Método

IMG_20140725_030324

Achei as anotações que procurava debaixo da cama, mas há outras, que sequer me lembro de ter perdido. Há post-its pela casa, lombadas descolando, fotocópias desencadernadas – os gatos gostam especialmente de brincar com aquelas molas, caçando-as como se estivessem vivas. Tropeço em pilhas de livros e xícaras sujas de café enquanto penso em jardins, biografias, erotismo, na arte que enfrenta a morte e na imagem de um cão soterrado por uma duna de areia – mas não me afogo.

Porque percebo que ainda estou buscando respostas para questões que me coloquei há 15 anos (não estou dizendo que é muito tempo, mas eu tinha a impressão de que era outra pessoa, e já não tenho certeza). E porque há essas ideias, alheias ao caos que eu produzo, que vão encontrando o caminho na ponta do meus dedos, como se já estivessem destinadas a nascer. Ou é o contrário, e o que escrevo me define a partir de agora e talvez daqui para frente, ou até que eu arranje um novo conjunto de obsessões. Se é que a essa altura do campeonato é possível arranjar um novo conjunto de obsessões. E eu que me queria tão distanciada – e séria, sobretudo séria, porque eu invejo gente séria de vez em quando – descubro que finjo melhor na ficção do que na crítica.

Entre o arrebatamento e o método: o Grande Hotel Budapeste

TGBH-launch-quad-1024x768

I

Estruturas me fascinam. Bobinas e correias, graxa e engrenagens, resistências e quadros de luz. Raios X de pinturas famosas. Maquetes. Documentários. Teoria Literária. Diários. O Centro Georges Pompidou. Notas de composição. Coxias de teatro. Truques de mágica revelados. O que não diminui minha incessante busca por maravilhas.  E acho uma bobagem quando ouço algum artista dizer que tive um relâmpago de inspiração e as obras mais geniais saíram de suas cabeças como um espirro. Que é possível ficar de pé em febre criativa uma noite toda e escrever os poemas que compõem O Guardador de Rebanhos quando admitir que aquilo deu um trabalho do cão para parecer tão espontâneo é muito mais bonito.Porque quando uma música realmente me toca eu não quero saber do esquema rítmico, mas apenas dizer “mas que coisa impossível, que prodígio”. E quando eu entro em uma catedral sei que de nada me adianta o conhecimento livresco sobre arcos e simbologias de vitrais para amenizar minha pequenez diante de um edifício que está de pé há 800 anos. Mas passado o momento em que as palavras me faltam eu volto para casa e me ponho a pesquisar.

II

Me sinto cooptada por obras que fabricam uma forma, que deixam as estruturas aparentes ou que, ao menos, não trancam os alçapões ou enchem de pregos suas portas dos fundos para que possamos desbravá-las. Há quem diga que a artificialidade afasta o espectador e impede a imersão; eu, pelo contrário, tendo a achar que é o melhor caminho para fazer do espectador um cúmplice. Apontar o dedo e dizer: isso é engenho, veja, e ainda assim você está aí parado com essa cara de bobo – vem comigo, vamos brincar mais um pouco.

III

Essa minha preferência para o jogo cênico em detrimento das pretensões de realismo vale para tudo, é  claro, mas estou pensando em cinema, uma vez que ontem fui assistir O Grande Hotel Budapeste, último filme de Wes Anderson. Anderson está no centro dessa minha predileção junto com outros diretores como Michel Gondry, Jean Pierre Jeunet, Terry Gilliam. Ou alguns filmes específicos como o Hugo Cabret, do Scorcese, Waking Life de Richard Linklater e Peixe Grande, de Tim Burton. E embora tais filmes, em sua maioria também flertem com uma aura de fábula com final feliz – ou ao menos até quase o final, como Maria Antonieta de Sofia Coppola – o engenho também pode ser aplicado a histórias terríveis como Brazil, de Terry Gilliam e O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro. Mesmo o Grande Hotel Budapeste, baseado em escritos de Stephan Zweig, talvez seja o filme com o final mais agridoce do diretor que usava filtros do Instagram em seus filmes antes do Instagram ser uma rede social.

IV

Na imaginária República de Zubrowka, um paiseco do leste europeu, havia um suntuoso hotel no alto de uma montanha. Demolido no final do século XX, conheceu o esplendor da belle-époque até que a guerra o transformasse em quartel e, no pós-guerra, a decadência fosse se infiltrando no cenário opulento. Um escritor, nos anos oitenta, relembra uma visita feita nos anos sessenta ao Grande Hotel Budapeste, já então uma magnífica ruína. A trama é costurada por um voiceover que simula os recursos discursivos presentes no livro escrito pelo escritor. Durante a visita conhece o proprietário Zero Moustafa, que decide contar a história ao escritor. O filme então retrocede ainda mais no tempo para narrar a história de Zero quando este era apenas um lobby boy sobre o treinamento do concièrge M. Gustave – maníaco por detalhes, amante de poesia (e ainda sim dono de uma boca muito suja quando perde a compostura) e Don Juan profissional das velhinhas ricas e inseguras que se hospedavam no hotel tão somente para usufruir de sua companhia. Segue um plot de aventura, romance, viradas rocambolescas e, bem, isso não importa porque é o de menos, convenhamos.

