Feliz dia do Spam, Mulher!

Print screen da minha caixa de e-mail.

Ontem acordei sabendo que teria uma tarefa a mais pela frente: livrar o meu e-mail de todo o lixo eletrônico recebido. 8 de março é uma daquelas datas críticas, que rivalizam com a Páscoa e o Natal. Meio mundo tem um e-mail para te encaminhar – geralmente envolvido em algum tipo de purpurina virtual – para te felicitar pelo dia da mulher. Recebi diversas florzinhas, coraçõezinhos e outros clichezinhos no diminutivo.

Um dos e-mails, no entanto, resume bem a questão. Foi enviado pelo marido de uma prima – que eu sequer sabia que tinha o meu endereço pessoal, para começo de conversa. Eu e outras parentas – das quais eu tampouco tinha o e-mail – fomos agraciadas com um daqueles textos apócrifos que se espalham como praga, creditado dessa vez ao Luiz Fernando Veríssimo.

Me recuso a transcrevê-lo na íntegra porque tenho amor a esse pequeno espaço na internet que chamo de meu, além de nutrir um respeito tremendo pelo escritor que jamais cometeria semelhante patacoada. Mas você não precisa de muita criatividade para imaginar o museu de cera contido naqueles parágrafos. Sabe, a grande admiração do narrador pela mulheres “guerreiras”, que para além de segurarem as pontas de uma “dupla jornada de trabalho”, ainda arranjam tempo para se cuidar e oferecer ao mundo a “dádiva da beleza”. Fala ainda sobre as “soberanas” mães, que “nos deram a dádiva da vida”.

Em resumo, para além de mal escrito, o texto é condescendente e encerra em si uma série de ideias preconcebidas sobre o que é uma mulher e como ela deve se comportar para que seja digna de elogios e reconhecimento. Da noção de que uma mulher é um bibelô ambulante ao reducionismo de que todas as mulheres são mães em potencial. O que é, convenhamos, ainda pior do que todas aquelas apresentações de power point juntas que recebemos ao longo dos anos, em todos os feriados.

Se bem que talvez esteja no mesmo nível da Fast Shop, fazendo promoção de fogão no Dia da Mulher, como meu namorado bem avisou. Ou da Saraiva, fazendo promoção de livros “sobre o universo feminino”. Fui olhar os tais livros em promoção, e não daria parte dos meus cobres por nenhum. A não ficção era composta basicamente por dicas de moda, beleza e gastronomia e a ficção… o horror, o horror. Nicholas Spark e outros autores daquilo que recentemente descobri que se chama chick-lit (mas que continuo considerando romances de banca de jornal do tipo Julia-Sabrina-Bianca impressos num papel melhorzinho). Não estou aqui pra ficar fiscalizar leituras alheias – mal cuido das minhas – mas veja: se não estou contemplada em um único livro da promoção, onde é que eu me encaixo nesse “universo feminino” proposto pela Livraria?

Resumo da ópera: aquele e-mail eu não apaguei, simplesmente. Respondi, com cópia para todos os envolvidos, pedindo gentilmente para ser retirada da lista de spam da família. O que sem dúvida foi visto como um ato grosseiro da minha parte, embora eu já esteja arrependida de ter pegado tão leve, apenas para não desencadear a terceira guerra mundial em Petrópolis. Deveria ter respondido que um cidadão que acha, em eventos familiares, que a comida aparece magicamente nas panelas, ou que as louças são auto-limpantes – porque essa é a única explicação plausível para que ele passe o tempo todo na frente da TV tomando cerveja – não deveria ter a cara de pau de mandar e-mail nenhum para me desejar parabéns por nada.

De todo jeito, e apesar da banalização da data, das promoções estapafúrdias, das rosas vermelhas distribuídas, dos manés que nos mandam spam… ainda assim o Dia da Mulher é necessário, nem que seja para lembrar dos desafios passados e abrir pontes  para superar os que ainda estão por aqui. Há quem ache mais simpático comemorar a data como flores, compartilhamentos de fotos fofinhas no facebook, textos apócrifos e vídeos do Emílio Santiaago entoando Mulhe-er (gente, já deu!).

No entanto, não é com simpatia que se chama atenção para o fato de que muitas de nós ainda não recebem o mesmo salário que homens quando desempenham as mesmas funções. Não ocupamos tantos cargos de chefia, sofremos com a violência doméstica, não somos donas de nossos próprios corpos, a lista prossegue. O dia, pois, não é “feliz”. Mas ainda sim é nosso.

 

Ps – Um amigo me mandou ontem esse tumblr, com mais exemplos bacanérrimos (só que ao contrário) de “homenagens” ao Dia da Mulher.

 

#DL2012 – Jane Eyre, Charlotte Brontë

Zefirelli acertou em cheio: a Charlote Gainsbourg é estranha o suficiente para encarnar a Jane.

Um novo recorde pessoal: consegui perder o prazo mesmo sendo este um ano bissexto. Sento para escrever a resenha do livro de fevereiro na segunda madrugada de março. Dia desses,tomando café com uma nova amiga (que  também está participando do Desafio Literário), comentamos sobre o verdadeiro desafio, que é o de vencer a preguiça. Ler um livro temático a cada mês é moleza; o problema começa na hora de se organizar para escrever as resenhas. Com a auto-crítica em dia, é hora de seguir adiante.

