 mil anos. Quero ver legislar sobre o legado cultural e profético da dinastia sei lá o quê.

- Usando esse raciocínio, a Vigilância Sanitária também não pode inspecionar pastelarias chinesas, nem averiguar se o milenar caldo de cana está sendo extraído corretamente.

- Ainda tem os números na parte de trás, quem sabe seu futuro não esteja neles.

- Se você pensa que vou ficar na fila da lotérica você ainda não me conhece. Nunca ganhei rifa, concurso, jogo do bicho, até pra conseguir uma raspadinha extra eu tenho menos sorte que a maioria – acha mesmo que consigo acertar na loteria?

- Foi o biscoito quem disse. Questão de autoridade. Os sábios chineses devem entender mais do que eu.

- Os números são comuns a todos os tipos de sorte, eu é que tenho azar de encontrar essas pérolas de auto ajuda em vez de algum consolo oracular para o futuro. Abra o seu, o que diz?

- Pera, deixa eu só… ah, “Sua vida amorosa será feliz e harmoniosa”.

- Tá vendo? Dei a boa sorte a você e fiquei com a porcaria pra mim. Nem nisso eu acerto.

 – Quer trocar? Não ando fazendo a mínima questão de uma vida amorosa, mesmo que me prometam um felizes para sempre de filme da Disney e milionário romântico de romance de banca de jornal.

 – Não senhora. As sortes são pessoais e intransferíveis.

- Olha, não sei não. Sinceramente, não preciso de papelzinho nenhum para ter certeza de que minha natureza emocional é bem mais forte e sensível do que a sua. Pega o biscoito que tá sobrando, dessa vez vai.

-  “A tempestade arranca a árvore sozinha”. QUÊ?! É agora que eu sumo de vez com o contato desse delivery.

- Vou comprar umas mudas pra te fazer companhia. Podemos começar um jardinzinho na sacada.

* Botando a Loris e Jorge para papear de novo, porque esses dois me divertem.

Você pode ler outra conversa deles aqui.

Blogagem Coletiva: livros que marcaram a infância

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A querida da Sybylla (Momentum Saga) propôs uma blogagem coletiva e eu achei a ideia excelente, principalmente porque não ando lá muito motivada a atualizar o blog e é sempre bom não deixar acumular muita poeira por aqui. Falar sobre livros, no entanto, é sempre um prazer. Sobre os primeiros, então, melhor ainda, principalmente porque a minha trajetória de leitura não foi muito óbvia e rendeu algumas histórias engraçadas. Quer dizer, para mim, pelo menos. Se minha mãe estivesse escrevendo esse post no meu lugar certeza que ela teria um ponto de vista diferente para oferecer a vocês. 

Cena: formatura da Alfabetização – 6 anos

Eu não queria ir de jeito nenhum. Quer dizer, o chapéu e a capinha eram bonitos e eu gostava dos meus amiguinhos, mas nos foi dito na semana anterior que a gente ia precisar subir no palco e dar um beijinho na professora. Como eu odiava a minha professora (coitada!) cruzei os braços e disse que não iria. Minha mãe, sabendo que eu era uma criatura facilmente manipulável, me convenceu a ir para ganhar o livro que viria no kit, junto com o diploma – os pais devem ter comprado esse kit, não sei bem. Era um paradidático da coleção Os Pingos, chamado “Que bicho será?” Terminei o livro ainda na cerimônia, antes de sair com a minha família para almoçar. A diretora da escolinha vem dar uma de simpática e perguntou se eu gostei. “É uma porcaria”, respondi. “Só tem figura e a história é boba”. Corta para a cara da minha mãe de arrependimento por não ter me deixado ficar em casa.

*

Eu era uma criança esquisita. Quer dizer, muita gente pode argumentar – não sem alguma razão – que eu ainda sou uma criança esquisita. Mas na época em que eu tinha idade para isso, sim, esquisita, definitivamente. O primeiro grande livro da minha infância, quando sequer havia aprendido a ler, foi uma edição pocket de A Odisseia em prosa. Nós não tínhamos muitos livros em casa, esse era espólio do segundo grau da minha mãe. E eu fazia ela ler para mim. Uma das minhas brincadeiras favoritas era matar Ciclopes no quintal de casa. Ou fingir que era a Circe para poder transformar meus amiguinhos da rua em porcos.