As obsessões de Wes Anderson estão todas lá. E ainda que eu consiga entender que seja possível achar a repetição estilística de seu arsenal um troço sacal, eu bato palmas não apenas pela marca, mas pelo refinamento da técnica. Ao contrário dos últimos filmes do Tim Burton que parecem uma versão diluída e requentada (a famosa sopa de pedra) do estilo que se tornou sua marca três décadas antes, o cinema autoral de Wes Anderson é um caldo que só engrossa. (A metáfora com a sopa é terrível, eu sei, mas estou escrevendo esse texto na hora do almoço e eu decidi escrever em vez de passar no supermercado, deem um desconto) Mas sim, não à toa a internet fez uma cartela de bingo para os filmes do diretor: tudo está lá, da paleta de cores ao elenco que parece nunca sair da folha de pagamento da produção – e BILL FUCKING MURRAY -, às miniaturas, animações, fantoches, enquadramentos simétricos, divisão em capítulos, Edward Norton em uniformes ridiculamente deliciosos… preciso mesmo continuar? No entanto, o ritmo está melhor do que nunca, o timing da comédia visual e das punchlines idem. O equilíbrio entre a comédia e uma certa melancolia que perpassa todo o filme também.

E quando, em uma das últimas cenas, Moustafa diz ao escritor que não manteve o dispendioso hotel pela memória de Gustave, porque “para ser franco, acho que seu mundo tinha desaparecido muito tempo antes que nascesse – mas, vou dizer: ele certamente sustentou a ilusão com graça!” não há como não pensar que essa seja a maior afirmação a respeito do próprio Wes Anderson e de suas reconstituições sonhadas e idealizadas não do passado que não viveu, mas um em que gostaria de ter vivido.

V

Esse duplo movimento em direção ao êxtase provocado por uma obra e a sua subsequente análise me faz pensar que o caminho mais interessante  talvez esteja escondido em algum lugar entre o arrebatamento e o método. E que gente como Wes Anderson (e não, por ora não continuarei com minha lista) ajuda a pavimentá-lo.

 

Porque massa de modelar não cai do céu

massa-de-modelar-backyardigans

Uma vez sonhei que eu estava tentando montar um quebra-cabeças complicado. Eu adoro quebra-cabeças, mas não sou muito paciente, e não conseguia avançar. A tarefa me exasperou a tal ponto que joguei a caixa com as peças para o alto. Quando caíram no chão não eram mais peças de papelão, mas massa de modelar, e assim pude juntá-las.

(Pausa para dizer que eu até gostaria de ter sonhos complexos e super simbólicos que virassem pauta para comunicações em congressos de psicanálise, nos quais eu teria meu nome abreviado e os psicanalistas passariam horas debatendo as neuroses da paciente G.V., mas meu subconsciente é meio idiota, sabe. Meus sonhos ou são colagens sobre desejos e banalidades diárias ou são metáforas safadas como essa do quebra-cabeças. Mas enfim.)

A compreensão das coisas nunca me chegou como um processo em linha reta, com o rigor do método científico e a racionalidade que tanto admiro no pensamento alheio. Assim como na época em que eu não conseguia pontuar nos problemas matemáticos da escola porque sabia as respostas mas não conseguia desenvolver o raciocínio matemático, o mais provável é que eu sempre enxergue um borrão e me angustie e pense que não há saída, que é difícil demais ou inútil, que atingi meu limite ou que o melhor a fazer é recomeçar. E então um dia estou tomando banho ou batendo um bolo ou jogando videogame e as coisas se encaixam, as respostas que eu procurava começam a dançar na minha frente e  talvez eu bata com a esponja, a espátula ou o controle na testa e me xingue um pouquinho por não ter percebido como era óbvio ou simples e, sobretudo, como era possível.

E não consigo deixar de pensar que meu vício por epifanias reflete o fato de eu não ter “aprendido a pensar do jeito difícil” – seja lá o que isso signifique.

Eu poderia ceder à tentação de me sentir culpada e imprestável, mas não, não mais. Porque não vou confiar nas metáforas safadas do meu inconsciente idiota. E porque massa de modelar não cai simplesmente do céu, e ainda assim as peças parecem começar a se encaixar.

 

Carta à avó desconhecida

claires-art-07-1-1024

Claire Fisher – Six Feet Under (HBO)

Um post com trilha sonora.