O tema de fevereiro era Nomes Próprios (de pessoas). Esse é justamente o tipo de escolha que me faz cumprimentar mentalmente o autor por sua audácia. Enquanto um catatau de escreventes fica pensando no que vai espremer em meia dúzia de caracteres para que sirva de síntese das trezentas e tantas páginas que escreveu, um ou outro gato pingado resolve que “ah, meu romance vai se chamar só Clarissa ou Quincas Borba“.

Nesses casos, não há sequer uma informação para dirigir o leitor. Em Mrs. Dalloway e Madame Bovary já sabemos de antemão que as donas são casadas. Pierre Ménard é o autor do Quixote e o próprio Dom Quixote de La Mancha é um engenhoso fidalgo. Lolita é um diminutivo, Chéri um rapaz de sorte. Há também os pares: Romeu e Julieta são um casal, Elvis e Madonna também. Esaú e Jacó são tão irmãos quanto Pedro e Paula, embora os primeiros não tenham tido uma relação incestuosa. Caim é nome transbordante de carga bíblica: fazer um romance chamando um personagem de Caim e não citar nem de longe o Antigo Testamento seria a maior trollagem para  gerações de críticos literários que se descabelariam em interpretações da referência in absentia.  O mesmo para vale para o Ulisses.

Imagino que seja com muita confiança  que o autor coloca lá na primeira página com letras inchadas de tanto orgulho: Frankenstein, Paula, Cândido, Ana Karenina, Pedro Páramo. O uso de nomes próprios  - com ou sem “dicas” atreladas a eles – como título só pode querer dizer: “Veja bem, esse personagem é tão bacana (ou não), relevante e completo que o livro não pode simplesmente se chamar de outra forma”. É uma esfregação na cara do leitor, convenhamos. Ou pode ser que seja apenas cisma minha.

Alguns personagens, inclusive, são tão cativantes – para o bem ou para o mal – que poderiam encabeçar suas próprias narrativas, às vezes substituindo títulos primorosos, porque eu sou dessas que mutila livros sem pudor dentro da minha cabeça. O caso é que não há como duvidar da força de nomes como Julien Sorel, Arturo Bandini, Florentino Ariza.

Eu ia ler Orlando para o desafio, mas fez muito calor em fevereiro. Eu sei, é uma justificativa esdrúxula, mas é real. Com os termômetros registrando 37 graus na serra (ouviram?, na serra!), a modorra me venceu. A bem da verdade e, olhando em retrospecto, eu não faço a menor ideia de como possuo um diploma de graduação, uma vez que para merecê-lo tive de frequentar a Ilha do Fundão durante quatro anos, aquele cantinho arejado e agradável no coração do Rio de Janeiro, só que ao contrário. Porque há comprovação empírica por meus pares: eu fico completamente idiota no calor. Completamente incapaz de articular frases mais complexas que “alguém liga o ar-condicionado, por favor”, quanto mais de ler Virginia Woolf. Voltarei a Orlando no inverno rigoroso que há de vir. Oremos.

Acabei dando de cara com uma edição de Jane Eyre numa banca de jornal. Romance vitoriano, com uma pegada gótica. Ou seja, cheio de roupas pesadas, castelos escuros, chuva, lama, vento e charnecas. Dá para pensar num cenário pior do que uma charneca para se ler  no meio do verão? De todo jeito, comprei o livro. A indicação de uma amiga ficou na minha cabeça: “Você tem que ler Jane Eyre, Gabriela, é a sua cara”.

A curiosidade venceu o medo, ou qualquer outra frase de efeito do tipo. Agora vejam a situação. A pessoa aqui está há oito anos dentro de uma faculdade de Letras. Uma graduação, um mestrado e parte de um doutorado. Li mais crítica literária do que gostaria e mais Teoria do que os padrões recomendados pela OMS para o bem estar social. Tudo isso para apresentar esse tipo de comportamento aqui na hora de ler Jane Eyre:

É verdade: incorporei o espírito folhetinesco. Não consegui parar de ler o livro até que terminasse, e, depois disso, fui atrás das adaptações para cinema. Só falei em Jane Eyre durante uma semana, para a desesperança dos meus amigos. E sempre em termos de discussão tão relevantes quanto os usados no curso de Literatura para Porteiras d’O Gato Fedorento. Se eu ainda não havia começado a resenha até então, imaginem que a partir dessa confissão a coisa vai  mesmo ladeira abaixo.

Posso até culpar o calor novamente pela transformação da minha massa cinzenta em vatapá, mas, a bem da verdade, eu até que sou dada a chiliques do gênero. Seja por implicância, fastio ou mesmo por identificação com a leitura. E não demorei muito para descobrir o que minha amiga queria dizer com “esse livro é a sua cara”.

Fui apresentada, logo na primeira página do capítulo inicial, a uma Jane Eyre criança que, de cara, já está levando esporro por não ser exatamente a menina doce e agradecida que sua tutora esperava que ela fosse. A cumplicidade com a órfã começou ali. Chutes, pontapés e maus-tratos depois, a menina é enviada para uma dessas escolas de caridade de romance inglês em que meio corpo discente morre de tuberculose antes que o inverno termine.

Lá a garota acaba aprendendo uma espécie de submissão de fachada para sobreviver. Afinal, não basta ser órfã, pobre e mulher no século XIX: é necessário que seja feia. Está certo que não ser ser candidata à Rainha da Charneca serve para enaltecer as outras qualidades que ela teria, em detrimento à beleza. Mas o fato da maioria dos personagens fazer questão de frisar essa informação linha sim, linha também é de uma sacanagem infinita.