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Cena: quarto da prima mais velha que morou uns anos com a gente (eu devia ter uns 8 anos)

Minha mãe me pegou fuçando as gavetas da minha prima adolescente, enquanto eu achava um exemplar de Brida, de Paulo Coelho. “Você não pode ler esse livro, não é adequado para a sua idade” (uma proibição meio estranha vindo de alguém que lia a Odisseia para mim anos antes, mas ok). Foi o suficiente para que eu roubasse o livro e o lesse às escondidas, depois que a casa estivesse dormindo. Não entendi metade, fiquei com um pouco de medo e desenvolvi um fascínio persistente por cartas de tarot. Mas me marcou. Eu voltei a ele na adolescência, naquela época de Jovens Bruxas era um hit (as meninas dos anos 90 queriam ser wicca, sociedade!). Se minha mãe tivesse proibido o dever de casa e os trabalhos domésticos, certeza que a vida dela teria sido mais simples. E essa é a história de como Paulo Coelho foi um dos autores da minha infância, meninos e meninas. Para vocês verem como é a vida. 

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Essa educação literária meio ao acaso, de ler o que me caía na mão, acabou deixando buracos, mas também trouxe coisas boas. A Coleção Vagalume, por exemplo, eu só fui ler quando já era adolescente, assim como os livros do Pedro Bandeira. E nunca sequer cheguei perto de um Monteiro Lobato, nem na idade adulta. Mas eu devia ter uns 9 ou 10 anos quando a minha mãe começou a comprar para mim uma coleção de clássicos da literatura adaptados e ilustrados que saíam no jornal O Globo. Foi quando  entrei em contato com a maior parte dos livros que marcaram aqueles anos, clássicos ingleses e americanos.  Eu lia a adaptação e depois ficava enchendo o saco para ler o original, que minha mãe nem sempre encontrava na biblioteca. Foi assim que conheci A ilha do tesouro, Tom Sawyer, Oliver Twist, Os três mosqueteiros, Robinson Crusoé,  e o meu favorito de todos: Moby Dick. Sinto dizer que eu não era lá uma grande ambientalista: para além de não gostar de Capitão Planeta, eu torcia para o Ahab. E fiquei entendendo tudo de vida náutica na época, no que talvez tenha sido minha primeira empreitada de obsessão por conhecimento inútil, uma vez que eu morava na serra e via praia de vez em nunca.

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Cena: aula de matemática na sétima série

O professor me tomou um exemplar de O assassinato no Expresso Oriente que eu estava lendo escondida, em vez de copiar as fórmulas que estavam no quadro. Era uma edição de sebo, mas minha mãe disse que não iria recomprar o livro para que eu aprendesse a lição, e talvez assim tirasse notas melhores. ( o que não aconteceu). Foi um trauma: fiquei meses sem saber quem era o assassino até arranjar dinheiro nem sei de onde para comprá-lo. Li quase tudo da Agatha Christie nessa época, mas esse ficou sendo o meu favorito. Talvez pelo drama. Provavelmente pelo drama. 

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Dos livros que me marcaram NEGATIVAMENTE: 

- A maldita Pollyanna e aquele otimismo sem noção que me fazia querer dar com as muletas na cabeça dela. GURIA CHATA DO INFERNO.

- Os filhos do Capitão Grant, de Julio Verne. Único volume da coleção de clássicos da Globo que não consegui terminar, quanto mais ler a versão integral. E eu gostava do Julio Verne. Já havia lido 20 mil léguas submarinas e A Volta ao Mundo em 80 dias. Acho que foi minha primeira decepção com um livro, ao menos a primeira que eu me lembro – excetuando o livro da formatura da Alfabetização. 

- Qualquer coisa que a escola me mandasse ler – inclusive alguns bons livros que redescobri sozinha, quando superei as tretas da minha cabeça dura – porque eu jamais entendi a leitura como obrigação e também nunca fui muito inclinada a confiar em professor algum. O que não deixa de ser irônico porque fui virar logo o quê? Isso mesmo, amiguinhos, isso mesmo, pequena Gabriela… fui virar professora de literatura. Só pode ter sido praga da minha mãe, e não tô nem dizendo que não foi merecida, não. Eu aceito. Tá pouco de praga, manda mais, universo.

#Chatiadíssima

Karma is a bitch