Minha mãe ligou para avisar que você morreu. Não senti vontade de pegar o próximo ônibus e viajar a noite toda para chegar a tempo do seu enterro. O que eu poderia dizer? Você não pode me ouvir na morte mais do que não podia ouvir em vida. Nós nunca nos conhecemos. Eu não sei quantos anos você tinha, mas isso é o de menos. Sequer me lembro qual foi a última vez em que nos encontramos – em parte porque fiquei realmente boa em evitá-la.

Agora que você está morta sinto a necessidade de te escrever. Agora que você é tão somente a ideia e a versão que faço de você. Agora que posso reduzir sua complexidade para lidar com os aspectos em mim que me incomodam e me impedem de dormir. Para alguém que vivia reclamando do seu egoísmo não deixa de ser uma grande ironia, é claro. Você está morta e está tão perdida para mim quanto esteve ao longo de toda a vida; por isso te escrevo, em vez de “escrever a você”, e não poderia ser de outra forma.

Mas não o faço por culpa. Tampouco por pesar ou vontade de consertar as coisas. Assim como não é caso de perdoar ou pedir perdão. Não há lição de moral a ser aprendida. Há apenas um domingo, não faz muito tempo, em que voltei a pensar em você e descobri, com surpresa, que já não te odiava. E a verdade é que eu preferia me sentir mesquinha a seu respeito, ou que preferia deixar de te odiar apenas quando você já tivesse morrido, e não antes, porque então eu pareceria magnânima e não me sentiria estúpida mas, bem, meu timing é sempre complicado.

Aquele domingo me deu elementos suficientes para formular hipóteses sobre a avó que você foi para mim – e, acima de tudo, a mãe que você foi para o meu pai. E ainda que esse súbito entendimento tenha afastado minha raiva, não pude – não, na verdade não quis – fazer nada a respeito. Era tarde demais para nós, acostumadas aos papéis que designamos uma para a outra. Eu, a neta desgarrada, você, a avó desconhecida. Mas essa era apenas a nossa relação. Ninguém é tão unidimensional a ponto de ser apenas a faceta que se mostra a alguém. Sei que  há filhos e netos (e talvez amigos e vizinhos) chorando a sua morte. E sinto por essa dor, ainda que não consiga me relacionar com ela.

O ódio que eu sentia por você  (e sentia com tanta força!), com o tempo, foi substituído pela urgência. O conceito da avó desconhecida me fez entender a precariedade e a beleza dos laços que estabelecemos com outras pessoas, partilhem elas ou não nosso sangue. E ainda que não vá te agradecer por isso, devo reconhecer que essa ausência que você representa me dá perspectiva e responsabilidade, e me faz tentar ser uma filha, neta, amiga e namorada melhor. Acho que nunca vou saber realmente, mas espero que você tenha tido um boa vida, avó desconhecida.

Agora eu continuo daqui.

Adeus.

 

 

A hora das indulgências

Chagall - O circo azul

Chagall – O circo azul

Apelidei três da manhã de “A hora das indulgências”.

É hora de uma caneca de chá e das minhas playlists favoritas. É também a hora em que mundos nascem de dedos leves que, de repente, encontraram o caminho. Talvez seja o cansaço, talvez o silêncio ou quem sabe seja mesmo um presente: não vou perguntar, desconfio que saber demais pode quebrar o encanto, se há encanto, e eu prefiro acreditar que haja. As pessoas tem fé nas coisas mais variadas, eu acredito na paz que só experimento às três da manhã.

Estou finalmente sozinha comigo; todos os críticos e fiscais que moram em mim  já desistiram há muito de dizer que não estou fazendo meu trabalho direito, que eu deveria desistir daquele romance que comecei a escrever, que sou pretensiosa, mesquinha e indigna, sobretudo indigna. Relaxo. Penso que escrever uma bobagem é melhor do que escrever coisa alguma. Reviso.

Um gato pula para o meu colo e ronrona daquele jeito esquisito, como se estivesse com asma, e por um breve momento tudo parece tão certo que eu só quero viver para sempre nessa madrugada e nesse edredon, porque se há um nirvana ele deve se parece com as três primeiras horas da manhã. Mas a sensação passa, é claro, o gato vai atrás do pote de ração e preciso dormir porque há mais um dia pela frente, com todos os terrores e as falhas e as indignidades – sobretudo as indignidades.

Até a próxima madrugada. Porque três da manhã é a hora em que consigo me perdoar.

E me perdoo.

Prova de amor é desligar o celular

texting1

Meu histórico talvez não seja o mais adequado para escrever um texto desses porque:

1) Desde que ganhei meu primeiro Walkman (e descobri o mundo mágico dos fones de ouvido) quase fui atropelada um sem número de vezes. A última foi nesse ano.

2) Quando estava na sétima série consegui um corte na testa ao bater em uma placa na rua. Eu não vi a dita cuja porque estava prestes a descobrir quem era o culpado em O assassinato no Expresso Oriente (spoiler) e achei que andar e ler eram atividades compatíveis.