Enfim, Jane sai finalmente da escola e arranja emprego como preceptora de uma menina também órfã, numa dessas mansões de romance gótico que têm loucas no sótão e tudo. Sério, há mesmo uma louca piromaníaca presa num sótão sem janelas. Foucault provavelmente reprovaria as condições de tratamento de Bertha Mason… mas, para fins narrativos, não é fantástico ter uma louca no sótão? Não é o tipo de coisa que gruda em nosso imaginário?

Daí é aquela coisa: todo o desenvolvimento a atração de Jane pelo patrão esquisitão que curte um travestismo. Acabei de pensar que os possíveis fãs do livro me queimariam em praça pública por esse último comentário. Apresentar o casmurro e, ainda assim, interessantíssimo Edward Rochester como “o patrão esquisitão que curte um travestismo” talvez seja mesmo uma descrição um pouco pesada, embora pertinente. E tudo bem que o travestismo disse respeito só à cena da cigana, mas mesmo assim…

A levada depois fica óbvia: há romance e a impossibilidade de concretização do mesmo por conta de um Grande Segredo escondido. Há a  fuga e abandono de si à sarjeta – ainda que as charnecas não tenham sarjetas, mas considerem sarjetas metafóricas. Depois há ainda o momento “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, em que a órfã fica ryca. E, por fim, depois de uma tragédia, há o reencontro da feia com “meio”  patrão esquisitão. Todo mundo feliz, embora de uma maneira muito bizarra, e fim. O que me leva a pensar no que é que tinha na água que passava pela charneca das Brontë, mas enfim.

Conversando por e-mail com a amiga que me indicou o livro, ela fez um aparte engraçado, e espero que não se zangue por eu transcrevê-lo aqui: ”(…) este romance é um perigo! Leva mocinhas inocentes a acharem que só elas entendem os esquisitões e podem converter os mauzinhos que odeiam a humanidade – mas as adoram porque elas são diferentes – em pessoas felizes.” Substituindo uma ou duas variáveis menos importantes dessa equação, a coisa toda fica parecendo um pedaço da história da minha vida.  

O que provavelmente explica, mas não justifica, ficar chamando Rochester de “safado manipulador”, dentre outros termos técnicos condizentes à minha profissão enquanto esperava uma amiga na fila do cinema. Ou seja: Jane Eyre foi a minha novela das oito de fevereiro. O que certamente não desmerece o livro, é bom que se diga. Tampouco a resenhista, que sempre pode colocar a culpa no calor. No mais, gostaria que o tal curso Literatura para Porteiras me valesse uns créditos para o doutorado. Já comecei a imaginar meu seminário sobre O Primo Basílio para Porteiras.

 

As fitas cassete do meu pai

E não é que eu consegui encontrar algumas fitas no fundo da gaveta?

(Esse post tem trilha sonora)

Dia desses comentei que, estando o Wando numa situação delicada (que meu avô gentilmente classificaria como “mais pra lá do que pra cá”), eu não conseguiria realizar o sonho de assistir um show dele. Eu e um amigo tínhamos esse projeto, e pretendíamos fazer o roteiro completo, jogando nossos trajes menores no palco e tudo, porque, veja, qual a graça se não fosse assim - e agora, Rômulo? THE KING IS DEAD.

A despeito de toda a galhofa – e das cuecas e calcinhas economizadas nessa brincadeira –  de fato lamentei quando soube da morte do cantor ontem de manhã. Por mais estranha que essa frase possa parecer, o Wando fez parte da minha educação sentimental. Sério. Meu pai adorava o Wando, costumava ouvir a fita (A FITA!) que tinha dele dentro do fusca (73). A mesma fita que hoje corri para resgatar de dentro de uma gaveta, e que pus imediatamente para tocar.

O Mundo Romântico de Wando, como não amar?

Meu pai ouvia não só o Wando, claro, mas o Wando também. Aliás, agora em finalmente parei para pensar na minha experiência como ouvinte de MPB, devo dizer que, nos meus primeiros anos de vida, o “Popular” era talvez a palavra que melhor representasse o que a sigla significava para mim. Chico Buarque e Caetano  eu só fui começar a ouvir final do Ensino Médio. Novos Baianos e Mutantes, então, esses só fui saber quem eram quando já estava na faculdade. Na minha infância, para além do rádio – rádio nos anos 90, realizem! – eu tinha as fitas cassete do meu pai.

Cabe esclarecer que papai nasceu numa cidadezinha de Minas chamada Santo Antônio Aventureiro (população de 2000 aventureiros e uns quebrados). Já tinha uns 10 anos quando foi finalmente informado do advento da luz elétrica; antes tarde do que nunca. Só foi descobrir o que era rádio, no entanto, quando tinha uns 15, porque mudou de cidade, indo morar em Mar de Espanha (população de 12 mil, mas isso em 2004, segundo a wikipedia). Na fábrica em que arranjou o primeiro emprego ( foi aprendiz e depois  lapidador de pedras preciosas), o patrão tinha um rádio daqueles grandes, verdadeiros móveis para enfeitar a sala.

Quando meu pai entrou na era da televisão eu não sei realmente dizer, porque ele nunca me contou essa história, ou se contou não me lembro. No entanto, ouvi muito sobre o rádio. Esse sim marcou-o de tal forma que, quando finalmente teve dinheiro para comprar seu primeiro modelo a pilhas, nunca mais viveu sem um. Meu pai foi caminhoneiro, taxista e, antes de adoecer, mecânico. Tudo isso durante as décadas de 70 e 80, e ouvindo rádio sem parar enquanto executava as funções que lhe eram designadas. – papai não teve grana para investir numa vitrola, mas chegou a tempo de assistir à era dos toca-fitas – aparelho que, aliás, até hoje conservamos lá em casa.