3) No fim da graduação eu quase fui reprovada em uma matéria da faculdade porque eu pretendia estudar assim que acabasse de ler “mais um capitulozinho” de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Passei a noite nessa, terminei o livro e fui fazer a prova virada.

4) Mês passado quase precisei ir ao Pronto Socorro porque me cortei enquanto descascava uma maçã & assistia o episódio de uma série.

Ou seja, quando se trata de escapar de atividades prosaicas para um outro mundo qualquer, desde que mais interessante bem, eu sou a primeira a comprar o bilhete e embarcar nesse trem. Evidente que até o jogo da cobrinha daqueles Nokia-tijolinhos indestrutíveis serviria aos meus propósitos, quanto mais a internet EM TODA A SUA GLÓRIA.

Feita a devida mea culpa, gostaria de dizer que movimentos demonizadores de tecnologia costumam me irritar sobremaneira. Eu entendo que as críticas tenham lá sua validade, e eu mesmo me incluo na classe de pessoas que tem de maneirar para não passar a vida na frente de uma tela de 4 polegadas, mas essa histeria… hoje, por exemplo, o Globo (em seu site) publicou uma matéria chamada Os corcundas de smartphone . Circulou há uns meses um vídeo – por todas as redes sociais – sobre uma moça que esqueceu seu celular em casa, lembram? E há ainda imagens de estabelecimentos preguiçosos que não colocam wifi e dão justificativas de “conectar-se ao que importa”, que de quando em quando voltam a encabeçar meu feed de notícias como se fosse um conceito maravilhoso e inovador. E sim, eu faço questão de ressaltar a ironia da coisa, principalmente porque não vejo as pessoas se reunirem para discutir sobre como a internet está nos deixando alienados, esse é o tipo de discurso que produzimos online, e pelo o qual, em geral, esperamos ganhar curtidas.

texting2

Eu sei, eu sei, esse é provavelmente o momento em que você aí do outro lado está pensando seriamente em procurar o contato da minha mãe no facebook para sugerir que ela me coloque em uma rehab digital, mas, convenhamos, a “vida real” na maior parte das vezes é superestimada. Fiz parte significativa do meu grupo de amizades por meio de blogs, foruns e redes sociais ao longo dos anos. Foi pela facilidade de encontrar pessoas com interesses parecidos com os meus que muitas vezes troquei mesas de bar reais por discussões via teclado madrugada adentro. Há pessoas que sequer encontrei pessoalmente até hoje, depois de intensa convivência online, e isso não desmerece minimamente a ideia de amizade que sinto por elas.

A internet que cabe no bolso me salva do small talk constrangedor no ponto de ônibus – é, parece mesmo que vai chover hoje, moço, mas e daí?, do tédio das longas viagens, da saudade que sinto de pessoas com quem não posso estar . Foi meu melhor companheiro no tempo que passei fora do país, porque de certa forma eu jamais estive sozinha – havia sempre alguém para compartilhar a minha experiência. Agora, de volta ao Brasil, é também um jeito de matar as saudades da viagem e me manter em contato com os amigos que fiz em outro continente.

Uma vez eu li um texto – já não consigo me lembrar qual a fonte, #AJUDALUCIANO – que basicamente dizia que nosso vício em smartphones nos priva do tédio e da frustração: com nossas pequenas doses de serotonina vibrando nos bolsos caminhamos pavlovianamente em direção à falta de foco e à catástrofe. Tá, essa última parte é invenção minha, eu acho. Mas, na boa? Se eu receber um link de um vídeo de gato no momento daquele constrangedor jantar de família em que minha tia reaça está dizendo que bandido bom é bandido morto e essa pequena distração fizer com que eu não queira fagocitar meu próprio cérebro na mesa, olha… acho que estou no lucro. Estamos todos. A minha saliva economizada agradece. Mais vídeos de gatinhos e menos interação com situações irreconciliáveis, por favor. Pelo menos a internet te dá a chance de bloquear os indesejados: na hora em que inventarem um botão semelhante para a vida offline a gente volta a conversar.

Não tô querendo dizer que me mudaria para uma fazenda nas montanhas no Second Life (?), não é isso. Principalmente agora que estou morando longe de grande parte das pessoas que me são caras, dou um valor imenso a cada possibilidade de encontro real, a cada amigo que posso encontrar e abraçar ao vivo, a cada dia em que passo sendo superalimentada na casa do meu avô. Mas acho que não dá para ignorar que nossos principais meios de conexão com outras pessoas estão mudando, e que isso não é necessariamente algo ruim. Da próxima vez em que aquele seu amigo viciado não estiver te dando atenção, tente dizer com carinho: “dá para largar essa porra e olhar na minha cara?”, sem achar que a sociedade está ruindo por causa disso. Porque não está.

Mas a patrulhinha, ah, a patrulhinha sempre vai estar por aí para nos ensinar a melhor forma de viver a nossa vida e apreciar nossas experiências DO JEITO CERTO.

photos

 

Vivemos em tempos em que desligar o celular é prova de amor. E é uma prova de amor tão boa quanto qualquer outra – e vamos ter de lidar com isso.

Apocalipse zumbi aplicado ao cotidiano: divagações

Imagem

Cenário: enfim chegou o momento profetizado por tantos filmes, quadrinhos, seriados e jogos. Cientistas que trabalham para uma Grande Corporação Farmacêutica Malvada (GCFM) criaram um super vírus que seria usado como arma de guerra, mas que, surpresa!, saiu do controle em um incidente envolvendo um macacão contaminado e um estagiário com péssimos hábitos de higiene. O resultado foi catastrófico: em uma semana a maior parte da população que infesta o nosso planetinha poderia se candidatar a coadjuvante de Thriller ou de Golimar, não fosse pelo fato de que a vida real não dá suporte à linguagem dos musicais – mortos-vivos de verdade (???) estão bem mais interessados em cérebros humanos tenros e quentinhos do que em aprender passos de dança. É isso. O dia 01 da luta pela sobrevivência: e aí, qual é a sua estratégia?

Grande parte dos meus amigos possuem planos para sobreviver às hordas putrefatas, com estratégias elaboradas, sobre as quais podem passar horas discutindo. E não é porque eu tenho amigos estranhos (quer dizer, eu até tenho, mas isso não vem ao caso no momento), mas porque, de alguma forma obtusa, a cultura pop transformou o topos do Apocalipse Zumbi em um cenário sedutor. De certa forma parece divertido pegar em armas e tacos de beisebol – mesmo que seja bastante difícil achar um taco de beisebol no Brasil – para sair transformando recém-ex-humanos em carne moída. Toda vez que essa conversa surge tenho o mesmo tipo de reação.

O que eu faria, amiguinho? Eu seria a primeira a dar o braço a morder. Ao perceber que minha vida ou meia-vida acabará, de uma forma ou outra, como um subplot infeliz de The Walking Dead, eu me adiantaria e engrossaria a fileira da ~concorrência~. Se você quiser me dar um tiro na cabeça o problema é seu; eu sei é que não quero fazer parte da resistência de jeito nenhum.

Imagem

E meu problema não é nem tanto o despreparo físico e psicológico, o terror constante de sentir-se acuado e ter de viver fugindo e as relações de poder e violência que nasceriam nesse novo mundo sem regras. Esses são problemas reais, e desconfio que uma mulher preguiçosa e com uma péssima pontaria não fosse mesmo durar muito – mas supondo que eu pudesse contar com uma sorte arrasadora ainda assim não, obrigada, eu passo.

O que me aterroriza é a certeza de  que os mimos da civilização sumiriam de repente. Internet, luz elétrica, água encanada, papel higiênico com folhas duplas, sabe. Sim, tenho ciência de que esse tipo de conforto está longe de ser universal – há muita gente (muito perto de nós) vivendo em condições deploráveis e isso é evidentemente papo para textos bem mais sério do que essa minha galhofada, não pretendo de forma alguma ofender a vivência de quem joga a vida no nível hard – é sempre bom deixar o disclaimer. O ponto é que eu e você que lê esse blog somos (muito provavelmente) mais dependentes dos mimos do nosso tempo do que podemos imaginar. Quer dizer, você até pode ter planos de se inscrever em algum reality show de sobrevivência na selva usando apenas uma faquinha de rocambole, mas eu, pelo menos, me revelo uma completa inútil.

Por exemplo, nesse fim de semana minha geladeira queimou. O horror, horror. Não podia ter queimado o chuveiro? Chuveiros eu sei consertar – ninguém precisa encarar uma ducha de água fria enquanto eu puder trocar uma resistência.  E toca a ligar para a assistência técnica: só segunda, é claro. As comidas começam a estragar e comemos o que é possível, mas quase tudo acabou no lixo. Um dinheirão jogado fora, sem falar no orçamento vindouro do técnico. E a mania da água gelada? E os desafios de ter o que cozinhar para não morrer de fome enquanto o socorro não vem? (Resposta: comprei pacotes e pacotes de miojo). É caso de cantar MEU REFRIGERADOR NÃO FUNCIONA chorando no cantinho, convenhamos. E eu não vou nem começar a comentar sobre o que acontece quando meu modem fica temperamental e decide não colaborar: meu vício em internet é mais patético – e incapacitante – ainda. É certo que posso sobreviver com uma dieta à base de macarrão instantâneo… mas sem o crack que é o twitter, como é que fica a vida?