Para alguém com esse currículo, fica fácil  imaginar o repertório musical que estava contido nas fitas que enchiam a estante. Wando, Fagner, Sérgio Reis, Belchior, Agepê, Elba e Zé Ramalho, Almir Sater, Bete Carvalho, Alcione, Oswaldo Montenegro. Nomes e músicas que me lembram a infância. O Fagner, meu pai dizia, cantava as músicas mais bonitas que ele já tinha ouvido na vida, músicas que o faziam lembrar da época em que ainda não conhecia o rádio e ia para a praça da cidade com o pai para ouvir os violeiros que vinham de quando em quando. Já o Wando, segundo me contou, era sucesso nas matinês de sua adolescência, para dançar colado com as meninas, numa época em que as mães faziam rondas severas para conservar a honra de suas pequenas – eu sei, grande parte do mundo vivia a revolução sexual, mas estamos falando do interior.

Através dos ouvidos do meu pai, aprendi o valor de cada canção que falava sobre amores, bares, estradas e solidão. Mulheres perdidas,  Ritmos e temas que, depois vim a saber (e, consequentemente, até a repetir) que eram bregas. Mas que jamais tive coragem de esquecer, embora tenha guardado as fitas cassete do meu pai no fundo da gaveta, quando ganhei meu primeiro CD player. Eu devia ter uns 10 anos e resolvi convencê-lo de que as fitas estavam muitíssimo ultrapassadas, e que agora só compraríamos CDs. “Cds são discos pequenos –  e tão caros quanto”, dizia.

Ele morreu poucos meses após o meu décimo sexto aniversário. Em seus últimos dois anos – os mais difíceis para todos nós –  nossas diversões consistiam em assistir a MTV e a CMT (um canal de música country americana). E, de quando em quando, desligar a televisão para ouvir não o meu rádio, mas os seus cassetes no toca-fitas. A verdade é que nunca conseguimos (ou não nos interessamos, ou não tivemos tempo, dinheiro, tampouco me lembro) em comprar CDs dos ídolos do meu pai. De toda forma, não fez a menor diferença, e talvez tenha sido até melhor assim.

A história é essa, não há mais muito a dizer. Devo ao Wando. Não pelas músicas, pela coleção de calcinhas que já rendeu tantas piadas, ou mesmo por ser um autor que aprendeu a fazer um personagem de si e assim transcender a própria obra – muito esperto, senhor Wando, mas não por isso, claro.  Devo respeito e uma homenagem a ele hoje pela importância (quase insuspeitada) do símbolo: não é qualquer um que consegue transformar-se, para sempre, em uma das fitas cassetes do meu pai.


#DL 2012 – Papel manteiga para embrulhar segredos, Cristiane Lisbôa

Eu nasci numa dessas famílias que, à boca pequena, concedia epítetos pouco lisonjeiros aos membros que não correspondiam às expectativas gerais. Assim sendo, cresci ouvindo histórias sobre a Prima Crente do Rabo Quente, o Tio Devedor e a Nora Cachaceira, dentre outros tipos folclóricos. Essa breve introdução serve não apenas para fazer um inventário dos preconceitos familiares (e imaginar o que é que andam falando de mim hoje em dia!), mas também para dizer que na minha rua morava a Parenta Solteirona.

A bem da verdade, a Parenta Solteirona sequer poderia ser considerada como tal. Tinha mais de 40 anos quando casou, não teve filhos e o marido era “ausente”. Ausente, no caso, era um eufemismo para “gastava todo o seu dinheiro com mulheres na rua”, como muitos anos depois fui descobrir. (Para uma família com tão poucas travas na língua, não me perguntem por que justamente esse desvio era um tabu, eu não tenho uma explicação convincente sem ter de recorrer a jargões como “sociedade patriarcal” e blablabla. Prossigamos.)

A história a seguir se passa na casa da Parenta Solteirona, um dos lugares que eu e uma prima adorávamos visitar. A dita cuja possuía uma coleção de miudezas que nos encantava. Era fácil trocar todos os nossos brinquedos de plástico colorido – e mesmo meu master system – por uma tarde com bonecas de porcelana e de olhos de vidro, quebra-cabeças de madeira envelhecida e algumas outras preciosidades. A vedete da coleção era um jogo de chá de porcelana em miniatura. Aquelas xícaras minúsculas, um bule tão pequeno e colheres ainda menores saltavam aos nossos olhos a cada visita, mas permaneciam muito bem trancados na prateleira mais alta da cristaleira que ficava na sala.

Um dia, por um capricho qualquer, a Parenta Solteirona tirou o conjunto da cristaleira, e pôs até água da torneira no bule, para que o ritual do chá pudesse ser devidamente encenado. No entanto, só à minha prima foi dado o privilégio de mexer na louça: eu fui proibida terminantemente de chegar perto do bule, e só pude ficar com a xícara na minha frente, sem realmente tocá-la. “Você é um moleque, e se eu deixar na sua mão vai quebrar”.