O que me leva à questão: tem certeza de que você continua querendo caçar zumbis em um mundo em que aparelhos microondas deixarão de funcionar, bem como a indústria de congelados? O toddynho vai acabar e, na hora de fazer uma fogueira, não vai dar pra procurar tutorial online . A vida no esquema The last of us só é realmente divertida no conforto do seu sofá, com um gato no colo e um autosave a postos. Pense bem antes de desejar o apocalipse zumbi.

 

(E também pense positivamente sobre a minha geladeira, por favor. Que o motor não tenha fundido. Que a reposição das peças seja barata, e rápida. E que os sabores de miojo sejam distinguíveis uns dos outros)

Porque a culpa não é nossa

anigif_enhanced-buzz-17610-1381849547-13

Eu, Thelma, Louise, você e todas as outras

 

Eu tinha quinze anos quando vazaram as fotos íntimas de uma garota do colégio. Não havia nudez, apenas “comportamento sugestivamente erótico”, mas foi um escândalo na minha cidade:  em pouco tempo não se falava em outra coisa. Cópias das fotos circularam em todas as escolas do centro e o caso foi a fofoca preferida de todo mundo mesmo depois da família da menina ter se mudado. Toda vez que lembro dessa história sinto uma vergonha imensa. Nunca troquei mais do que meia dúzia de palavras com ela, mas fui mais uma a condená-la em silêncio. Não lembro de ter ouvido ninguém defendê-la, não havia uma única voz dissonante para nos servir de contraponto. Mesmo os professores (adultos responsáveis, oi?) se dividiam entre aqueles que fingiam ignorar a polêmica e os que faziam piadinhas sobre o ocorrido. A opinião geral era a de que ela merecia tudo aquilo, já que tirou as fotos porque quis, sem pensar nas consequências.

Fui criada para acreditar que uma mulher “tem que se dar ao respeito” e que se uma mulher resolve ficar com muitos ela só pode ser puta. E para além das minhas crenças, é certo que ainda alimentei inveja por ela ser mais bonita e mais experiente do que eu jamais poderia ter sonhado naquela idade – quando minha síndrome de patinho feio estava no auge. “Bem feito”, pensei uma e mil vezes, sem racionalizar direito por que é que eu achava que ela merecia ser punida. Memorando extraordinário para o passado: ela não merecia, ponto. Nenhuma mulher vítima da indiscrição e da maldade alheia merece, quanto mais uma menina que devia ter a mesma idade que eu. A cada caso de hostilização de meninas e mulheres vítimas de “revenge porn” eu volto a pensar nessa garota, e em como deve ter se sentido sozinha. Nós éramos todos muito jovens e  devíamos ter nos portado melhor, assim como deveria nos ter sido dito que caçar as bruxas era apenas um jeito perverso de caçar e reprimir a nós mesmas. Nunca houve consequências para as pessoas que roubaram os negativos e fizeram cópias das fotos. O caso acabou esfriando para nós, que nada tínhamos com isso, mas imagino como não deve ter sido para ela. E dizer que “imagino” não é o suficiente, jamais será.

Não sei onde ela está hoje, que tipo de pessoa se tornou. Mas, se eu pudesse – e ciente de como pedidos de desculpas são inócuos –  queria dizer que sinto muito. Com alguma sorte a gente aprende a ser menos babaca, a pensar por si, a questionar os reais motivos por trás de nossos preconceitos. Isso não quer dizer, é claro, apagar da ficha de ninguém as injustiças cometidas. Infelizmente não posso voltar ao passado para dar um esporro na  adolescente mesquinha que eu fui, mas que posso cuidar não só de não cometer os mesmos erros, como tentar impedir que outras pessoas os cometam, seja como professora, como amiga ou como escritora fajuta de internet. Sinto muito, moça, de verdade. Reproduzi discursos que também me engaiolavam, bati palmas para o status quo que insiste em podar mulheres e meninas que e uma forma ou de outra não se encaixam nos rígidos papéis sociais que deveriam ocupar.

Essa história não me sai da cabeça desde que começou a polêmica em relação aos resultados da pesquisa do IPEA sobre tolerância social à violência contra mulheres (documento na íntegra aqui). 42,7% da população concorda totalmente com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e 22,4% concordam parcialmente. Para além disso 35,3% concordam totalmente que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”, enquanto 23,2% concordam parcialmente. Os números são alarmantes, mas nada surpreendentes para quem e mulher , sai na rua e tem de lidar com o assédio escroto de cada dia. Opa, parece que a pesquisa do IPEA recebeu uma errata, e das grandes! (confira aqui) De todo jeito, não pretendo apagar o texto porque 1) ele não se anula porque a discussão não vai morrer e 2) 26% AINDA É GENTE PRA CARAMBA.

Grande parte dos argumentos que ouvi sobre pessoas que pretendem deslegitimizar a discussão baseia-se o fato de uma maioria de mulheres ter respondido a pesquisa, e  consequentemente colaborado para números tão altos. ” Se as próprias mulheres estão de acordo eu nem preciso comentar nada”, disse um cidadão – há muito bloqueado – no meu Facebook. O que o cidadão não entende – para além de achar que “cultura do estupro” é só uma maluquice de feminista histérica – é que a opressão tem raízes tão profundas que é comum que mulheres que tenham sido criadas sob o seu jugo reproduzam o discurso que ouviram a vida inteira de seus pais, da família e da sociedade. Eu poderia ter sido mais uma a engrossar  a estatística do IPEA, tivessem me entrevistado 15 anos atrás. Mas a gente pode aprender, repito. E, de todo jeito, e por mais que seja cruel ver mulheres reproduzindo um discurso que imediatamente se volta contra elas, ainda assim não são as mulheres que praticam qualquer tipo de violência contra outras, certo?

Não é nossa culpa. E por isso mesmo a discussão não pode parar. Às vezes certos argumentos parecem redundantes, mas precisam ser reafirmados, porque há muita gente por aí que vai ouvi-los pela primeira vez – talvez hoje, talvez amanhã, talvez daqui a 15 anos. Dá muito trabalho quebrar a carapaça da tradição, da educação recebida em casa, das influências do ambiente em que crescemos e das opiniões de nossos pares. E é por essa razão que preciso fazer eco a tudo o que já foi escrito sobre o assunto até agora, torcendo para que ajude alguma mulher a perceber que a culpa não é dela.

A culpa não é sua se você teve suas fotos roubadas e espalhadas na internet por um ex-amante ou por desconhecidos.

A culpa não é sua por ter bebido demais e pegado no sono durante aquela festa.

A culpa não é sua por ter mudado de ideia no meio do caminho, e decidido parar de ficar com alguém.

A culpa não é sua a cada cantada ouvida na rua, a cada vez que está escuro e um estranho te barra o caminho, em cada festa que um homem diz que mulher decompanhada só pode estar querendo putaria.

A culpa não está no comprimento de uma saia ou na profundidade de um decote.

A culpa não está no vagão de metrô lotado, nos instintos masculinos irreprimíveis, na criança “que já tem maturidade suficiente para seduzir um adulto”.

A culpa não é sua, a culpa não é minha. A culpa é de quem pratica o ato de violência. E sim, isso não é tão óbvio quanto gostaríamos de achar que é.

A culpa nunca é da vítima. NUNCA.

(#eunãomereçoserestuprada. Nenhuma mulher merece. Nenhuma pessoa merece.)

 

Afluentes

5caf85cda5c010696bba2b9e41b0c928

– Ed Fairburn

Era só ansiedade no ano em que prestei vestibular: queria ter certeza de estar fazendo ~a escolha certa~. O duelo interno entre Letras e Jornalismo prolongou-se até o último dia possível para enviar as inscrições nas duas universidades públicas que me interessavam. Convenci a todos que me perguntavam que a escolha derradeira havia sido vocacional, mas a verdade é que optei pelo curso com menor relação candidato-vaga para garantir que eu não teria de passar um ano enfurnada em um cursinho no fim do mundo. No fim das contas teria nota para passar em Jornalismo, e esse caminho não trilhado pela  ansiedade de “fazer com que a vida acontecesse logo” por muito tempo me assombrou.

Eu teria “me encontrado” em outro curso? Provavelmente não. Primeiro 4 anos do que quer que fosse àquela altura do campeonato não seriam suficientes. Mas principalmente porque esperar “encontrar-se” nos bancos de uma universidade é o tipo de ideia ingênua que você precisa ter cerca de 17 anos para conceber. Por muito tempo foi cômodo pensar que por comodismo ou medo – sim, eu tinha muito medo – eu tenha aberto mão de uma possível vocação. A cada matéria que eu odiava,  professor incompetente, orientações que deram errado e todo o tipo de dor de cabeça – que, imagino, deve constituir a experiência coletiva de cada um que já passou por qualquer faculdade – era mais fácil perguntar um “e se” e abrir uma linha temporal impossível para uma Gabriela que se sentiria naquele momento muito mais realizada.

Houve grandes momentos durante o curso (e os anos seguintes), e estes, quando ocorriam, também me faziam questionar se  na realidade alternativa eu teria chegado a experiências parecidas. Gente que conheci, conversas que travei, matérias que de fato valiam a pena, livros que caíram nas minhas mãos, pesquisas que me levaram a uma série de interesses que eu não tinha, viagens que eu não poderia custear sozinha. Então era mesmo ali que eu deveria estar? Mais uma vez a única resposta que me vem à cabeça é um “provavelmente não”.