A despeito da brilhantismo no trato com crianças que a Parenta Solteirona exibiu, em uma coisa ela estava certa: eu era mesmo um moleque. Por volta dos 10 anos eu barbarizava. Andava de boné, gostava de brincadeiras brutas e arranjava brigas na rua como quem muda a roupa das Barbies. Aliás, odiava Barbies. Minha prima era, como muitos podem supor, meu negativo: uma princesinha loira toda trabalhada na delicadeza. Outra suposição pertinente diz respeito ao final dessa história, que não é nada bonito, mas bastante previsível: chamei a Parenta de Solteirona, engatilhei dois palavrões cabeludos para que a frase surtisse o efeito desejado e fui embora, batendo os pés. Nunca mais fui convidada para aquela casa, e a Parenta Solteirona (que hoje em dia chamo de Esquisitona Rancorosa - devo ter herdado a vocação familiar, mesmo sem querer) não fala comigo direito até hoje.

Por mais que seja uma história engraçada (pelo menos o meu avô assim a descreveu para a minha mãe, na época, mas sei que há controvérsias), de vez em quando ela volta aos meus pensamentos. Sofro com uma sensação persistente de que não sou capaz de segurar uma pequena xícara de porcelana nas mãos sem que a tragédia, há muito anunciada, se concretize. É como se a delicadeza não tivesse vindo como item de fábrica para o meu modelo. Teimosa que sou, decidi aprendê-la na marra; e é por isso mesmo que ela é tão artificial e falha.

O corpo cresceu e ganhou formas femininas, o cabelo ganhou cachos, o boné vermelho foi substituído por um sem número de chapéus, tomei gosto pelas saias, vestidos e sapatos delicados. Mas ainda assim os modos (os maus modos, diriam alguns) permaneceram. Em um certo sentido, jamais deixei de ser um moleque – e não é de se espantar que, apesar de algumas concessões, eu não tenha abrido mão de ser assim.

Um efeito colateral dessa minha “deficiência de delicadeza” – Centrum resolve? – é meu interesse por coisas de mulherzinha. Um interesse estranho, que oscila entre a atração psicótica e a repulsa ostensiva. Só para citar um exemplo, dentre minhas leituras favoritas, que não são muito dadas a frescuras, separo um espaço especial na minha estante para os romances da Jane Austen. Sério. Já perdi a conta de quantas vezes li Orgulho e Preconceito. A madame fica encostadinha aos livros do Kerouac, uma coisa linda (e meio sacana) de se ver.

Papel Manteiga para embrulhar segredos me chegou às mãos nesse clima. Atração e repulsa. A capa e contracapa me eram demasiado fofas, isso sem falar no close da xícara que, por si só, já me deixou um tantinho apreensiva. Fiquei desconfiada, mas, como várias pessoas diferentes haviam me indicado, resolvi prosseguir na leitura.

A narrativa é epistolar, e deve muito de sua composição à fábula: uma aprendiz de cozinheira chamada Antônia, num restaurante perdido no tempo e no espaço, envia cartas e receitas para sua bisavó, muitas vezes escritas no próprio papel manteiga que usa na cozinha. O texto prossegue sereno e sem sobressaltos. As cartas salgadas e doces – dependendo de quais receitas as acompanhem – nos dão a conhecer um pouco mais da narradora e seu processo de iniciação na cozinha, que é também sua iniciação na vida adulta. Cabe à Senhorita Virgínia, dona do restaurante, o papel da tutora que auxilia Antônia em ambas as transições. E, de quebra, a matrona torna-se cúmplice dos segredos que a jovem partilha com a bisavó. Mais não digo para não atrapalhar a leitura, que tem lá suas pequenas reviravoltas, e não estou aqui para encaroçar o angu de ninguém.

As receitas, assinadas por Tatiana Damberg, parecem ser, em sua maioria, de execução fácil a moderada. Só não fui para a cozinha testá-las ainda por causa do volume de trabalho que tenho tido. A papelada só anda me permitindo, como ponto máximo dos meus delírios gastronômicos, parar o que estou fazendo para ligar para o delivery de empanadas. E olhe lá.

Cristiane Lisbôa cozinhou o texto em fogo baixo, com uma calda de açúcar dourada. Tudo é banhado por essa doçura caramelizada, daquelas que até fazem doer o cantinho da boca, sabe? Há passagens muito bonitas, como a que Antônia afirma-se como cozinheira para a bisavó, contrariando a mãe, uma feminista militante: “[...] como se para ser uma mulher moderna eu precisasse mentir que não gosto de panos de prato. Entendo que o sexo é político, abomino mutilações como as que acontecem em algumas tribos africanas e, claro, sou a favor de algumas coisas que ela defende, mas Bisa, minha luta é outra. Mulheres não precisam ser masculinizadas para que exista respeito. Em momento algum é preciso fingir que não temos, lá dentro, um sentimento arcaico de servir sabor a quem amamos. Isso não me diminui, não diminui ninguém. Apenas nos afasta”. E há também lembretes carinhosos para o melhor preparo das receitas, uma cortesia de Virginia: “Não se esqueça de tomar um copo de rum enquanto cozinha. Pode dançar se quiser”. Outras pequenas delícias são facilmente encontradas no corpo do texto – mas não vou citar mais nada para não encher  de couvert a barriga de possíveis clientes, antes que o prato principal tenha chegado à mesa. Digo que indico a leitura; indico a leitura com chá e biscoitos.

Por vezes achei que Cristiane Lisbôa fosse perder a mão. E, por vezes, quis deliberadamente que ela a perdesse: que a consistência ficasse estranha, que o leite coalhasse, que a massa solasse e virasse uma gosma enegrecida no fundo da forma. Assim eu poderia sair com um comentário cínico que me salvasse, assim não precisaria me render totalmente à aura acolhedora da cozinha de Virginia. Mas meus desejos azedos foram todos em vão.