E digo isso porque tive tempo para pensar no que realmente me interessava.Claro, estudar Literatura (quase) sempre me dá um prazer imenso. Os livros foram meus primeiros amigos e não estou sendo protocolar quando repito a ideia batida de que eles salvaram a minha vida. Mas não, não é a Literatura por si,a Literatura foi apenas minha porta de entrada. É claro que aprendi a extrair dela o máximo, e passei a valorizar a linguagem  Poderia ter sido o Jornalismo? Ou, um pouco mais tarde, poderia ter sido o cinema, uma vez que eu comecei a assistir diretores e gêneros que me agradavam. Poderia ter sido os quadrinhos, prazer que descobri por insistência de um amigo que me fez ler  Sandman, de Neil Gaiman, e que a partir dali me conquistou. Ou poderiam ter sido os videogames, tivesse eu pensado um dia que videogames poderiam dar carreira a alguém que nunca fez mais muito da vida do que ler e escrever.

Ou poderia não ter sido nada disso, porque a verdade é que eu não precisava de faculdade nenhuma se quisesse apenas perseguir a coisa de que realmente gosto. Ou, ainda, qualquer faculdade que eu fizesse seria tão somente um afluente que desaguaria em um rio principal: a necessidade de ouvir e contar histórias. Não é que a mídia em si importe menos do que o conteúdo, mas me agrada pensar que há tantas formas diferentes de contar e que podemos extrair o melhor de cada uma delas para transmitir nossas mensagens. No fim das contas não importa muito por onde cheguei. O fato é que cheguei, e que agora é preciso descobrir o que quero fazer daqui pra frente. E aqui estou eu, no meio da madrugada com um labirinto de água pela frente e um remo na mão.

***

Comecei a escrever esse texto por quatro motivos-afluentes que apareceram em um conversa  com um amigo por esses dias, e que sugiro ardentemente, caso vocês não conheçam.

1) Um livro sensacional  sobre a influência das cores na narrativa cinematográfica

2) Meu vício de domingo em espionar os segredos que as pessoas escrevem em formato de cartão postal no projeto PostSecret, de Frank Warren

3) Meu novo projeto de compartilhamento histórias favorito, o Humans of New York

$) E, por fim, um jogo SENSACIONAL, chamado The day the laughter stopped, que aproveita como nenhum o recurso para dar o efeito necessário à história (por favor, tire cinco minutos do seu tempo para joga-lo –  não vai levar mais do que isso, não é necessário coordenação motora e você vai entender direitinho o que estou querendo dizer). Mas aviso: o conteúdo é pesado. Já vieram brigar comigo, então é bom que eu reitere: JOGUE APENAS EM UM DIA BOM.

 

De laços e porcos

Nem pergunta

Nem pergunta

Colocar o laço da linguagem nos pensamentos é praticamente impossível, mas, é claro, vocês já devem saber disso. É um trabalho ingrato ainda por cima: nada nunca vai sair do jeito que eu quero, não importa quanto tempo dedique a isso. Não é como se o cérebro fosse esperar a construção de um discurso coerente para então chegar a alguma conclusão: muito se perde em cada linha escrita, ou mesmo antes, na intenção de escrevê-la; impressões, insights e desejos que fogem enquanto pondero se a adjetivação excessiva está deixando o texto sujo.

Não tenho – jamais terei – meios de capturar ideias inteiras quando elas passam correndo por mim, uma vara incontrolável de porcos besuntados de gel. Não que sejam grandes as ideias que me escapam, mas são as  minhas ideias, droga, e é muito frustrante que eu só consiga vislumbrar por um momento aquela interpretação elegante para um problema da minha tese enquanto porquinhos rosados e escorregadios não só não saem da minha cabeça como se dispõem a rir com gosto da minha cara – partindo do pressuposto que porcos imaginários possuam músculos suficientes no rosto para sorrir. O senhor Orwell provavelmente diria que sim, mas não é esse o ponto.

O ponto é: escrever é irritante. Lutar com as palavras é a luta mais vã, já dizia o bardo, e eu nem ataco a poesia porque seria peso-pena em um ringue de pesados, tá loco. Não ataco coisa alguma, aliás. Drummond usa a metáfora da luta: eu prefiro a da caça com laço, porque a imagem mental de correr atrás dos meus pensamentos – armada apenas com uma corda e minha vergonhosa coordenação motora fina – é a que melhor dá conta da minha relação patética com a ato de escrever.

Poderia dizer, no entanto, que minhas ambições são pequenas, que me daria por satisfeita em reunir palavras suficientes para contar meia dúzia de histórias e conseguir formular uma ou duas contribuições para o estudo de literatura… poderia, não vou. Porque isso não é verdade, nem de longe. Não existe satisfação enquanto houver a perspectiva de um próximo parágrafo, e a esperança de que posso fazer melhor. Hoje saio vencida da frente do editor de texto. Mas amanhã voltarei aos campos verdes de relva fictícia: os porcos derrapantes que se cuidem, porque eu tenho medo de muita coisa, mas não de metáforas ruins.