E ainda bem, porque a receita seguiu seu curso e foi um sucesso. Quando terminei a leitura, num ponto de ônibus lotado, no meio de uma chuva sem trégua, numa das avenidas de maior tráfego da cidade, ainda assim. Ainda assim eu me sentia pronta para tomar chá com Antônia e Senhorita Virginia. E segurar a xícara entre as mãos, e talvez não deixá-la cair.

“Agora é daqui pra frente”, concluiu Antônia, esperançosa. “Pois é”, pensei comigo, enquanto o ônibus finalmente chegava ao ponto, e o ritual do empurra-empurra estava apenas começando.

#DL2012 – O pedante na cozinha, Julian Barnes

Eu adoro cozinhar. Mas na época em que tenho que escrever monografias ou outros textos para a academia caio de cabeça no vertiginoso mundo das refeições prontas com sabor artificial de papel, sacos gordurosos de biscoito, sanduíches de recheios tão criativos como atum e patê de latinha com maionese, dentre outras guloseimas do gênero. Isso não ajuda em nada o mau humor que costuma nortear todo o período em que me entoco em casa para escrever, eu sei. Mas só de pensar em chegar perto do fogão sinto uma preguiça existencial que me derruba. De volta ao computador: se é pra procrastinar que seja no twitter, e não cortando legumes.

(O caso extremo da preguiça gastronômica talvez tenha sido a semana em que me alimentei quase que exclusivamente de batata palha e coca zero, porque estava nas páginas finais da dissertação e não tinha tempo/disposição de sair de casa para comprar comida. O previsível resultado foi uma gripe-amidalite-conjuntivite que  quase me levou para o Esquecimento, e sem o diploma de mestre.  Não que o diploma fosse ter muita validade por lá, é claro. Fui defender o texto de óculos escuros, rouca e ardendo em febre. Um papelão que não pretendo repetir e que não recomendo para ninguém: crianças, comam seus vegetais!)

Também não gosto de cozinhar só para mim. E eu geralmente estou só durante grande parte do processo de escrita – até porque fico particularmente insuportável em épocas como essas. Quando nem o amor de mãe dá conta, e a minha  ameaça me rifar…, vai vendo. Voltando ao tema. Cozinhar para consumo próprio esbarra em alguns impedimentos básicos na minha visão de mundo, que são:

1) Só gosto de comida feita e consumida na hora. Me chame de garotinha da mamãe, mas mesmo que eu cozinhe a menor porção possível do básico, ainda assim vai sobrar arroz e feijão para sei lá quantos milênios, e sou fresca o suficiente para achar que 48 horas depois o “gosto de geladeira” causa danos irreversíveis em qualquer tempero.

2) Não tem ninguém para lavar a louça. Cara, eu odeio lavar louça. SÉRIO. Posso ficar 4 horas na cozinha tranquilamente, mas não me peça para lavar louça por 20 minutos.

3) E, o pior de tudo: não há ninguém para cumprimentar o cozinheiro pelo sucesso de um prato. De que adianta um penne ao funghi irretocável se não havia testemunha gustativa para atestar o fato? Resultado: você vai comer, vai mandar um “joinha” interno para si e o que sobrar do manjar di-vi-no que você preparou… adivinha?  Quando alguém resolver atacar as suas sobras num momento de desespero arqueológico, a comida vai estar com gosto de geladeira. E você ainda vai ter que ouvir algum esfomeado na madrugada perguntando se tem miojo no armário. Vai por mim: história real.

No entanto – e apesar dos pesares – cansada da rotina de almoçar um congelado e jantar hambúrguer (cortesia do namorado, que se dispôs a fritá-los para mim durante boa parte das últimas semanas – e não sou mal agradecida!), decidi cozinhar algo que se parecesse com comida de verdade. Ainda que de leve. Fui ao mercado sem um plano específico e voltei com bombons de alcatra. Improvisei um molho madeira, fiz uma farofinha com ovos, fritei umas batatas noisettes – que eu havia comprado congeladas, ou você achou que eu ia ter saco de prepará-las? – e pronto, em menos de 50 minutos tinha salvado um pouco da minha dignidade.

Imbuída do espírito de “minha comida não parece uma gororoba aleatória” achei por bem espantar a preguiça de vez e resenhar o primeiro livro do Desafio Litérário 2012: O pedante na cozinha, de Julian Barnes.  O tema de janeiro, para quem não se lembra, era Literatura Gastronômica. E eu havia prometido ler Como Água para Chocolate, da Laura Esquivel. Sucede que eu não achei o livro de jeito nenhum nas minhas estantes, antes de viajar. E acabei encontrando O Pedante como que por acaso numa das minhas visitas à livraria X de um cinema Y. (Tinha colocado o nome da dita cuja, mas retirei antes que me acusassem injustamente  de merchan: gasto os tubo por lá e nem os marcadores de página que eles dão são utilizáveis – só fazem propaganda de livros uó).

Enfim, O Pedante na Cozinha. Vamos à ficha técnica.

Autor: Julian Barnes, o mesmo indicado pelo Marcos Faria para o mês de maio, com seu História do Mundo em 10/2 capítulos. Uma puta e feliz coincidência, devo dizer. Nunca havia lido, e estou pensando em colocar na lista de prioridades, porque me diverti de verdade.

O que é: uma série de crônicas sobre culinária, (muito bem) escritas por aquele que se julga um pedante na cozinha: o obsessivo que gostaria de extrair o máximo de cientificismo das receitas culinárias, e que está pronto a queimar livros e autores  na inquisição culinária pelo uso de termos subjetivos como “a gosto”, “pitadas”, “mão cheia”.

Não, espera, não estou sendo justa – o livro não é só isso. Ele também dá alento a cozinheiros esporádicos como eu, dizendo coisas óbvias mas pertinentes como “jamais acredite nas fotos dos livros” e “não compre um livro sobre sucos se você não tem um espremedor de frutas em casa”.

Tempo de preparo leitura: um par de horas muitíssimo bem aproveitadas. Coisa fina para ler enquanto se assa uma maminha na cerveja preta.

Adequado para:

a) gente que gosta de cozinhar e fica meio neurótico quando a receita não é clara o suficiente, ou quando a suflê dá errado, ou quando aquela sobremesa fica parecendo pudim de terra.

b) diletantes na cozinha que sempre largam a receita de lado no meio do caminho e sempre acham que vão fazer melhor do que chefs pomposos com programas na TV – chupa, Gordon Ramsay! – geralmente com resultados catastróficos. Categoria na qual me incluo.

c) gente que nem liga muito para cozinha – quer dizer: sabe fazer pipoca de microondas – mas ainda assim gosta de um texto bem escrito, de uma ironia de bico de pena e de rir um pouco com as desgraças alheias. Categoria na qual também me incluo.

Perdeu o ponto: nas ilustrações. Vou te contar, as ilustrações do livro são motivo de vergonha alheia para 2012 inteiro e além. Tão feias e despropositadas que sequer estão creditadas. Ou foi o filho adolescente de alguém importante quem fez, ou foi o próprio autor (que não quis ser incriminado pelo capricho) ou foi obra de algum chef muito xingado nas crônicas, que conseguiu inserir aquelas atrocidades visuais antes que o livro fosse impresso na gráfica.  Não compromete o texto do Barnes, evidente, mas destoa do conjunto geral. “Nunca acredite nas fotos”, o autor diz. E eu digo “não acredite nas ilustrações toscas”, porque o livro não merece.

O couvert é opcional: Leia a primeira crônica aqui.

Até o fim do mês verei se consigo encontrar minha Laura Esquível perdida. E aos leitores e amigos que me indicaram a leitura de Papel Manteiga Para Embrulhar Segredos, da Cristiane Lisbôa, devo dizer que estou frustrada. Fiquei animada com tantas indicações (foram pelo menos 7 ou 8, de uma autora que eu desconhecia), achei o blog da moça, entrei em cinco livrarias diferentes e em nenhuma delas havia um exemplar do livro dando sopa. Digo o mesmo para dois sites e a Estante Virtual. Acontece.

Só mais 5 minutinhos… de tensão

Não basta sofrer com a insônia: é preciso ter o sono leve, daqueles que fazem do passarinho cantando no parapeito da janela um inimigo mortal. Isso sem mencionar as cigarras no verão – não há bucolismo que resista àquele som infernal e lá esta você, desejando que um bichinho que você nem consegue ver CANTE, MAS CANTE ATÉ EXPLODIR, MISERÁVEL. Como é que se pode ser uma boa pessoa numa situação dessas, me diz?

Enquanto eu não puder me entocar num quarto com luz e temperaturas controladas – e, acima de todas as coisas, isolamento acústico – vou provavelmente acordar nas primeiras horas da manhã com algum barulho persistente, e particularmente irritante. E com um humor daqueles de pendurar a plaquinha “Cão bravo”. Não é culpa do mundo se meu relógio biológico anda em descompasso, mas, ei, certamente a culpa não é (inteiramente) minha também. Não podemos chegar a um acordo?

Ah, as maravilhas da vida em comunidade! Não importa se com a família, o namorado ou os colegas de quarto, e  eu tenho ampla experiência nos três casos: sempre haverá um motivo para querer esganar as pessoas que moram com você, ainda que com muito amor. É o ronco compassado de sua querida mamãezinha, é sua colega de quarto que perde a chave de casa às três da manhã e fica ligando para o seu celular até que você  abra a porta, é o seu avô que decide que sob a sua janela é o ponto acústico perfeito para martelar em algo por horas, ou para conversar com as pessoas que passam na rua. Muito, muito amor.

Mas um dos aspectos mais irritantes de viver sob o mesmo teto que alguém é, sem dúvida, o número de vezes que essa pessoa aperta a função “soneca” em seu despertador ou celular. Deveria haver um capítulo nos códigos de bom comportamento apenas sobre como esse hábito é insuportável, e como deixa quem não participa do processo num estado de absoluta tensão.

Para não parecer mais mal humorada do que realmente sou: não tenho absolutamente nada contra despertadores. Não é porque eu ando trabalhando e vivendo em horários alternativos que o resto do mundo precise fazer a mesma coisa. Se você tem que acordar seis e meia da manhã para bater cartão às nove, vou cobrir minha cabeça e te desejar em pensamentos um bom dia de trabalho, virar para o outro lado e tentar reencontrar o sono interrompido. Quando eu tenho que acordar num determinado horário, o tempo que vou passar a mais na cama não é nunca pontuado pela ditadura da soneca; do contrário, não consigo relaxar.

No entanto, normalmente as coisas não funcionam assim. Digamos que a pessoa precisa acordar às seis e meia: ela então coloca o relógio para despertar às seis e fica, de cinco em cinco minutos utilizando o recurso soneca. Considerando que a pessoa (que-ri-da) em questão está querendo dormir mais um pouco, é improvável que vá abrir os olhos só para deter um aparelho fora de controle. A ação de tatear a mesa de cabeceira até achar o despertador – e o botão correto que acionará o dispositivo – leva, portanto, o dobro ou o triplo de tempo necessário. Resultado: uns bons 15 segundos de alarme em sua cabeça, a cada cinco minutos, num intervalo de meia hora. Um pesadelo. E, juro, não estou exagerando.

Nesses cinco minutos (e em todos os outros que seguirão) seu parente/roomate/parceiro terá sonhos intricados e complexos, vai roncar e babar no travesseiro… enquanto você – no caso, eu – vai estar imerso em angústia, perguntando-se se é dessa vez que o desalmado vai finalmente levantar, ou se você terá que ficar esperando por uma possível redenção pelos cinco minutos seguintes.

Considerando que, duas ou três repetições depois, quem perdeu o sono totalmente foi você –  no caso… –  é hora de levantar, ir ao banheiro, checar as olheiras, tomar uma água, abrir o  notebook, quem sabe até fazer um post meio ranzinza no blog, só para conjurar um sono que não há de voltar tão cedo.

Eu sei que sou voto vencido, que a humanidade incorporou definitivamente a soneca ao descanso. Só me resta correr para as cavernas, ou talvez nem isso. Porque eu só me mudo de vez se conseguir encontrar alguma que não tenha cigarras – ou mesmo passarinhos bem intencionados – na vizinhança.

Saudosismo na ponta da língua

A primeira segunda-feira do ano e lá estava eu, na seção de hortifruti do supermercado, indecisa sobre levar uvas ou cerejas frescas para o lanche*. Ao meu lado, um casal de velhinhos examinava com cuidado a pilha de frutas-do-conde. “Estão muito feias – disse a senhora -, é por isso que estavam tão baratas no reclame.”

Acabei me decidindo pelas uvas (mas já estou arrependida, e amanhã vou resgatar minha cerejas!), dei um sorriso para o casal  e fui embora, me sentindo um tanto cúmplice daquela escolha vocabular. Por conta de certas contingências familiares, eu passei grande parte da minha infância sendo criada pelo avô materno, que hoje tem nada menos do que respeitáveis 87 anos. Façam as contas, crianças, o pequeno Moacyr nasceu em 1924 – o “ph” da Pharmacia só caiu em 1943. Imaginem o número de arcaísmos que há naquela cabecinha branca, e quantos eu assimilei por osmose no decorrer dos anos. De vez em quando eu preciso de um toque das pessoas ao meu redor para dizer que não, Gabriela, as pessoas normais não falam assim hoje em dia.

Reclame eu bem sei que não se usa, que o comercial e a propaganda são os equivalentes que não fazem as pessoas olharem para mim com aquela cara de interrogação sobre onde foi que eu andei durante as últimas sete ou oito décadas. Mas naquele dialeto sentimental que compartilho apenas com o Seu Machado, num desses dias de dezembro me peguei comentando sobre os reclames de fim de ano da Globo, enquanto tomávamos café.

Agora chapéu é um caso clássico na minha vida. Eu não sabia que chapéu (usado para designar um guarda-chuva) havia saído de moda. Ou talvez o termo jamais tenha entrado em moda alguma e meu avô só fala assim  porque  é hipster deu na telha dele. De todo jeito, lá em Petrópolis é um tal de chapéu pra lá e chapéu pra cá – até porque, convenhamos, aquela cidade só faz chover – que eu assimilei a palavra e não consigo usar qualquer tipo de substituta, se não estiver muito atenta. O que, invariavelmente, faz com que meu interlocutor olhe pra mim daquele jeito estranho como se olha para pequenos bichos que vivem embaixo de pedras úmidas.

A lista continua. Banzé, no lugar de “confusão”, decalque em vez de “adesivo”, Cricri substituindo “implicante”, pratinhas para não dizer “moedas”. Putz grila, borocoxô, supimpa, bacana (eu sei, agora o bacana está ficando bacana de novo), tudo isso é do tempo “que se amarrava cachorro com linguiça”, “em 1900 e guaraná com rolha” –  duas expressões idiomáticas muito caras ao meu sábio avô.

Essa sou eu: com o saudosismo de uma época que não vivi na ponta da língua. Mentira, é claro que vivi: aquelas tardes em Petrópolis nas quais meu melhor amigo me ensinava a andar de bicicleta, a soltar pipa (embora eu nunca tenha aprendido) e a comer caqui quente de sol no pé – tirando a cica da fruta com muito cuidado. Ainda se fala cica por aí, aliás?**

 

***

* Essa frase poderia ter saído de um início de episódio de Desperate Housewives. O que atesta que janeiro é um mês esquisito na minha vida, no qual tenho que:

1) ficar dentro de casa escrevendo monografias de doutorado como se não houvesse amanhã, porque se eu for pensar no prazo, não há;

2) perder desesperadamente as calorias a mais consumidas em dezembro. Aquele panetone da Havana, os drinks com vodka de baunilha, o tender ao molho de laranja… razão pela qual eu estava na seção de hortifruti, e não na padaria, como dita o costume.

**fui pesquisar para ver se o deus google ajudava, e vejam que coincidência – o Vinícius ainda usa o termo cica. Faz sentido que esteja ficando com os cabelos brancos, e que, justamente hoje, enquanto escrevo, esteja ficando um ano [ainda mais] velho. Parabéns! ;) )